A estranha relação do time com a torcida

Leia o post original por Bruno Maia

crédito: Alexandre Cassiano / OGlobo

Seria engraçado, se não fosse com o Vasco. Mas é impressionante como os times que se sucedem, por vezes, parecem ter medo da torcida em São Januário – e nisso não há nenhuma graça. Na volta dos verdadeiros donos às arquibancadas com mais história no Rio de Janeiro, os jogadores se amedrontaram. De novo.

Quem comanda o Vasco precisa entender que a enorme maioria da torcida que frequenta estádios em 2014 é composta de seres humanos que viveram a época de maiores conquistas do clube e também uma derrocada traumática, acelerada, em menos de dez anos. Fomos do céu a quase o nível do Fluminense de maneira vertiginosa. O grau de exigência do torcedor vascaíno é alto e ele já foi achincalhado e afrontado em muito por grupos recentes que passaram pelo clube. Concordo que o jogador que está lá hoje nada tem a ver com isso, chegou agora, é um profissional, está trabalhando. Mas esse pensamento tem que estar claro, mas MUITO CLARO, na cabeça de quem planeja e gerencia o trabalho a frente de uma instituição como o Vasco.

Ontem a torcida voltou a São Januário. Estava com saudade, compareceu em um bom número, considerando-se dia/hora/adversário/contexto. Uma vez lá, esta torcida vai exigir. Esta torcida não aceita corpo-mole. Esta torcida muitas vezes vai ser chata, passional, sem razão, porque já foi muito vítima nos anos recentes. Sabemos quem somos, onde estamos e onde devemos estar. Jogadores e diretores passam, a torcida fica. No título da Libertadores, ou na série B, o único a estar lá sempre foi o torcedor. Essa relação precisa ser mais bem cuidada e administrada, tanto fora de campo – com a valorização do evento, com atividades promocionais que aproximem a torcida do time de uma forma positiva – quanto dentro de campo. Trazer a torcida junto depende do jogador e, muito, de como inicia-se a partida. É preciso chegar mais perto, comemorar mais junto, levantar o braço, dar todo o suor possível. Colar a torcida do Vasco com qualquer time que passe por ali é trabalho de diretoria e jogadores. Isso explica, por exemplo, que apesar das limitações e irregularidades, tanta gente ainda amasse o Bernardo.

Ontem, mais uma vez, vimos um time apático diante da torcida em São Januário. Já vimos demais isso nos últimos anos. Ouso dizer que vimos isso na maioria dos jogos em São Januário nos últimos dez anos, pelo menos. Ontem chegamos ao cúmulo de tomar sufoco do Treze, com um a menos (muito mal expulso, diga-se de passagem), em São Januário, tendo entrado em campo com vantagem. Não pode. A torcida ama esse clube. A torcida quer levar esse time no colo. Mas alguém precisa entender isso e tentar imediatamente mudar as coisas. Se não, não dá pra reclamar quando a torcida começa a se impacientar e vaiar. A torcida responde, quem tem que propor é a diretoria e o time em campo. Se a única coisa que é “proposta” é um jogo de baixo nível, com jogadores cometendo erros repetidos e graves, só nos resta vaiar. Isso não é bom pra ninguém e é péssimo para o jogador. Mas culpar a torcida pelas vaias, é não olhar para o próprio rabo sujo e para suas próprias responsabilidades.