É crise técnica, sim, senhor!

Leia o post original por Mauricio Noriega

A palavra crise provoca calafrios no ambiente do futebol e do esporte.

Crise política, crise financeira, administrativa, crise no vestiário e crise técnica, sim, senhor!

Não tenho receio algum em afirmar que o futebol brasileiro vive uma grave crise técnica.

Que não se instalou da noite para o dia, mas foi germinada há dez, quinze anos, floresceu silenciosamente, sendo ocultada por alguns bons resultados, e agora é fruta madura (ou seria podre?).

Por crise técnica eu entendo o que se vê na maioria das partidas de futebol disputadas no Brasil e por jogadores brasileiros.

Uma coisa é o futebol jogado no Brasil. Outra é o futebol praticado por brasileiros que atuam na Europa.

Não se trata de apontar culpados, mas de buscar as causas, identificá-las e tratar de combatê-las. Enriquecer o debate, como propôs Mano Menezes, que encontrei por acaso num aeroporto da vida, dia desses, perguntando se alguém chamaria o San Lorenzo de retranqueiro.

Visivelmente irritado com algumas críticas, ensejando um debate mais amplo, que envolva a qualidade do atleta profissional de futebol que se produz por aqui.

Concordo com ele quanto à riqueza do debate e não fujo da responsabilidade do meu lado da trincheira, o do analisa, crítico, comentarista, enfim, a mídia.

Assim como não excluo do rol de responsabilidades os treinadores, em todas as esferas. A começar pelos que formam jovens jogadores, chegando ao topo da cadeia alimentar, aqueles que, consagrados, recusam-se a tentar algo novo, a ousar, a arriscar perder um torneio aqui pra vencer muitos acolá.

O debate sobre futebol no Brasil está infestado por uma mania de querer demonstrar conhecimento e erudição. Citar números, esquemas, treinadores e ligas estrangeiras. Em muitos casos parece mais discussão sobre economia e estatística.

Gosto da parte tática e, modéstia à parte, estudo muito para me aprimorar. Há quem concorde e discorde do que opino, o que é uma maravilha.

Mas o cerne da questão vem sendo deixado de lado.

Volto ao San Lorenzo, citado pelo Mano. Bom time, arrumado, bem treinador. Tem jogadores com leitura de jogo inteligente, preparada. Não tem craques. Eliminou três dos seis times brasileiros que jogaram a Libertadores. É uma equipe que sabe se defender, mas não abdica do jogo. Basta ver os teipes dos jogos contra o Grêmio e o Cruzeiro, no Brasil, para verificar que em ambos o San Lorenzo esteve algumas vezes cara a cara com os goleiros adversários em contragolpes bem moldados. E que raramente ofereceu contragolpes aos adversários.

Jogadores como Villalba, Mercier e Piatti possuem uma inteligência tática, uma compreensão do jogo que rareia em atletas brasileiros, que muitas vezes são tecnicamente bastante superiores.

A questão chega à formação do jogador brasileiro.

Muricy Ramalho, provavelmente o mais vencedor dos treinadores nacionais no século XXI, fala disso há tempos. O Brasil não forma mais laterais e meias. Mas a linha de montagem despeja alas e volantes aos borbotões. O Brasil não se preocupa com a produção de jogadores de futebol capazes de dominar os fundamentos técnicos do jogo, mas a cada ano lança um exército de atletas capacitados para correr muito e trombar bastante.

Respeito demais o Muricy. É dos raros treinadores que ainda admitem que seu time jogou mal, quando joga mal. Tem seu jeito meio tosco, mal humorado, mas não foge da responsabilidade e não costuma jogar as derrotas nas costas das arbitragens.

Há muitos bons treinadores no futebol brasileiro. Muitos mesmo. Seria burrice afirmar que nossos “professores” não têm conhecimento, que não se atualizam, que não sabem dar treino. Claro que sabem. Óbvio que buscam o padrão e a intensidade de jogo praticados pelos melhores times do mundo.

Mas é preciso perguntar: e os jogadores?

Não somos nós mesmos, torcedores e analistas, que seguidamente apontamos estrangeiros como destaques em nossos campeonatos? Tivemos recentemente Tévez, Conca, Seedorf. Temos ainda Barcos, D´Alessandro, Valdívia, Aranguiz, Guerrero (sua seleção não se classificou). Todos jogadores estrangeiros que freqüentemente são apontados como acima da média atual do futebol brasileiro. Realmente são. Detalhe é que destes que citei, apenas os dois chilenos estão convocados para a Copa do Mundo por suas seleções. Perdoem-me se esqueci de algum gringo bom de bola.

O último grande camisa 10 do futebol brasileiro é alguém que foi sem ainda ter sido: Ganso.

Dos prováveis titulares do Brasil para a Copa, só um atua no Brasil: Fred, remanescente da Copa de 2006.

Nosso melhor jogador, disparado, Neymar, ainda luta para se firmar no Barcelona.

É para pensar, ou não?

Claro que o Brasil tem boas condições de vencer mais uma Copa do Mundo. Mas isso mudará alguma coisa no sistema de formação de nossos jogadores e na qualidade do jogo que se pratica por aqui?

Vencemos em 1994 e 2002 e a crise técnica já estava em gestação, silenciosa, sorrateira.

Vasculhe sua memória em busca de um grande jogo de futebol que você tenha assistido neste ano, em campo ou pela TV, disputado por times brasileiros.

Vale ou não enriquecer o debate?