Versalhes vive. Jantando com a presidenta

Leia o post original por Mauro Beting

O Palácio da Alvorada, como a presidenta, é muito mais bonito pessoalmente.

Tem toda a imponência palaciana, seja Versalhes ou o Palácio da Picanha. Mas é surpreendentemente aconchegante para uma obra de Niemeyer. Com mais uma capela linda de viver do ateu que gostava de cimento e concreto mais que a Votorantim.

Dentro dele, se alguém pode se sentir dentro de algo tão aberto e amplo, Paulo Santana, Renata Fan, Renato Maurício Prado, PVC, Paulo Calçade, Juca Kfouri, Teo José, Milton Leite e Tino Marcos e eu (Galvão Bueno e Milton Neves não puderam ou quiseram vir) estávamos em Versalhes. Ou na Disney. Com uma piscina que não sabia se era o lago Paranoá ou o amazônico caixote d’água onde só o netinho, por duas vezes, levou a presidenta para dentro do piscinão do JK.

(E ainda me pergunto o porquê do Collor ter feito as cataratas da casa da Dinda com esse aquífero candango agora da Dilma…)

Selfie não se fez. Mas deu vontade. O fotógrafo oficial Roberto Stuckert nos salvou. Ele e a presidenta, com simpatia, atenderam aos pedidos de fotos exclusivas. De todos.

Parecíamos crianças. Mas conversamos como gente grande. Dilma (permita-me, sua excelência), abriu os trabalhos falando do país da Copa e da Copa do país.

Agradou até quem não era Dilma. Ou foi PT. Ou é. Não importa. Falou com propriedade e segurança sobre segurança, propriedade, quase tudo.

E quase tudo se perguntou. Formal e informalmente. E ela não relutou. Não refugou. Abriu o verbo, falou de verbas, e da couraça criada.

Para falar bela frase a respeito da solidão do poder:

– Não tenho tempo para ter isso.

Teve coragem e caráter para explicar ao Juca que aprendeu a conviver com que esteve do outro lado. Ou apoiou a ditadura.

– Nós vencemos. Eu posso dizer aos meus filhos e netos o que eu fiz. Eles não podem.

Seguiu o jogo. Falando não apenas de futebol e Mundial. Ela não apenas confiando na Seleção e em Felipão. Mas também na sorte. Batendo três vezes na madeira por baixo da mesa pedindo a sorte para a Amarelinha na Copa. Rindo do papa argentino que não quer dar sopa por aqui em caso de Messi.

Pergunto se o que foi feito para a Copa está dentro do que ela esperava. Ela se anima com o Brasil dos últimos 10 anos. Insisto. Ela diz que fizemos o que podíamos. E podemos fazer mais.

Mas, lá no fundo, fiquei com a sensação de que também ela acha que “Copa das Copas” é slogan mais que fato. Perdemos a chance de fazer um Mundial para o Brasil e não para o mundo. Patrão Fifa mais padrão Brasil de fazer por mais o que nem sempre é preciso fez a farra de poucos para A festa de muitos.

Não estamos atrasados para a Copa. A Copa é que ainda está muito adiantada para o Brasil.

Mas vai ter Copa. E nada de bloc, black, bloqueio vai parar. Vai ter protesto. Vai ter algo como 2013. Mas com menos violência policial. Com menos reação à ação. As autoridades aprenderam. Vão prender.

E Copa do Mundo é diferente de Copa das Confederações.

São outros 200 milhões em ação.

Como aprendeu a jovem Dilma em 1970, pouco depois da sessão de tortura a que foi submetida.

Ela viu o Mundial do México. Ela torceu pelo Brasil sempre.

Pena que, para ela, a brilhante e tocante “Pra Frente, Brasil”, os 90 milhões em ação de Miguel Gustavo, ficou uma canção que remete não à vitória sensacional do maior campeão de Copas.

– “Pra frente, Brasil” me dá a sensação de dor”.

Dilma foi ganhando o jogo. Espirituosa, ria das piadas e tiradas e também contava as dela.

Mas falou sério mesmo quando mais ouviu que ditou. Quando Calçade, Juca, PVC e eu falamos e defendemos com teclas e dentes o Bom Senso FC. Quando escalamos a turma da Universidade do Futebol no time de gente do bem que pretende melhorar. Moralizar. Estudar. Recriar. Refletir. Reconduzir o futebol dentro e fora de campo. Fazer na base um esporte maior, logo, melhor.

Dilma quis ouvir mais. Sabe que é preciso vencer o coronelismo cartorial jogando duro. Com novos players. Com outra mentalidade e tática.

Falamos do Bom Senso FC. Durante a sobremesa, contactei alguns dos líderes do movimento. Todos se animaram com a possibilidade do encontro que deverá ser dia 27 de maio.

Deve ser, então, que gente interessada em virar o jogo vai ao encontro da presidenta interessada em fazer realmente um legado da Copa para o esporte.

Pontapé inicial para demolir feudos falidos. Ou pior: lideranças que rebaixam clubes e cartolas à condição de coroinhas nada carolas. Endividados até a tribuna dita de honra. Comprometidos até além da última verba da TV e do checão dos donos da bola, boladas e controles não tão remotos assim.

No final das quatro horas de conversa, com mais fotos de turistas, ganhamos da presidenta “Pátria de Chuteiras”, coleção de Nelson Rodrigues. Nada mais apropriado pelo local e pelo papo.

Peguei autógrafos para os meus filhos. Lamentando ter esquecido no hotel dois dos meus 13 livros e o DVD da série dos 100 Anos da Seleção Brasileira que também dirijo para a National Geographic e Fox Sports. Lembranças que daria a Dilma pela noite inesquecível.

Perdão pelo merchan. Mas não resisti de fazer por aqui algo que a presidenta muito bem não fez no encontro.

Ela em momento algum pediu coisa alguma. Ela elegantemente reclamou da mídia que é aquela corrente pra frente (ou não) que a detona como se fossem reinaldos e raquels. Ela repetiu o que se vê, lê é ouve desde Floriano Peixoto – a quem tanto elogiou.

Mas sem citar PIGs, privateiros e outros inimigos dos Petralhas e da esquerda caviar (seja a estultice que isso significa)

Dilma foi muito mais presidenta que petista. Foi muito mais uma cidadã preocupada que uma candidata à reeleição.

Embora ela seja tudo isso. E um pouco mais.

Nós fomos mais que turistas torcedores. Fomos um pouco jornalistas também. Logo, metidos, presunçosos, todo o pacote.

Mas, certamente, todos nós, e mais os três ministros presentes, saímos mais brasileiros do encontro.

Imagina na Copa das Copas o que sentimos no salão de jantar da Alvorada.

P.S:

Jantar não é adesão. Conversa não é adesão. Entrevista não é adesão. Debate não é adesão.

Democracia é isso.

Saber ouvir. Ler. Falar. E não inventar. Não achar que sete anos de opinião crítica a um evento mudam com um agradável jantar.

Sim. Um jantar pago por todos nós.

Como o meu estacionamento eu paguei em Congonhas. O voo foi este LANCE!, que também pagou o hotel. O taxi até ele foi pago na ida pela ESPN, na carona que peguei com o amigo Calçade. Para ir até o Alvorada, paguei do meu bolso o táxi. O da volta, foi o Milton Leite. O da madrugada, para retornar a São Pauli, eu que paguei.

Para a viagem impagável de jogar conversa dentro com a presidenta.

Algo que também faria se o presidente fosse Sarney ou Collor.

Mas com sal de fruta.