Amargo Joel

Leia o post original por Mauro Beting

 

Gilmar, Djalma Santos, Bellini, Zito, Dino Sani, Pepe, Jair Marinho, Altair, Mengálvio, Amarildo, Jair da Costa, Félix, Carlos Alberto Torres, Brito, Piazza, Clodoaldo, Jairzinho, Ado, Zé Maria, Paulo Cézar Caju, Roberto Miranda, Dario, Edu, Gilmar, Cafu, Ronaldão, Mauro Silva.

Nunca tantos campeões do mundo estiveram juntos em um evento. Foi em 29 de setembro de 2009, no Museu do Futebol. Tive a honra de apresentar e nomear cada um dos 28 presentes. E todos os 94 pentacampeões mundiais pelo Brasil.

Não há paixão coletiva mais individual que o futebol. Quase uma orgia onanista. Não é o “nosso time”, é o “meu” time. Celebramos esse ato de amor em conjunto. Mas, no fundo, é a nossa, epa, a minha vitória.

Por isso nos apoderamos do sucesso alheio. “Somos” pentacampeões mundiais. Embora apenas 94 jogadores sejam de fato campeões. Estiveram naquela noite, no Museu do Futebol, no Pacaembu, 28 deles, no lançamento das réplicas das camisas da Athleta tricampeãs mundiais. Cópias perfeitas de campeões inigualáveis. Os “nossos” campeões. Dos meus campeões. Sem aspas. Porque eles são meus. São seus. E não são apenas “nossos”, dos brasileiros. São campeões mundiais. E do mundo. Eles trouxeram o mundo ao Brasil por cinco vezes. E levam para sempre o Brasil ao 0 mundo que se orgulha de ser vencido por um canarinho.

Devo a eles 24 anos jornalistando atrás da bola. Devo 47 anos de vida ao futebol: meus pais se conheceram numa rádio onde ele trabalhava para ajudar a ganhar o dinheiro que pouco ganhava como repórter esportivo.

Minha vida não é só o futebol. Mas eu devo minha vida a ele. Quase que o futebol me matou do baixo dos meus três anos: meu pai esqueceu que estava no colo dele, quando Jairzinho vazou Banks, e o Brasil ganhou da Inglaterra, em 1970. Fui parar na frente da TV, chorando esbodegado. Vai ver que por isso fui parar dentro da televisão, do jornal, do rádio, da revista e da internet. Fiquei ainda mais pancada. Ainda mais louco por essa loucura.

Parabéns, pentacampeões Marcos, Dida e Rogério Ceni; Cafu e Belletti, Roberto Carlos e Júnior; Lúcio, Edmilson, Roque Júnior e Anderson Polga; Gilberto Silva, Kleberson, Vampeta, Juninho Paulista e Ricardinho; Ronaldinho Gaúcho, Rivaldo, Ronaldo, Denilson, Edilson, Luizão e Kaká .

Só pode ser penta quem foi tetracampeão mundial.

Parabéns, Taffarel, Zetti e Gilmar; Jorginho, Cafu, Leonardo e Branco / Aldair, Márcio Santos, Ricardo Rocha e Ronaldão; Mauro Silva, Dunga, Mazinho, Zinho, Raí e Paulo Sérgio; Bebeto, Romário, Muller, Viola e Ronaldo.

Só pode ser tetra quem foi tricampeão mundial.

Parabéns, Félix, Ado e Leão; Carlos Alberto Torres, Zé Maria, Everaldo e Marco Antonio; Brito, Piazza, Baldocchi, Joel Camargo e Fontana; Clodoaldo, Gérson, Rivellino, Jairzinho, Tostão e Pelé; Edu, Paulo César Caju, Roberto e Dario.

Só pode ser tri quem foi bicampeão mundial.

Parabéns Gilmar e Castilho; Djalma Santos, Jair Marinho, Nilton Santos e Altair; Mauro, Zózimo, Bellini e Jurandir; Zito, Zequinha, Didi e Mengálvio; Garrincha, Jair da Costa, Vavá, Coutinho, Pelé, Amarildo, Zagallo e Pepe.

Só pode ser bi quem foi campeão mundial.

Parabéns, Gilmar e Castilho; Djalma Santos, De Sordi, Nilton Santos e Oreco; Bellini, Orlando, Mauro e Zózimo; Zito, Dino Sani, Didi e Moacir; Garrincha, Joel, Vavá, Mazola, Pelé, Dida, Zagallo e Pepe.

Parabéns Feola, Aymoré, Zagallo, Parreira e Felipão.

Parabéns, Brasil.

Esse era meu emocionado texto de então, que ainda me deixa muito feliz pela honra que meu querido amigo Marcelo, filho de Gylmar, e presidente da Associação dos Campeões Mundiais, me deu: o privilégio de apresentar cada campeão. De nomear cada um. Por eles todos ser abraçado com enorme carinho.

Menos por um que, confesso, só vi que estava entre nós quando olhei para todos eles sentados no auditório do museu.

Quando eu já estava falando vi um senhor elegante, de grandes óculos escuros, não mexendo um músculo da face durante o discurso e as belas homenagens feitas por todos. Senhor que logo depois ficaria ao meu lado, no bar do estádio, com Clodoaldo, Amarildo, Jairzinho e outros campeões do mundo, assistindo a Cruzeiro 1 x 2 Palmeiras, pelo BR-09.

Único que nada comentou durante o jogo. Não sorriu. Não se chateou. Não. Apenas não.

Único que, três anos depois, em festa pelos 10 anos do penta na casa de Cafu, também pouco falou. E quase nada quis gravar a respeito do tri mundial que ele ajudou a conquistar. Ainda que não fosse o dileto zagueiro-esquerdo de Zagallo. Ainda que pudesse ter sido pela categoria com que jogou pela zaga do Santos nos anos 60 e 70.

Antes de um acidente. Antes de mudar a carreira e o jogo e a vida.

Melhor vocês podem ler e ver em excepcional reportagem em HQ da última edição de Placar. Parabéns aos envolvidos.

Melhor você pode entender assistindo a Boleiros, um clássico em dia de sol de Ugo Giorgetti – o primeiro. Parabéns a Paulinho Majestade.

Uma pessoa que, confesso, foi das poucas em minha vida pelas quais tive medo de perguntar.

Um senhor que hoje nos deixa.

Uma história que jamais será esquecida.

Ele é campeão.

Do jeito dele. Do modo dele.

Meio amargo. Joel Camargo.

Campeão total.