Joinville x Vasco, enquanto Real x Atlético

Leia o post original por Bruno Maia

Quem inventou o futebol não tinha ideia do que estava fazendo. Definitivamente, não tinha. Nem das raias de loucura a que uma partida pode levar um torcedor. Ou a quantidade de dinheiro e poder que poderiam ser movimentados pelas escolhas que um jogador faz em fração de segundos ou que um árbitro aponta em centésimos. O bem, o mal, a glória, a raiva, a decepção, o sonho. Em teoria, o teatro tinha sido criado pelos gregos um pouco pra dar conta disso tudo que traduz a existência humana. Deram mole de não inventar o futebol…

Sábado, 24 de maio, 16h. De Joinville para Lisboa. Um oceano e um botão no controle remoto separavam os dois mundos. Vasco da Gama, Joinville, Real Madrid e Atlético de Madrid, em campo, ao mesmo tempo. De um lado sobrava a expectativa do mundo, os louros distribuídos antes mesmo da vitória, as torcidas que entravam juntas no estádio. Do outro, a desconfiança e o aparato policial. O medo justificado pela barbárie vivida naquele mesmo palco a menos de seis meses. A derrota escancarada antes mesmo da bola rolar.

Ontem, todo torcedor vascaíno teve raiva dobrada de estar na segunda divisão e não poder se dedicar 100% a ver aquela epopeia em palco lusitano. Eu, particularmente, torcia pelo Cristiano Ronaldo. Mais até do que para ele, torcia pela glória do futebol. E, cá entre nós, o futebol merecia ver Cristiano alcançar sua glória máxima em frente a seu povo, ó pá, em pleno Estádio da Luz. Seria uma apoteose. Do lado da RedeTV do controle remoto, não sabia qual história poderia ser contada diante de um jogo que, independente do resultado, já tinha a derrota como cara. A derrota de uma geração de vascaínos, rebaixados duas vezes, que liderados por dois incompetentes, Roberto Dinamite e Eurico Miranda, viu Joinville se tornar sinônimo de calvário.

Os dois lados do controle remoto apresentavam jogos igualmente ruins. Casillas, no primeiro gol do Atlético de Madrid, não fez nada que Diogo Silva não faça dia sim, dia também. Tudo bem, ontem não. Diogo Silva teve uma tarde de Casillas, enquanto Casillas se passava por Diogo Silva. O teatro do futebol só dura um dia e as exceções confirmam a regra de quem é quem. Tudo corria quase igual tanto lá quanto cá, com a diferença que a lambança do goleiro da seleção espanhola resultou em gol, enquanto aquela tentativa de sair jogando do goleiro do Joinville ficou no quase.

A grande diferença, porém, já estava escrita no roteiro prévio dado a cada um dos dois atos desta peça. Em um, a derrota de ser uma partida que não merece brilho, pois nada ao seu redor foi preparado para tê-lo. Do outro, uma cabeçada de almanaque de Sérgio Ramos, para mostrar por quem os sinos se dobrariam. Difícil imaginar que algum vascaíno não tenha se lembrado da dor que sofremos na final do Roubadão e não tenha se solidarizado com os torcedores alvirubros. Porém, do meu lado tive uma inveja deles: a de saber que toda a dor que eles sentiam era fruto apenas da crueldade do futebol enquanto arte, e não das suas manipulações e interesses, enquanto jogo de poder. Sentir toda aquela dor dos atleticanos, toda a euforia dos torcedores do Real e dos portugueses que torciam por Cristiano… A identificação com a dor de outro ser humano num nível que talvez só possa ser alcançado, fora do futebol, por momentos como os nascimentos ou as mortes que nos cercam. Não, quem inventou o futebol não podia imaginar tanto. Não podia imaginar que uma partida cretina fosse digna de um final daqueles. Definitivamente, quem inventou o futebol não tinha a menor noção do que estava fazendo.

A prorrogação também se arrastaria em Lisboa, até que, finalmente, o jogo terminasse em Santa Catarina. Redenção. Foi ali então que a libertação da cruz se transformou na Luz. Como num passe de mágica, o aperto de um botão no controle, e o futebol se mostraria em grandeza. Três gols, dez minutos. Uma apoteose, um gran finale. Palmas, palmas, palmas! Bravo! O derrotado por goleada era o vencedor e maior campeão do planeta até o último lance. Uma contradição, um paradoxo. Nunca uma goleada foi tão desconectada da história de uma partida. O que aconteceu em Lisboa foi quase um exercício estético e léxico, que nem Manoel de Barros seria capaz de criar. Tal qual dois corpos, em tese, não ocupam o mesmo lugar no espaço, não cabe dizer que o time campe… não foi mais e ainda terminaria execrado, dizimado, reduzido a uma vítima ridicularizada aos pés de seu carrasco. Enquanto isso, tomava-se um banho casual em Joinville, dava-se entrevistas ordinárias e a vida seguia humilhada, com a marca da banalidade que parece ter virado a rotina vascaína. Afinal, aquilo lá em Lisboa não tinha nada a ver com a gente, ó pá.

Por epílogo, uma esperança renovada no futebol e um ranço no peito. Um ranço que pergunta quanto tempo levará pra nós voltarmos a ser do tamanho que somos, no esporte que praticamos. Uma tarde de sábado pra lembrar que dia de ver o Vasco jogar é domingo. E se temos o nome de um heróico português, num dia cinza como ontem, nos foi dada a chance de olhar para as nossas raízes e entender a que existência o vascaíno, de verdade, se destina.