Um time comum e um mago chamado Neymar*

Leia o post original por Antero Greco

Pessoal, Neymar destruiu o Panamá, abriu canal profundo no sparring da seleção, com gol, dribles, assistências, catimba, malabarismo, até drible no juiz. Enfim, apresentou um recital nos 4 a 0 de ontem em Goiânia. Mas, se ainda assim houvesse dúvida em torno da admiração e do respeito que inspira nos companheiros, ela desapareceu aos 27 minutos do segundo tempo.

Após o gol de Willian, que fechou a surra, todos foram abraçar o autor do lance. Quem? Neymar, claro. Naquele gesto, do qual só não participou Julio Cesar, pela distância dos demais, ficou evidente que o moço é o dono da equipe, o cérebro, o artista, o fator de desequilíbrio. O mago de um conjunto comum e de cujos pés saem os maiores prodígios.

É isso. A seleção mostrou, no Serra Dourada, com grande e participativo público, que tem diversos aspectos a ajustar para não sofrer diante da Croácia, dentro de oito dias, na abertura do Mundial. A defesa ficou desprotegida em alguns momentos, sobretudo no primeiro tempo, o meio-campo errou, careceu de atrevimento para criar. Fred… Bem, Fred parece nem ter entrado em campo. Ficou a impressão de que se resguarda para a Copa. Corre o risco de poupar-se tanto que vai sumir. Não fez uma jogada certa, nas raras vezes em que tocou na bola.

Os panamenhos resistiram o quanto puderam – e até que não foi pouco. No início, apostaram na velocidade e induziram Dante, David Luiz, Luiz Gustavo e Daniel Alves a apelarem para movimentos bruscos, quase para a ignorância. Num tranco mais forte, David Luiz levou amarelo e tomou vaias do público aos 23 minutos, por um lançamento longo, sem direção, que morreu no fosso.

No meio, Ramires não chegou à sombra de Paulinho, um dos poupados por condição física abaixo do ideal. Oscar zanzou por um lado e outro, sem brilho. Hulk se virava de cá e de lá, na tentativa de confundir a zaga rival, sem resultado prático. Em resumo: o amistoso fazia a plateia torcer o nariz, com pinta de virar um exercício arrastado, no melhor estilo de muitas peladas que vemos por aí no Brasileiro.

O talento poderia quebrar a monotonia – e, então, sobressaiu Neymar, com vasto repertório. No primeiro momento de brilho, baixou o espírito de Pelé no camisa 10 da seleção, que tomou a bola pelo lado esquerdo do ataque e arrancou feito possesso em direção à área. Falta, que cobrou com perfeição para o 1 a 0.

Depois, fez miséria: chamou panamenho para dançar, regeu o público ao pedir aplausos na hora de cobrar escanteio, deixou Hulk na cara do gol, para fazer o terceiro, e deitou e rolou antes de Willian concluir a goleada. Comportou-se como showman, ofereceu aos fãs aquilo que esperavam da penúltima etapa de preparação.

Mas não só. Neymar desmarcou-se, abriu espaço para os colegas, irritou os marcadores. Divertiu, divertiu-se e foi útil. O Brasil dependerá muito de Neymar para ter sucesso. Muito. Que anjos, arcanjos, santos e querubins o protejam. Oremos. Amém.

*(Minha crônica no Estado de hoje, quarta-feira, 4/6/2014.)