Vitória, acréscimos e precaução

Leia o post original por Luiz Nascimento

A Portuguesa venceu o América-MG por 2 a 1, no Canindé, da mesma forma como deixou escapar pontos importantíssimos neste início de Série B: nos minutos finais da partida. Com nove rodadas passadas, tem início o período mais importante do ano para o clube. A parada para a disputa da Copa do Mundo é crucial para contratação de reforços, desligamento de alguns atletas e aprimoramento técnico e tático do time. A diretoria dará folga ao elenco, que só se reapresentará no dia 16 de junho.

Até que ponto dar descanso aos jogadores é positivo neste momento? A resposta pode estar em um misto das duas reações antagônicas que os torcedores tiveram ao final do jogo. Uma parte aplaudia atletas e treinador pela vitória no último lance. Outra parte pedia por reforços e cobrava outra postura do técnico. Talvez uma pequena dose de cada visão seja o ideal.

Os três pontos foram cruciais para qualquer que seja a pretensão da Lusa no campeonato, deu mais tranquilidade para a parada do Mundial, confiança a um time de jovens pressionados e alívio ao goleiro Tom após a falha cometida. Porém, a vitória não pode esconder as sérias deficiências técnicas e táticas do time, assim como a organização e as substituições desastrosas do técnico Marcelo Veiga. Os 2 a 1 têm de ser construtivos, jamais destrutivos.

 

A Portuguesa apresentou um futebol diferente em cada etapa. No primeiro tempo, um time que buscou propor mais o jogo, tentando tocar mais bola, apostando em jogadas pelas pontas e criando diversas chances claras de gol. Se a Lusa precisou sofrer um pênalti para abrir o marcador com Serginho é porque, tanto antes quanto depois, perdeu ao menos três oportunidades incríveis e inacreditáveis. Jogadas em que só era necessário tocar para o fundo das redes, mas que foram desperdiçadas na base da falta de qualidade técnica e da afobação.

Felipe Nunes, atuando aberto pela direita, era o principal criador de jogadas do time. Percebeu a desorganização e a fragilidade da zaga mineira e, na base da velocidade, criou a maioria das jogadas de ataque da Lusa. Caion, que tem deficiências técnicas, mostrou bastante vontade e procurou jogo. Foi talvez a segunda principal peça da Portuguesa na partida. Ambos não são craques, não têm domínio de bola refinado, toques cirúrgicos ou finalizações certeiras. Têm várias limitações, porém, em um campeonato e em um elenco nivelados por baixo, a vontade e a disposição fazem a diferença.

A Portuguesa saiu para o intervalo sem grandes dificuldades e preocupações. O América-MG não levava muito perigo e era fácil passar pela defesa mineira. Eis que no começo da segunda etapa veio o primeiro grande golpe. O goleiro Tom cometeu uma falha grotesca e infantil. Daquelas que um goleiro, quando muito, só vai cometer uma vez na vida. Um erro para nunca mais. Soltar a bola no chão sem olhar ao redor é algo de extrema imaturidade. Uma falha dificilmente aceitável, mas que imagina-se vir de quem está começando no futebol. E não é o caso dele?

Essa partida foi mais uma em que o jovem goleiro mostrou ainda precisar de amadurecimento, de trabalho e de rodagem. Não se mostra um goleiro estupendo e extremamente confiável, claro, porque ainda é jovem. Porém, se bem garimpado por Gléguer, que é o novo preparador de goleiros do clube, pode crescer na posição. Com uma zaga mais estruturada e menos comprometedora, Tom consegue segurar o rojão. Não é um Félix nem um Rodolfo Rodrigues, óbvio. É um goleiro mediano com potencial. Jogar a culpa nele pelo empate seria fácil, porém, ainda havia quase que o segundo tempo inteiro pela frente.

A partir da igualdade apareceu Marcelo Veiga. Pelo perfil do treinador, a equipe já voltaria do intervalo para segurar o empate e explorar os contragolpes. O empate fez o time se perder tanto emocional quanto taticamente. Em nenhum momento da etapa final os jogadores conseguiram passar pelo meio-campo tocando a bola. Eram chutões atrás de chutões. E o América-MG, que pouco ameaçava, começou a criar chances, adiantar as linhas e dominar o jogo. Inexplicavelmente, Veiga sacou os dois melhores jogadores do time e a situação piorou.

Marcelinho pode até ter dado um pouco mais de movimentação pela ponta, porém, as poucas jogadas que Felipe Nunes realizava acabaram. Caio Mancha, como já se sabe há tempos, sequer mostrou a disposição e a movimentação de Caion. O time, que já não tinha meio-campo, ficou totalmente pregado sem jogadas pelas pontas. Até porque Serginho, que se é alguma coisa é centroavante, jogava como lateral-esquerdo e nada fazia. O time de três zagueiros e muitos volantes minguou e fez o torcedor passar nervoso.

 

O jogo já não era bonito no primeiro tempo, mas ficou horrível na segunda etapa. A Portuguesa voltou a errar passes aos montes. O impensável gol, no último minuto, veio para premiar os 645 torcedores que passavam – àquela altura – frio e raiva. Veio para impedir que Tom fosse execrado. Veio para premiar quem jogou melhor, claro. Veio para dar tranquilidade e alegrou uma noite que já era dada como perdida pelos lusitanos. Porém, veio para dar uma chance. Uma oportunidade de mudança. Não se pode, jogando em casa, ser tão cauteloso e defensivo quanto Marcelo Veiga foi. O time ganhou, mas preocupou. E preocupou porque retrancou. Raros serão os dias em que uma última substituição, atrasada e com pouquíssimas chances de surtir algum efeito, faltando apenas os acréscimos, vai se tornar uma tacada certeira.

Novamente ficou evidente a necessidade de contratações. O elenco ainda precisa de pelo menos um zagueiro de qualidade. A defesa está menos aberta e bobeando menos, porém, jogar com três zagueiros ajuda. Não entregar como entregava é o mínimo que se espera em um 3-5-2. O time também precisa de pelo menos um meia que levante a cabeça e arme o jogo. E o principal: pelo menos dois atacantes. Um que seja centroavante mesmo, goleador, que empurre a bola para dentro do gol. Porque a Lusa não tem ninguém com esse perfil. É preciso contratar, dispensar (e não são poucos) e trabalhar. Ralar muito. Demais. Por isso, a resposta para a pergunta sobre o descanso até o dia 16 de junho é simples: um erro.

Não achemos que ficar feliz com a vitória é sinal de se iludir. Não é. Comemorar, acreditar e apoiar é crucial. É ótimo. Porém, não achemos que ter noção da fragilidade do elenco e do erro do treinador é ser um simples corneteiro. Não é. É saber que, sem mudanças, a Copa do Mundo se vai e o sofrimento volta. Trabalhemos, Lusa!