A Copa e o Brasil sem maquiagem

Leia o post original por Mauricio Noriega

Pois não é que a Copa do Mundo chegou?

Vai ter Copa, sim. E a Copa será no Brasil real, não no País dos folhetos e vídeos de propaganda.

A Copa do Mundo não é responsável pelas mazelas nacionais e nem pelos 500 anos de abandono de educação, saúde etc.

Também seria ingênuo não reclamar de estádios que custam bilhões numa terra em que falta saneamento, escola, hospital, segurança.

Seria ainda mais ingênuo acreditar que o dinheiro gasto na organização da Copa seria usado para alguma prioridade. Porque nunca foi, senão hoje não estaríamos reclamando, não é mesmo?

Havia a ilusão de se mostrar ao mundo um Novo Brasil com a Copa. Um País com uma atitude babaca de novo-rico.

O que será mostrado ao mundo e a nós, brasileiros, é o Brasil real, o de verdade, aquele que a gente conhece do dia-a-dia.

Não será um Brasil maquiado pela propaganda do governo vigente, nem esculhambado pela oposição também vigente. Porque só muda o lado, a propaganda seria a mesma e a esculhambação idem, se oposição fosse governo e vice-versa.

O visitante que aqui chegar verá uma Nação jovem, em formação, cheia de defeitos enraizados, mas também de muitas qualidades.

Só mesmo sendo muito tonto para acreditar que alguém viria ao Brasil pensando que desembarcaria em algo parecido com Japão ou Alemanha.

Mas também não temos nada a ver com a Albânia, a Coréia do Norte, a Síria em guerra civil ou então um emirado árabe, um principado europeu, uma cidade-estado asiática.

Somos um País onde o sujeito sai do avião e pode ser assaltado cinco minutos depois. Mas também pode perder sua carteira e recuperá-la com todos os dólares e euros, intacta, devolvida por alguém que talvez durante toda a vida não vá acumular a grana que ali havia.

Um País em que se corre o risco de perder a vida por uma banalidade como uma correntinha de bijuteria, mas no qual também é possível passear à beira-mar numa metrópole como o Rio de Janeiro e voltar para o hotel ileso e maravilhado com a paisagem e o fato de ter gente jogando bola na areia no meio da noite.

Um País violento, é verdade. Muito violento.

Mas há riscos em toda parte. Não quero fazer comparações, mas um brasileiro comum pode ir a um shopping ou ao cinema nos EUA e topar com um atirador maluco. Ou então ser parado por uma patrulha de polícia despreparada no metrô de Londres ou numa rua da Austrália. Assim como pode pegar uma rua errada numa cidade brasileira e cair nas mãos de uma milícia ou de um grupo de traficantes. Algo que acontece também na Rússia, na Ucrânia e nos EUA.

Mas será apenas isso? Ou é inviável que os muitos Brasis se apresentem como um único Brasil?

Um País que tem uma cidade-modelo como Curitiba e a gastronomia paulistana. O Pantanal, a Amazônia, projetos sociais interessantíssimos, que funcionam independentemente dos governos.

Pode-se correr o risco de ser mordido por um tubarão no Recife, mas também dá para ver belezas a perder de vista no litoral pernambucano e o centro histórico da capital pernambucana.

Não vou ficar listando cidade por cidade.

O que quero dizer é que o Brasil que o mundo verá é o Brasil que a gente vê todo dia.

De trânsito pesado, infra-estrutura arcaica, mas também de boas ideias e produtos de ponta. De muita corrupção, mas também de muitos, mas muitos mesmo, trabalhadores honestos.

Ao contrário do que pregam os chavões da publicidade, aqui não é a terra em que todo mundo bebe cerveja o dia inteiro e fica dançando música ruim pelas ruas vestido de verde e amarelo. Ainda que as músicas da Copa sejam terríveis, não podemos esquecer que estamos na terra de Villa-Lobos, Tom Jobim, Elis Regina, de MPB, Bossa, bom samba etc.

É uma terra que tem muitos defeitos e muitas qualidades.

Um País onde tem gente que protesta nas ruas e gente que prefere ver os jogos da Copa do Mundo.

Nunca me iludi com propaganda oficial de nenhum governo ou ideologia. Não está tudo bem. Nunca esteve. Mas também não vai tudo de mal a pior.

Entendo que o futebol hoje seja um grande negócio, mercantilizado. Mas ainda mexe com as pessoas, ainda povoa nossa imaginação com momentos de arte e magia.

A Copa veio, virá e será história. O Brasil continuará depois dela. Cheio de problemas, de esperanças, mas com a chave para mudar e melhorar: o povo.

Uma democracia jovem, imperfeita, mas na qual pode-se escolher os caminhos da Nação.

Que pelo menos a gente consiga se divertir com o que é apenas uma diversão, o futebol. Em paz. E que depois que a Copa for embora tratemos de cuidar mais e melhor do nosso Brasil.