Outros 40

Leia o post original por Mauro Beting

A primeira Copa foi a de 1974. Brasil 0 x 0 Iugoslávia. Jogo mequetrefe no frio paulistano. Maravilhado com a festa de abertura das meias bolas que se abriam no gramado. Pela TV colorida que acabara de chegar em casa e seria companheira até 1981, era melhor que HD, 3D, 4K. Era demais.

Emocionado de manhã ao ler a “Folha” com as camisas coloridas desenhadas das equipes. Tão bacana quanto ver hoje o novo LANCE! E, na primeira página, o querido André Rocha mais uma vez entre nós.

Ao chegar na casa da bisavó há 40 anos eu contava os minutos que não sabia contar para ver a hora do jogo começar. Na volta, lembro de passar pela Vila Mariana com a rua cheia de médicos que então me davam medo. Vendo as bandeiras brasileiras pela primeira vez pelas ruas. Mal sabendo que ali perto tinha gente que dava ainda mais medo. Gente de todas as cores que torturava e matava. Eu não sabia disso ainda.

Era tudo muito colorido para qualquer criança de sete a 70 anos mesmo com tanta dor cinzenta. Mais ainda ficou festivo naquela mente de ainda mais menino quando voltei da escola no outro dia e vi Holanda 2 x 0 Uruguai. No meu livro “As Melhores Seleções Estrangeiras de Todos os Tempos” revi o jogo que eu sabia havia sido um massacre. E foi mesmo. Foram 17 chances de gol holandesas. Só uma uruguaia.

Do baixo dos meus 7 anos era tudo maravilhoso. Colorido. Laranja Mecânica. Alemanha com o mais lindo uniforme branco e preto. A bola redondinha da Polônia. E a seleção canarinho meio esmaecida, sem brilho. Sem cor.

Mas era tudo lindo. Ainda muito vivo para mim.

Faz 40 anos agora. Parece que foi ontem. Juro.

Mas o mais impressionante é que, na Alemanha, em 1974, fazia 40 anos da Copa da Itália de 1934. A de Meazza. De Mussolini.

Time e Copa que eu lia a respeito nos livros que meu avô e meu pai me davam. Lembrava a foto da equipe perfilada. Achava Meazza com cara de craque. Lamentava a eliminação precoce do Brasil de Leônidas para a Espanha do grande goleiro Zamora.

E do tal Quincoces que aparecia na foto do livro ajoelhado defendendo com os braços o gol de Leônidas.

Foi 3 a 1 para a Espanha. Jogo eliminatório, Brasil fora de 1934.

Aquela foto para mim era uma paisagem de Debret. Um afresco de Michelangelo. Uma obra de arte distante.

1934 para 1974 para alguém de sete anos era como se fosse a queda de Constantinopla. Construção das pirâmides. Homo Erectus. Big Bang. A posse de Grondona na AFA. O primeiro gol de Paulo Baier.

2014 para 1974 é um videoclipe de speed metal. Comercial da Nike. Propaganda política do Éneas. Vine. Piscar de olhos. Feitos de Maluf.

Não envelheci. O tempo é que passa rápido demais agora. E lento demais então.

Como era lento e lindo o Brasil de 1970.

Como será rápido, acelerado, quem sabe celerado o Brasil de 2014.

Espero só que também lindo de viver.