Espanha teve um dia de “Fontenovazo”*

Leia o post original por Antero Greco

Já vi campeão do mundo passar aperto e fazer feio. O Brasil defendia o bi, em 1966, e caiu na primeira fase na Inglaterra. A França foi fiasco em 2002, na Ásia, e a Itália não superou a etapa de grupos em 2010. Tropeços acontecem. A gente toma cada tombo na vida, por que seria diferente no futebol?

Mas levar uma sova como a de ontem da Espanha, essa é inédita. A antiga Fúria, que virou a Vermelha para botar banca e impor respeito, foi colocada na roda pela Holanda. Tomar 5 a 1 na cacunda, fora o baile, e justamente na estreia, despenca qualquer autoestima, por mais elevada que esteja.

A cara de Casillas, Del Bosque, Iniesta e companhia, após o quarto gol, dispensava legendas ou explicações adicionais. Mostravam-se perplexos, aturdidos, atônitos – bestas, vai, pra ficar no popular. Não acreditavam no que acontecia. Depois do quinto, então, pareciam com vontade de sair de campo de fininho, na miúda.

Os holandeses não são a versão 2014 do Carrossel de 1974, longe disso. Na verdade, nem eram favoritos contra os espanhóis. Vá lá que havia como motivação a revanche da final de quatro anos atrás. Mas até eles se espantaram com a facilidade com que chegaram à vitória, e de virada. Ainda mais depois de sofrerem gol de pênalti tão inventado quanto aquele em favor do Brasil. Diego Costa desmoronou na área, e o italiano Rizzoli embarcou.

A Espanha voltou para a concentração convencida de que essa trágica apresentação aumenta a pressão nos jogos contra Chile e Austrália e coloca em xeque o estilo funcional, racional e envolvente que lhe valeu duas Eurocopas e um Mundial em quase uma década.

A reviravolta não é impossível. Na teoria, os ibéricos precisam apenas das próprias forças para reagir e seguirem adiante. E toparem com o Brasil, tem mais essa agora. Mas devem conviver com o fantasma da desclassificação precoce e com a desconfiança de que se aproxima o fim de linha para uma geração extraordinária.

O que se viu em Salvador foi um grupo que se conhece, se entende, tem talentos excepcionais – o ponto alto continua em Iniesta -, mas acusa o avanço da idade. No primeiro tempo, prevaleceu equilíbrio, e a Espanha foi ligeiramente superior. Ao ceder o empate, antes do intervalo, dava indícios de cansaço. Na segunda etapa, assim que a Holanda saltou à frente, La Roja ruiu. Abriram-se crateras em todos os setores, até no gol, com Casillas a falhar por puro desespero.

A gente tem relembrado tanto do Maracanazo, a derrota para o Uruguai em 1950 etc. etc. Será que os espanhóis falarão em Fontenovazo, Salvadorazo ou algo do gênero? Não sei. O certo é que essa surra com vara de marmelo não sairá da cabeça deles tão cedo. Olé!

Apito amigo. A CBF irritou-se com a repercussão negativa do pênalti cavado por Fred. Teme que, daqui em diante, os juízes poderão prejudicar a seleção. Ora, não cabe a inquietação. Os árbitros têm proporcionado festival geral de erros nesses jogos. Cadê o padrão Fifa no apito?

*(Minha crônica publicada no Estado de hoje, sábado, dia 14/6/2014.)