México é freguês, pelo menos em Copas do Mundo*

Leia o post original por Antero Greco

Há uma tendência na crônica esportiva de nossas bandas de apelar para estatística e curiosidades em tudo o que se refere ao futebol. Bossa às vezes meio chata, importada dos americanos, que não vivem sem consultar a verdade e as recomendações contidas nos números. Isso, pra eles, é como zodíaco para a gente.

Notei, também, que cada um ajeita a numeralha de acordo com teses preconcebidas. Por exemplo: para justificar que o México costuma complicar a vida da seleção, se recorre a vitórias em Copa de Ouro, Copa das Confederações, Copa América e até Olimpíada. Fala-se que os mexicanos têm aprontado pra cima do Brasil, que isso e mais aquilo.

Já que é assim, também tenho a minha, e bem específica: em Mundiais, os simpáticos rivais desta terça-feira são fregueses de carteirinha. Em três ocasiões, levaram piabas – 4 a 0 em 1950 (0 ano do Maracanazo, de Obdulio Varela, de Barbosa, etc.), 5 a 0 em 1954 e 2 a 0 em 1962. Tomaram 11 gols, fizeram zero.

Provocação à parte, a partida aqui em Fortaleza vale a vaga para as oitavas. Como ambas as equipes estrearam com vitória, quem ganhar mais uma botará um pé na próxima fase da competição. Portanto, não se permitem vacilos.

Aposto em desempenho melhor da turma amarelinha do que nos 3 a 1 na Croácia. Sensação óbvia e necessária, pois, no Itaquerão, vários titulares ficaram aquém do que podem. A tendência é de alta, ou ao menos assim indica a lógica.

O desafio brasileiro se divide em alguns pontos: conter o entusiasmo de adversário com mais vocação para o ataque do que os croatas, ter força no meio-campo (daí a necessidade de Hulk em boas condições, o que parece pouco provável) e Fred participativo (pênalti cavado à parte, tem de aparecer mais para o jogo).

E Neymar inspirado – detalhe fundamental. Quem sabe, com exibição de gala no dia do 52º aniversário do bi mundial, conquistado no Chile.
Treino alemão. Rubens Minelli costumava aplicar aos times que dirigia o método que chamava de “treino alemão”. A atividade consistia de rápidas trocas de passes em espaço curto e com deslocamentos constantes. Para estimular a criatividade, fugir da marcação e dosar esforço físico.

O veterano treinador me veio a mente ontem, ao ver a movimentação da seleção da Alemanha diante de Portugal. A rapaziada de Joachim Löw parecia participar de um descontraído bate-bola na Fonte Nova, sem rival.

Na prática, foi quase isso. A Alemanha ganhou com tamanha naturalidade que, mesmo com os 4 a 0, protagonizou jogo monótono. Contraditório? Talvez. Mas é elogio. Os germânicos cumpriram tarefa em pouco mais de meia hora, no primeiro tempo, com três gols. Simples.

Ao notarem que a nau portuguesa afundava – sobretudo com a expulsão de Pepe e a atuação pífia de Cristiano Ronaldo –, tiraram o pé na etapa final e se ocuparam em passear pelo gramado. Os alemães vão dar dor de cabeça.

*(Minha crônica publicada no Estado de hoje, terça-feira, dia 17/6/2014.)