Uruguai 2 x 1 Inglaterra. Uma camisa que sua. Que Suárez!

Leia o post original por Mauro Beting

 

Cerca de 3,3 milhões de pessoas moram na Zona Leste de São Paulo, onde no frio da tarde do feriado o mais quente coração do futebol pulsou. No novo campo do Corinthians em Itaquera ferveu o  velho sangue cor celeste uruguaio. País com os mesmos 3,3 milhões de valentes lutadores que desbravam o mundo correndo atrás da bola. Ganhando duas Olimpíadas quando elas valiam Copa. Vencendo mais duas Copas quando elas já valiam muito mais que Olimpíada.

No Maracanazo de 1950 o Uruguai silenciou o Brasil e também se calou. No Itaquerazo  para os ingleses de 2014 a olímpica e mundialista celeste foi buscar mais uma daquelas vitórias que só o futebol consegue propiciar. Só o Uruguai no futebol parece conquistar.

O time de Tabarez não criou mais chances que a Inglaterra. Novamente, a turma de Rooney chegou mais que o adversário. Havia sido assim no calor manauara contra a Itália. Foi assim no frio paulistano contra o Uruguai.

O time inglês atacou, mandou bola na trave, fez o nome de Muslera, perdeu gols, achou até o primeiro de Rooney em Copas. Ficou mais com a bola, finalizou mais. Foi melhor. Para não dizer que é melhor.

Mas não basta ser melhor contra o Uruguai. Todo Uruguai. Todos os uruguaios.

O espírito charrúa é o do são-paulino Alvaro Pereira. Depois de levar uma joelhada involuntária na testa e ficar grogue no gramado, ele se levantou e quase expulsou o médico que o queria sacar de campo.

Onde já se viu tirar um uruguaio do campo de jogo?

Por isso eles conquistam tantos. Não só os vizinhos gaúchos. Mas os muitos são-paulinos, por exemplo, que desde Forlán (pai) e Pedro Rocha se rendem aos suores e sabores de Dario Pereyra e Lugano. Aos dissabores que os uruguaios sabem vencer até quando perdem o respeito às regras do jogo, aos limites do fair-play.

Tenha em celeste Scarone, Obdulio, Schiaffino, Pedro Rocha, Morena, Dario, Francescoli, Recoba, Forlán, Cavani ou Suárez para escalar, ou tenha alguns nomes mais pesos-pesados para digladiar, o Uruguai não entra jamais para ser mais um em campo. Joga por cada um cada canto.

Joga por uma bola no contragolpe quando a Inglaterra era melhor, e Cavani achou Suárez para cabecear bonito e tirar de Hart, no primeiro tempo.

Joga-se para trás para segurar o resultado, cede o empate, quase a virada, e, no final, com Suárez estafado, ainda recebe bola vadia de Gerrard (que não merecia isso…) vinda de um chutão de Muslera que cai aos pés do artilheiro do campeonato da própria Inglaterra.

O que parece sina inglesa desde 1966 de nada dar certo vira tudo ainda mais certo quando o joelho recém operado do craque da temporada inglesa invade a área e fuzila Hart.

Parecia tudo a se perder na zona leste paulistana, do tamanho da população uruguaia.

Mas assim como por lá cabe uma paixão que não se mede pelo dono do estádio, acabou vencendo um jogo e uma classificação quase perdida o menor gigante do futebol.

Não existe explicação demográfica para tanta vitória no futebol do Uruguai – não necessariamente vitória de todo o futebol.

Não existem por vezes razões técnicas ou mesmo táticas que expliquem de onde eles conseguem as vantagens e vitórias.

Nem mesmo as respostas físicas explicam as superações dos corpos.

Não são químicas, por mais que haja uma simbiose entre alma, carne, sangue e camiseta celeste. Não me atrevo a explicar.

Não são anímicas, emocionais, mentais.

Isso ainda é pouco pelo muito que faz o Uruguai.

Não é mais bonito e vencedor que o Brasil. Não é melhor que o futebol da Argentina.

Mas é tanta coisa para tão pouca gente no país que deve ser algo muito além do espírito.

Não falo de fantasma de 1950.

Falo de alma. De algo que não vemos. Não entendemos. Não tocamos.

Mas sabemos que existe. Eles sabem.

Sabemos que eles podem vencer quando o mundo só vê derrota.

Sabemos que pode Suárez quando todos suam celeste.

Sabemos sem compreender que eles podem.

Não precisa admirar o futebol do Uruguai. Mas deveria estar escrito além da regra do jogo:

Regra XVIII: O Uruguai  é o único time que tem direito adquirido de não respeitar nenhuma das 17 regras anteriores. E todos os adversários têm o dever de respeitá-lo como se respeitam as regras do jogo.

É isso.

É Uruguai.