Oberdan

Leia o post original por Mauro Beting

Cem anos fará o Palestra Italia.
95 anos fez Oberdan em 12 de junho.

Tinha de ser no Dia da Paixão palmeirense o dia do nascimento do mais palestrino dos palmeirenses.

Desde 1919 ele tinha o sangue alviverde correndo nas veias de atleta e nas mãos enormes de goleiro.

Desde 1940 ele trocou o caminhão de mercadorias que vinha de Sorocaba para o mercado paulistano para ser o arqueiro que primeiro vestiu azul de Palmeiras. Para o atleta que virou conselheiro e referência do clube onde casou, em 1945. Onde frequentou quase todos os dias menos nas manhãs de sábado a partir de 1977. Quando passou a visitar o túmulo da mulher amada.

A maior paixão desse goleiro que defendeu o Palestra como nenhum outro em todos os campos e cantos. Pode não ser o maior de todos os goleiros. O maior ídolo. O melhor.

Mas, mais palestrino? Mais palmeirense? Mais que Oberdan?

Não conheci.

Até por ter tido o privilégio da amizade nos últimos 23 anos. Em conversas no clube, em jogos, em eventos, em entrevistas, em almoços, em festas, na mesma casa que comprou em 1945, na casa do meu pai nas festas palmeirenses, ele sempre foi o mesmo bicho bravo quando contrariado.

Ainda mais quando, nos últimos anos, quando eu o entrevistava para livros e filmes e queria testar a memória dele, com perguntas que eu já sabia qual era a resposta dele, invariavelmente ele me repreendia:

– O, menino! Eu sei que você está me testando! A minha memória é melhor que a sua!

Podia não ser. Mas a história, certamente, é da estatura dele. Do tamanho das mãos dele. Da glória dos tantos times dele.

Já a contei em livros. Em breve no meu novo livro do centenário. Em breve no meu novo filme dos 100 anos palestrinos.

Em inesquecível e derradeiro encontro com o amigo Turcão. Companheiro de time. Colega de vida por quase 70 anos. Quando ambos, no quarto de Oberdan, dividiram histórias palestrinas e palmeirenses como se estivessem as contando aos netos.

E estavam mesmo.

Sempre me pareceu um avô querido. Por vezes bravo. Colérico com desafetos. Inimigo dos adversários. Exacerbando nas brigas. Extrapolando nas intolerâncias.

Um palestrino típico. Chorou quando mudamos o nome para Palmeiras. Nunca perdoou os intolerantes. Jamais teve tolerância com quem desonrou o nome do clube que virou lar. Da casa que defendeu em tudo. Por todos. Até contra todos.

Tudo que brigou, e não foi pouco, foi para defender o clube. Criou inimigos lá dentro. Fora. Mas sempre para defender o que pensava. Até o que mal pensava.

Até com grandes ídolos do clube teve problemas. Uma pena.

Mas só ele defendia até os que não gostava. Sempre.

Mas para quem era Oberdan FC, ele ia além. Como só ele foi ao enterro de Villadoniga. Levando a bandeira do clube para colocar sobre o caixão.

Só ele estava lá. E não só do Palmeiras. Só ele estava com o velho armador do time que morreu líder e nasceu campeão em 1942.

Neste sábado estou viajando de Salvador para o Rio. Copa do mundo. A que ele poderia ter disputado em 1946 não houvesse guerra. Ou até 1950, no Maracanã. Onde, em 1951, fez parte do elenco campeão da Copa Rio.

Não estarei com a família e tantos amigos de credo e de cores.

Mas deixo neste cantinho toda a felicidade de ter tido um ídolo que não pude ver jogar. Um amigo com quem pude aprender. Um palestrino que todo o clube gostaria de ter não apenas defendendo a sua meta por 14 anos. Mas um torcedor tão apaixonado e abnegado.

Feliz o torcedor que o viu atuar pelo clube.

Feliz o clube que tem um torcedor como ele.

Obrigado, Oberdan.

Abaixo, a homenagem que eu, José Silvério, José Ezequiel e Fernando Galuppo fizemos.

Oberdan dizia que gostaria de ouvir alguma vez o Silvério narrando alguma defesa dele.

Eu as escrevi. O Zé narrou. Os amigos editaram.

E o resultado é o que você ouve e vê abaixo.