DIAS 11, 12 e 13 – SÃO PAULO

Leia o post original por André Kfouri

(Nota pessoal: tenho mais um agradecimento a fazer à seleção espanhola. A eliminação precoce me permitiu passar os últimos quatro dias em casa. Um bônus inesperado no meio de uma Copa que prometia um mês e meio viajando. Gracias.)

As entrevistas coletivas de Louis Van Gaal têm estabelecido um ambiente de tensão respeitosa entre o técnico holandês e os jornalistas de seu país. Devo confessar meu interesse particular no tema.

Van Gaal, um casca grossa de fama mundial, aproveita suas aparições para estocar aqueles que criticam seu trabalho. E como seus alvos são numerosos e estão presentes, cada entrevista é o cenário para interações em que o embate fica evidente.

A questão é a forma como a Holanda joga esta Copa. O sistema preferencialmente utilizado, um 5-3-2 que se converte em 3-5-2 durante as partidas, é considerado defensivo demais para as tradições do país que se orgulha de ser uma das escolas que mais contribuíram para o desenvolvimento do futebol de ataque.

Setores da mídia holandesa reclamam das escolhas de Van Gaal, que rebate com os resultados até agora obtidos e com pesadas doses de sarcasmo. No meio do “conflito”, os jogadores – obviamente em posição difícil para comentar – tentam responder perguntas sem se comprometer.

O que chama a atenção é que o debate não se personaliza e não se rebaixa ao território do bate boca. As perguntas são duras, as respostas idem, e o jogo segue. Em comparação com o que nos acostumamos a ver no Brasil (em que a mesma narrativa estilo x resultado é comum), percebe-se um clima mais civilizado, em que inimizades não afloram e momentos constrangedores são evitados.

Na véspera do jogo contra o Chile, LVG estava contrariado pelo fato de seu treino fechado para a imprensa, realizado no Pacaembu, ter sido espionado por alguns fotógrafos. Informações sobre a possível escalação do time foram publicadas em jornais e sites holandeses, o que o técnico enxergou como “fogo amigo”. Um jornalista abriu a coletiva na Arena Corinthians com “pelo que pudemos apurar sobre o treino de ontem…”, senha para a alteração no semblante do técnico.

Van Gaal, por equívoco, e como a enorme maioria de seus colegas no mundo todo, entende que a imprensa holandesa tem o dever de ajudar a seleção. Ou, pelo menos, não atrapalhar. “Deveríamos estar na mesma página, mas pelo jeito não conseguimos”, reclamou. O elogio de um jornalista estrangeiro à campanha da Holanda na Copa lhe devolveu o sorriso, acompanhado de um golpe de ironia: “obrigado, mas ainda tenho de convencer a imprensa de meu país de que estamos jogando bem”.

O principal argumento de LVG é o melhor aproveitamento do grupo que tem em mãos. Ele tem dito repetidas vezes que o sistema é resultado das características dos jogadores, não o contrário. A posição pode estar correta, em teoria, mas perde de vista o que é óbvio: foi Van Gaal quem escolheu os nomes. Uma coisa é um técnico assumir um clube com elenco formado por outro profissional e dizer que faz o melhor com o que está disponível. Outra é usar a mesma linha de posicionamento em relação ao próprio time.

Os críticos respondem com o currículo holandês em copas, que não tem títulos mas tem jogo. A participação laranja na África do Sul, onde, excluindo a final, a Holanda venceu jogando bem, tem sido lembrada com frequência. Van Gaal está vencendo e os vencedores, até que as coisas mudem, têm sempre a última palavra.

Van Gaal também tem uma conspiração cósmica a favor de seu sistema, comprovada pelo número de gols que a Holanda marcou nas três vitórias na fase de grupos da Copa: 5-3-2.

Ontem, contra os chilenos, o primeiro gol praticamente decidiu a ordem dos classificados no grupo B, já que à Holanda bastava o empate para ficar em primeiro lugar. O gol de Fer foi produto de um erro defensivo dos chilenos, provocado por uma substituição feita na seleção holandesa.

O cabeceio para a rede foi apenas o segundo toque de Fer na bola. Ele tinha acabado de entrar no jogo, em substituição a Sneijder, que era o jogador que o Chile não precisava marcar em lances de bola parada, exatamente por ser o cobrador de faltas e escanteios.

Sem Sneijder em campo, a defesa chilena cometeu um lapso mental ao não notar a presença de um homem a mais na área. O escanteio rapidamente foi cobrado para trás e o cruzamento achou Fer com toda a liberdade. Os chilenos deixaram o estádio lamentando a falha decisiva em um jogo que, até então, estava trancado por uma batalha tática entre LVG e Jorge Sampaoli.

O clima entre Van Gaal e os jornalistas holandeses não melhorou após mais uma vitória.

Pouso autorizado. Desligar equipamentos eletrônicos. No Rio de Janeiro, tempo bom com 27 graus celsius.