A Copa improvável*

Leia o post original por Antero Greco

A Copa tinha tudo para dar errado – a começar por quem a comandava (o ex da CBF), passando por orçamentos absurdos da maior parte dos estádios, falta de transparência nos gastos, promessas não cumpridas e atrasos. E, a correr por fora, a ameaça de manifestações populares intensas como as de 2013.

A primeira fase do segundo Mundial brasileiro terminou ontem acima da expectativa. Há problemas com desinformação, ocorrem improvisos, não sumiram dificuldades de locomoção e, em alguns casos, de alimentação nas lanchonetes internas. Os gramados não seguem o padrão Fifa. Enfim, bolas cantadas desde sempre.

Criou-se panorama favorável a catástrofes, com indícios em abundância para tal projeção. Mas a ausência de incidentes horripilantes e a farra que se vê de turistas estrangeiros em todo canto desmontaram projeções pessimistas.

O momento mais tenso ficou para a invasão de chilenos no centro de imprensa do Maracanã. Fora uma briga aqui, outra ali, um furto cá, outro acolá. Incidentes comuns no dia a dia de grandes cidades e frequentes em manifestações do gênero em qualquer lugar. Vi fatos semelhantes nas anteriores oito Copas que cobri – até no seguríssimo Japão.

Bacana que seja este o astral, e espero discernimento popular para não misturar a festa esportiva com contendas partidárias. Não se deve permitir que situação ou oposição se apropriem de pontos fortes ou aspectos negativos da Copa. Políticos pegam carona no esporte – tão velho quanto o futebol. Cabe ao povo separar as coisas; assim, a consciência democrática amadurecerá.

O verdadeiro barato do Mundial se desenrola nas quatro linhas, para ficar em imagem clássica. Raros, poucos, jogos monótonos são esporádicos. Emoção brota por todo canto, foram inúmeros os episódios de definição de resultado em cima da hora, depois de empenho e gols. Esta Copa tem assistido a tempestade de bolas na rede e de ritmo veloz, objetivo, empolgante.

Não há bicho-papão – o Brasil, por enquanto, não passa de equipe normal, assim como outras candidatas ao título. Argentina e Alemanha ficam como exemplos. Nem por isso desapontam, e se mantêm no topo das projeções favoráveis.

Como em todo Mundial, sobram decepções (Itália, Espanha, Inglaterra, Portugal) e despontam surpresas (Costa Rica, Grécia). Juízes erram, espoucam teorias da conspiração, se sucedem lances polêmicos e bizarros, como a mordida que valeu excessivos 9 jogos de suspensão ao uruguaio Luis Suárez. Craques saem mais cedo, outros se firmam como estrelas – está ótima a briga entre Messi, Neymar e Müller por artilharia e protagonismo.

Há excessos, na cobertura, com doses de ufanismo. Parte da “crônica esportiva” derrapa no tom, não muito diferente do que acontece em outros setores da mídia. E, ao que se saiba, a maior gafe da imprensa nesta Copa não foi cometida por “cronista esportivo”, em geral tido como passional e iletrado. Deixa pra lá.

*(Minha crônica publicada no Estado de hoje, sexta-feira, dia 27/6/2014.)