Entenda os problemas táticos da seleção e os testes que Felipão fez para resolvê-los

Leia o post original por Vitor Birner

De Vitor Birner

A aposta que Felipão até agora perdeu

Felipão apostou na marcação da saída de bola como alicerce do Brasil na Copa do Mundo.

Foi convencido pelo desempenho de seus comandados na Copa das Confederações que era a melhor estratégia.

Acreditou que o time poderia evoluir ainda mais.

Isso explica a convocação de laterais rápidos.

Daniel Alves, por exemplo, está acostumado a marcar no campo de adversário porque o Barcelona fez isso por bom tempo.

Refém dos laterais

Como o plano de jogo não funcionou porque a marcação na frente até agora foi mediana ou ruim, pode ser no boa no próximo jogo, o treinador ficou refém dos seus laterais.

Reparou que os laterais são bastante vulneráveis na disputa individual contra os adversários e decidiu sacrificar dois dos seus atletas de criação.

Limitou agressivamente o repertório ofensivo para fortalecer o defensivo.

Os sacrificados

Oscar e Hulk se transformaram em guardas de laterais.

Priorizam, por orientação do treinador, a proteção a Daniel Alves e Marcelo.

Estão jogando na mesma linha dos volantes ou um pouco à frente delas, e quando têm a bola não podem se movimentar porque precisam, no momento em que o time está com a gorduchinha, se preocupar com a rápida volta à posição defensiva.

Oscar, por exemplo, deveria se aproximar de Neymar e Fred para tabelar, mas se o fizer a distância que percorrerá até chegar em frente ao lateral será maior e o time correrá risco.

O treinador, para ser claro, adotou diante dos chilenos o esquema tático ultraconservador.

Se Felipão mantiver o posicionamento e a forma de jogar, escalar o Paulinho, e os colombianos atuarem no  4-2-3-1 ( diante do Uruguai José Pékerman usou o 4-4-2), o desenho do confronto, sendo ousado do ponto de vista do Brasil, será esse:

Repare que o time chega com poucos atletas na frente. É estático e por isso previsível. Depende muito da individualidade de Neymar e dos cruzamentos porque Hulk e Oscar não podem se movimentar.

A questão maior

O Brasil precisa sair para o jogo se quiser pressionar os rivais e usar a vantagem de atuar em casa.

Oscar tem que avançar cerca de 15 metros na diagonal na hora da criação.

Assim ficará mais próximo de Neymar e Fred e facilitará a troca de posições para confundir os defensores do rival.

A distância menor entre eles e Hulk facilitará as tabelas e a manutenção de bola, abrirá a possibilidade de o Brasil ditar o ritmo de jogo  como o Chile fez no 2° tempo, criará espaço para Paulinho avançar e os laterais, dependendo das circunstâncias, também apoiarem.

O mesmo vale para Hulk.

O atacante também deve buscar espaços.

Quando o ataque acontecer do lado oposto, tem que entrar na área como se fosse centroavante.

Diferentes

Chile e Colômbia são muito diferentes.

Os eliminados gostam da bola e trabalham bastante com ela.

Os classificados não fazem a menor questão.

Perderam o duelo contra o meio de campo do Japão, mas venceram facilmente por causa da forte marcação e dos contra-ataques mortais.

Estas são as duas grandes virtudes de um dos times que trocou menos passes e cruzou mais bolas na área durante o Mundial.

Cuadrado e James Rodríguez têm desempenho de alto nível na meia. O primeiro gosta de usar os lados do campo; o outro faz o mesmo, mas aparece também no meio.

O veloz atacante Jackson Martínez completa o perigoso trio ofensivo, que seria ainda mais especial caso o ótimo Falcão Garcia se recuperasse em tempo de ser convocado.

Riscos para o Brasil

Felipão precisará de volantes rápidos por causa das características de Cuadrado e Rodríguez.

Diante do Uruguai, a  Colômbia se posicionou no 4-4-2 (no quadro acima).

Téo Gutierrez e Martínez foram os atacantes; muitas vezes se colocaram ambos como centroavantes na área.

Se isso acontecer, um volante brasileiro terá que recuar e ajudar a dupla Thiago Silva e David Luiz para um deles ficar na sobra caso o companheiro seja driblado.

Outra opção é um dos laterais se aproximar da dupla de zaga para ser o terceiro homem.

Eu não confiaria nisso.

Felipão deve tentar de novo o 4-2-3-1, tal qual você viu no campo acima, mas pode retornar ao 4-4-2 defensivo se a cobertura e auxílio aos laterais não der certo.

Testou ontem; eu gosto para enfrentar a Colômbia

Felipão abriu mão do centroavante e escalou Henrique como volante de marcação ou terceiro zagueiro, dependendo do andamento da partida, em parte do treino de ontem.

Assim, Paulinho e Fernandinho podem fazer a cobertura e ajudar na criação.

Oscar, Hulk e Neymar trocando de posição na frente dão muito trabalho.

Se o trio de volantes estiver bem, os laterais finalmente vão poder apoiar com mais tranquilidade, função para a qual foram convocados.

Detalhe: eu preferia David Luiz de volante e Dante na zaga.

Tinha que testar

Eu experimentaria no treino, Scolari não fez isso, Ramires no lado direito da linha de três no lugar de Fred.

O volante jogou assim no Chelsea, durante o título da Uefa Champions League, e executou bem a função.

Ele pode fortalecer a marcação daquele lado, o que aumentará a liberdade de movimentação do trio Neymar, Oscar e Hulk.

Também ajudará na marcação da saída de bola e poderá cobrir o espaço deixado por Paulinho, que precisa entrar na área vindo de trás, sem marcação, porque isso sempre foi um ponto forte dele.

Valorizar as virtudes e minimizar os defeitos dos jogadores com bom trabalho coletivo é uma das principais funções de qualquer técnico.

Fundamental

Eu escalaria o Maicon no lugar do Daniel Alves em todas as formações descritas.

Só teria alguma dúvida no 4-2-3-1 com Fred.

Me baseei nos jogadores que Felipão escalou como titulares no treinamento de ontem para fazer o post.

Não cogitei, por isso, a chance de colocar Ramires e Fernandinho como dupla de volantes.

Se Paulinho voltou a jogar bem, o treinador avalia isso nos treinos, não há problemas em recolocá-lo no time.

O maior problema do boleiro do Tottenham no Mundial é o rendimento abaixo do que ele mostrou noutros tempos, não o fato de ter sido escalado.

Tem qualidade para brigar por vaga entre os titulares.

As setas dos campos mostram a maior parte das movimentações básicas para você entender a dinâmica do jogo.

Como não se trata de um esporte robotizado, os atletas, eventualmente, podem se mexer noutras direções.

Futebol de campo no mundo real é diferente de pebolim (totó dependendo do estado) e videogame.

Obrigado!

Agradeço ao Felipe Bigliazzi Dominguez pela paciência de ter montado os campos.

Mal precisei explicar o que pretendia e ele entendeu!

O cara é competente!