Estamos juntos, Neymar

Leia o post original por Mauro Beting

Isto não é um texto jornalístico. É apenas o recado escrito da mensagem de celular que deixei para Neymar pai e Neymar Júnior, voltando do Central Fox, ontem à noite, no Rio.

 

Neymar, e ainda falavam que você era cai-cai, que simulava faltas…

O Brasil que você como tantos leva sempre no peito você também levou como poucos nas costas muitas vezes. Costas quebradas por uma joelhada.

Não se preocupe. Ninguém quer te ver pelas costas. Ninguém vai virar de costas para você. Muito menos dar de ombros a quem tem pés tão talentosos para dar por nós.

A vértebra quebrada sustentou muita coisa boa neste Brasil. Camisa 10 que vestiu muito craque que não sofreu o que dói em seu corpo, e muito mais em sua alma.

Não quero nem imaginar o tanto que você sonhou estar no Maracanã em 2014 como você esteve em 2013.

A Seleção vai superar a sua ausência. Sua presença que sempre enriquece o grupo.

Mas o Brasil ganhou cinco Copas sem você, Neymar.

E vai ganhar a sexta sem você.

Vai sim.

Até por que não vai faltar você em cada drible, cada toque, cada lance, cada gol, cada Neymar que vai se superar em cada um. Cada um que daria cada vértebra para curar você e deixar o brasileiro doente por futebol apenas na paixão que move. Amor que comove.

O Brasil vai ganhar sem você. Quer dizer, você vai continuar em cada um deles. Em todos nós.

Você liderou esse time na Copa das Confederações em 2013. O time é o mesmo desde então (pelo menos na formação, não na atuação) muito pelo que você fez. Pelo que você continuará fazendo. O Felipão aqui está, e desse jeito vencedor, por tudo que você fez em 2013. E fará em 2018. Em 2022.

Não sei se brigando pelo hepta, octo. Mas lutando como eles vão jogar por você agora.

A gente vai lembrar em dois mil e não sei quanto que o Brasil é tão Brasil no futebol que a Seleção ganhou o hexa sem o Neymar.

Sem você. Mas por você. Por todos nós.

Dá para ganhar. No pior jogo de Neymar em 2014, o Brasil fez sua melhor exibição contra a Colômbia.

Dá para vencer. Seria um delírio imaginar isso sem Neymar. Como é um pesadelo jogar sem você.

Eu, o Brasil e o mundo adorariam dar um abraço para confortar você.

Nem isso podemos. Vai doer em você. E como dói em todos nós!

Mas sabemos que você pode tanto que pode ser o melhor do Brasil mais uma vez sem mesmo estar em campo.

Mas sei que você dá um abraço fraternal em cada brasileiro que torce por você.

A gente confia demais em você.

A gente confia sempre no Brasil.

Desde o primeiro gol de Preguinho, em 1930. Mesmo quando eliminados com Leonidas, em 1934. Mesmo quando quase chegamos com o Diamante e o Divino Domingos, em 1938. Teve Maracanazo, em 1950, Batalha de Berna, em 1954. Dores do tamanho do mundo que o Brasil conquistaria em 1958. Com um meninote magrelo que veio do Santos para brilhar com a 10 do Brasil…

Parece que você conhece essa história. Parece que essa história conhece você, Neymar.

Pelé começou lesionado em 1958 para ser Pelé no final. Você começou Neymar em 2014 para terminar a Copa campeão fora da batalha. Mas não do time. Não do Brasil. Não da nossa esperança.

O Brasil perderia Pelé no segundo jogo de 1962. Mas tinha 13 campeões de 1958. Tinha Mané que jogou por Pelé. Tinha Didi. Nilton. Teve Amarildo possesso. Manteve a pose e a posse do troféu a Seleção bicampeã.

Fomos tri com Pelé – junto com o maior time de todas as Copas, em 1970. Fomos tetra com Romário – junto com o melhor time daquela Copa, em 1994. Fomos penta 100% em 2002. Seremos hexa com aproveitamento pior em 2014. Com menos time. Menos bola. Muito menos Neymar.

Mas sei que esse time de bravos brasileiros serão ainda mais bravos e ainda mais brasileiros pela superação.

Como o Fenômeno Ronaldo se superou em 2002. Como a gente não foi bem em 2006 com um time que nos decepcionou. Como o futebol, não o Brasil, nos frustrou com Sarriá, em 1982.

Em 2010 não ganhamos. E você poderia ter ganhando mais corpo, ritmo, mais tudo, e o Brasil também, se Dunga não teimasse. Não sei se a Copa seria outra. Sei que você seria ainda melhor e maior. Sei que o mundo da bola teria sido mais feliz. Como seria ainda mais nesta baita Copa não fosse a fratura que nunca vi em um campo de jogo. Como poucas vezes vi em campo um talento como o seu.

Queda que não me deixa dormir. Lance que me deixou triste como se o Brasil tivesse perdido o jogo que de fato mereceu ganhar contra a Colômbia. Na partida que o mundo da Copa não merecia perder você não estará neste senhor Mundial. Competição riquíssima. Mas mais pobre pela ausência de corpo do craque.

Tenho certeza que não de espírito, Neymar.

Imagino a sua dor de ver em 2010 você não podendo ajudar na partida contra a Holanda.

Não quero nem imaginar a sua dor de não poder estar em campo para vencer a Alemanha e, depois, quem vier no Maracanã. Provável o time do colega Messi.

Você não vai estar lá no Maraca.

Mas estará sempre aqui com a gente. Sentindo o orgulho que temos de ter a felicidade de te ver vestido de amarelo e verde. De azul. Com todas as cores de seu futebol.

Sabemos que tudo que acontecerá terá muito de você. O que der de muito certo será muito mais certo por você inspirar cada lance de cada atleta.

Serão todos por você. Como você foi por todos nós.

O Brasil não é só Neymar. Mas o Neymar foi muito Brasil.

Você é uma joia. Um presente para o futebol, não apenas brasileiro.

Nunca nós mal celebramos uma classificação em Copa como nesta sexta. Tudo pela vigília cívica e futebolística pela sua (nossa) dor.

David Luiz não celebrou a atuação estupenda dele. Lamentou a sua ausência. Parecia um vestiário de eliminação. De luto.

Mas agora é hora de luta!

Acordamos doloridos. Com o mundo sobre os ombros caídos. Não importa se foi na maldade a entrada que te fez sair da Copa. Maldade maior é a Seleção perder e se perder sem você.

Mas é na bondade que se vence.

O Brasil vai se levantar.

Tem um treinador que sabe botar fogo pelas ventas. Sabe botar ainda mais bola no time para recuperar o que não parece recuperável. Sentimento que jamais perece.

Felipão sabe recuperar a estima. Sabe, espero, recuperar o jogo. A escola. O estilo. O Brasil.

Scolari vai dar um jeito.

Cada jogador vai dar um jeito.

Vamos tentar substituir um cara e um craque insubstituível.

Ainda que você seja dos poucos que não têm como substituir.

Mas o Brasil já foi penta e já foi tetra sem Pelé que parou – se é que Pelé para.

Já ficamos sem Ronaldo. Rivaldo. Romário. Rivellino. Tostão. Didi. Mané. Tantos campeões que pararam. Mas o Brasil não parou.

Nem vai parar.

Como você vai seguir ainda melhor ainda mais forte ainda mais firme ainda mais Neymar.

Vamos ver outro Neymar em campo.

Embora poucos Neymares novos ainda veremos pela vida.

Não pelo Brasil não produzir craques como você. Mas pelo mundo existirem poucos como você.

Poucos tão raros e tão caros. Logo, tão ricos e tão queridos.

Você é um legado sem preço de Copa tão cara.

Impagável.

Sem preço.

O seu crédito é enorme.

Sentimos a sua ausência nesta Copa como se fosse um filho que partiu.

Deus nos livre perder um filho.

Mas a gente não te perdeu, e nem a Copa.

Somos abençoados por torcer por você.

De ter a felicidade de torcer pelo seu time. Pela sua pessoa.

Choramos pela sua ausência.

Mas rimos muito mais pela sua presença entre nós.

O time vai jogar por você. Como tantas vezes você jogou por todos eles, por cada um de nós.

Vai por mim, Neymar

Vai por nós, Neymar

Você já faz muita falta.

Mas acredito nos seus companheiros do jeito que eles acreditam em você.

Muitas vezes o time não sabia o que fazer e soltava a bola pra você. Agora sabemos ainda menos sem ter alguém como você para dar bola.

É hora de jogar por você. Mesmo que ninguém jogue por você, todos jogarão por Neymar.

Vai por mim, Neymar.

Vai pela gente, Neymar.

Vamos pro hexa, Brasil!