O novo ídolo*

Leia o post original por Antero Greco

Caro amigo, você sabe de cor e salteado que o futebol, faz tempo, não é somente esporte. O aspecto tradicional, lúdico e saudável resiste e prende o torcedor, pela beleza, pela emoção, pelo imponderável. Mas o joguinho de bola há muito virou business, espetáculo, indústria de entretenimento. Movimenta uma grana que eu, você, nosso vizinho, o colega de trabalho, a vovó e a titia não conseguimos sequer imaginar.

O futebol não para e precisa de protagonistas, de rapazes que funcionem como referência para torcidas, mídia, patrocinadores. Símbolos, mitos, heróis são imprescindíveis nesse universo. Não por acaso, se forjam ídolos em todo canto, da Itália à Austrália, da China à Costa Rica. Clubes e seleções não vivem sem astros.

No caso do Brasil de hoje, o papel de relevância ficava para Neymar, até a fratura sofrida na sexta-feira. Saiu de cena, sob comoção e indignação nacionais, agora está de molho em casa, virou saudade para o que resta de Copa. Como ainda dá ibope, se falou na possibilidade de cura milagrosa, que o colocaria em campo em eventual final. Será?! Isso cheira menos fato e mais conversa pra boi dormir e não cair o humor do freguês – e, por extensão, a audiência e a grana preta que anunciantes investiram no time e no evento. Está fora.

Pois é, como se deve ir adiante, a seleção encontrou o substituto de Neymar, se não na tática, pelo menos para compensar a apreensão do torcedor carente. O nome que naturalmente veio à tona foi o de David Luiz. Desde a Copa das Confederações de 2013, o zagueiro despontou como candidato com forte potencial para conquistar a massa.

Cabelo comprido bem encaracolado, rosto simpático, riso franco e cheio de caretas, bom de papo e de discurso inflamado, aberto ao contato com os fãs, querido pela garotada. Concorrente de Neymar em comerciais. E raçudo, que divide todas e que, sem vergonha, chuta pro mato, se necessário. Ou acerta o gol, como na cobrança de falta contra a Colômbia. O homem ideal para diminuir o impacto da baixa provocada pela joelhada que pôs o colega ilustre a nocaute.

O processo sucessório encorpou ontem, na Granja Comary. David foi o mais aplaudido pelo pessoal que fica nos alambrados, acenou, deu autógrafos, pegou crianças no colo. Enfim, animou o ambiente. E, com a ausência de Thiago Silva, suspenso, deve herdar a braçadeira de capitão. Está moral nas alturas.

Isso faz bem para todos. O clima de velório tinha de ser interrompido, ainda mais na antevéspera de duelo de lascar com os alemães. Assim, retornam postura e discurso otimistas, o ibope se mantém agitado – e não despenca a autoconfiança da tropa.

Aposta-se que o astral altivo deve se refletir na estratégia da equipe, amanhã, em Belo Horizonte. Felipão ensaia alternativa agressiva, para surpreender o rival poderoso. Dante na zaga, Luiz Gustavo de volta e Willian no lugar de Neymar. Blitz desde o apito inicial. Tomara dê certo. E oremos para Fred acordar e Hulk acertar o gol. Ajudaria muito.

*(Minha crônica publicada no Estado de hoje, segunda-feira, dia 7/7/2014.)