Diário da Copa – Uma derrota que começou há muito tempo

Leia o post original por Mauricio Noriega

O sacode aplicado pela Alemanha numa apática e desconexa seleção brasileira não pode ser lido como um episódio isolado.

Vá lá que tomar de 7 em casa não é um resultado normal, tudo bem.

Mas é preciso dar a cara a tapa e reconhecer que o futebol brasileiro está perdendo esse jogo há muito tempo.

Diria que o primeiro gol dos 7 feitos ontem começou a ser trabalhado em 1994. Isso mesmo, no Tetra. Outros tentos foram adicionados no vice de 1998, no Penta em 2002. Aí o estrago já estava em adiantado estágio de gestação.

Mas o que virou goleada mesmo foram as vitórias na Copa das Confederações de 2005, 2009 e 2013. Essas fizeram mais mal ao futebol brasileiro que as conquistas de Copa América nesse período e as eliminações em Mundiais e na própria competição sul-americana em 2011.

Um vírus já havia tomado conta do futebol brasileiro, lá na base. A infecção era poderosa, mas as vitórias, em vez de provocarem também a reflexão necessária, cegaram.

A geração de 2002 foi a última grande geração do futebol brasileiro. Uma geração de jogadores que já estava na ativa em 1994, quando um grupo de atletas que havia naufragado em 1990 conseguiu vencer o Mundial nos Estados Unidos. A turma de Ronaldo, Rivaldo, Cafu, Roberto Carlos, Marcos, que seria campeã oito anos depois, já era boa em 1994.

Esse grupo que ganhou o Tetra era herdeiro da geração dos anos 80, marcada pelas derrotas em 1982 e 1986. Principalmente a de 1982, que provocou uma grande mudança de rumo na cabeça de treinadores e dirigentes do futebol nacional. Inclusive do próprio treinador de 82, Telê Santana, que foi um profissional muito diferente quatro anos mais tarde, em seu segundo Mundial. Vamos dar nome aos campeões para sentirmos o peso da diferença: Taffarel, Jorginho, Branco, Romário, Bebeto, Leonardo, Aldair, Ricardo Rocha etc.

O Brasil se transformou na Pátria do melhor futebol do mundo porque sempre foi diferente. Ganhava porque jogava diferente de todo mundo e porque tinha jogadores que fugiam do óbvio graças a uma característica: a excelência técnica. O melhor domínio de bola, o melhor toque, a habilidade, o improviso.

Nunca vencemos por termos inventado um sistema de jogo revolucionário, uma tática coletiva que fizesse a diferença. Nada disso. Nosso futebol sempre se destacou por saber encontrar uma maneira de aproveitar a qualidade técnica e a habilidade de nossos atletas.

Nossos volantes (ou cabeças-de-área) jogavam de cabeça erguida, não erravam passes, nem os mais ousados, muito menos os de cinco metros. Nossos zagueiros tinham um tempo de bola quase que científico de tão perfeito. Nossos meias, que maravilha! O toque, a tabela, os lançamentos, a visão de jogo, a leitura da partida. Atacantes havia às pencas. Rápidos, dribladores, matadores, centroavantes clássicos, raçudos.

O maior mérito de nossos treinadores, e temos e tivemos muitos grandes treinadores, sempre foi saber levar a campo os melhores e tirar deles o melhor individualmente. Por isso os gringos vinham ao Brasil, filmavam nossos treinos e jogos, tentando entender como era possível que nesse País em se jogando bola tudo dava craque.

Acontece que a vitória embriaga.

Já havia um problema sinalizado há muito tempo por jogadores de gerações de excelência e treinadores legitimamente preocupados com o futuro.

Nossa fábrica de jogadores não era eterna.

A ganância de empresários e a sede por vitórias onde elas não são fundamentais, nas categorias de base, foram minando o futebol brasileiro silenciosamente. Na base se forma jogador, não se ganha taça.

Porque acreditar num garoto de talento ainda em formação, mesmo que com enorme potencial, se é possível vencer jogos na categoria 14 anos escalando os mais altos e fortes, mesmo que não sejam os de mais qualidade? Afinal, campeão no sub-14 pode pavimentar seu caminho para o sub-17 e levar sua mediocridade até um time principal, com base na ilusão de uma vitória mentirosa.

Nisso, muitos talentos se perderam.

A ordem era formar volantes pegadores e zagueiros que soubessem “zagueirar”. Ensinar um lateral a defender, sua primeira obrigação, para quê? Para isso temos os volantes, em profusão. E lá se vão nossos laterais, para voltarem quase sempre atrasados. Meia armador pensando o jogo, dando ritmo, entendendo o que se passa em campo, lançando, virando jogo? Nada disso. Melhor colocar mais um volante ali, caprichar no escanteio e jogar por uma bola.

A doença avançava silenciosamente. Os sintomas já se faziam notar, mas, praticamente exaurida, a última grande geração ainda nos deu a vitória em 2002. Muita coisa estava errada, mas acreditou-se que em 2006, depois da Copa das Confederações de 2005, ainda era possível ganhar de novo, mesmo com muitas arrobas de peso a mais, festas em vez de treinamentos, jantares num país e jogos em outro.

No meio do caminho perdeu-se uma geração, a gerada em 2002, protagonizada por Robinho e Diego. Deveriam ter chegado ao auge em 2010. Robinho até que ensaiou, mas não deu em nada do que se esperava.

Enquanto isso, a seleção brasileira se distanciava cada vez mais de seu território e perdia a identificação com sua torcida e seu estilo histórico.

Tal qual o ditado que diz que depois de morto todo mundo é santo, ganhando está sempre tudo bem, não importa como se ganhe.

Em 2010 a saída foi militarizar a seleção trazendo para o comando um jogador sem experiência como técnico mas comprovadamente eficaz na liderança: Dunga. Estilo sargento, briguento, enquanto venceu preferiu, em vez de observar e analisar, mandar todo mundo calar a boca. Teve a chance de pensar adiante, pavimentar o caminho e levar jovens jogadores, como Neymar e Ganso, para respirar uma Copa. Preferiu naufragar abraçado ao exército de volantes que salvaram seu emprego na Copa América de 2007 (com ajuda providencial do uruguaio Lugano na semifinal). Quando o roteiro enrolou diante da Holanda, em Porto Elizabeth, deixou claro quão mentirosas haviam sido algumas vitórias. Saiu esmurrando o banco, nem sequer entrou em campo para consolar seus jogadores.

Neymar, o expoente da geração que chegou às semifinais na Copa de 2014, é ponto fora da curva. O único jogador brasileiro extraclasse. Ganso deu pinta de que resgataria a mística da camisa 10, mas ainda não cumpriu. Há muitos bons jogadores, dois zagueiros espetaculares. Para 2018 a perspectiva de se montar uma seleção interessante existe.

Mas onde foram parar nossos laterais que sabiam marcar e jogar? Volantes com boa saída de bola? Aliás, que tragédia foi a saída de bola da seleção brasileira na Copa em sua casa. Meias armadores seria pedir demais? Atacantes de lado de campo que conseguissem correr e acertar o cruzamento ao final da corrida?

Não nos deixemos iludir. O mais interessante meia canhoto da Copa era colombiano. Os melhores volantes são os alemães, que tocam a bola como os brasileiros sabiam fazer. O melhor ponta é um holandês, que tem um legítimo camisa 10 jogando ao seu lado. O maior goleador das Copas é um polonês que se naturalizou alemão. O craque do momento é um argentino. Havia dribladores na Suíça, acreditem! O Chile envolveu o Brasil taticamente e por centímetros não mandou a canção do sonho do hexa uma oitava abaixo.

Cada vez  mais os estrangeiros que afirmam que nosso futebol está ultrapassado parecem ter razão.

Falta humildade, como bem disse o Ricardo Rocha, no SporTV.

Os jogadores talvez sejam os menos culpados. Em muitos casos são levados a pensar e agir como superestrelas, quando seu brilho é raro.

A direção do futebol brasileiro é um caos. Aposta sempre em repetir experiências do passado, vendo apenas resultados, sem estudar o que se passa mundo afora e no próprio quintal.

Felipão não deve ser crucificado. Até porque tem um aproveitamento invejável em Copas do Mundo. Foi a três semifinais, ganhando uma. Acontece que vinha de um rebaixamento (sim, 2/3 da campanha do rebaixamento do Palmeiras em 2012 estão na conta dele) e de uma longa estiagem de conquistas importantes. Seu maior mérito foi devolver a credibilidade à seleção brasileira, que vinha de uma Copa América pífia. Seu maior erro foi, como seus antecessores, cair no conto da Copa das Confederações.

O próprio Parreira já andava afastado do trabalho de campo, do dia-a-dia.

Não se pode apagar o passado de dois campeões mundiais, mas é preciso estudar o presente para pensar no futuro.

Por isso digo que algumas vitórias embriagam.

Em plano nacional, os treinadores se transformaram, salvo honrosas exceções, em superestrelas milionárias que não aceitam opinião em contrário e entendem que devem mandar nos clubes e não apenas nos times.

Amadores, os dirigentes aceitam condições que muitas vezes levam seus clubes ao caos financeiro e à bancarrota esportiva.

Não existem vilões, nem heróis.

Existe trabalho, tendência.

Deixemos de lado a CBF, uma entidade cada vez mais político-comercial e menos esportiva.

Pensemos no dia-a-dia, no nascedouro, na formação de jogadores.

Os 7 a 1 do Mineirão começaram no momento em que o Brasil parou de aproveitar a matéria-prima abundante para criar produto de excelência.

A bola não está mais com a gente faz tempo.

A ficha só caiu agora.

Sete não é conta de mentiroso.