Indigestão bem-vinda*

Leia o post original por Antero Greco

Dia desses, escrevi que o futebol precisa de superlativos, sobretudo em Copa, que não é torneio que se contente com pouco. Isso mesmo. Há ocasiões nas quais o excesso cai bem, pois torcedores têm necessidade de emoção alguns pontos acima do normal, para dar um bico no marasmo do cotidiano. Desejo que se torna maior agora, com o Mundial a disputar-se em casa; não se aceita qualquer merreca.

Dito isto, meu amigo, admito a premissa de que hoje espero Brasil exagerado no desafio com a Alemanha. Não basta desempenho funcional, eficiente, dentro de padrões rotineiros. Sei, está em jogo vaga para a decisão e o triunfo é obrigatório. Não vamos discutir por tal motivo. Mas deve ir além.

Não se trata de intolerância, mania de grandeza ou picuinha besta. Muito menos torcer contra. Nada disso. Ao contrário, significa constatação. Qual? Vamos lá. Uma seleção cinco vezes campeã do mundo não pode passar um campeonato do qual é a anfitriã a oferecer aos fãs feijão com arroz, com uma farofinha por cima. Tá certo, o básico alimenta, porém neste momento vale a adição de torresmo, couve, tomate, ovo, batata e banana fritas e um filezão de meio quilo.

Taí: a rapaziada de Felipão deve uma indigestão de alegria ao público para alcançar o degrau final na caminhada para o hexa. As cinco partidas anteriores quebraram o galho, serviram para o gasto. Só que não deliciaram. Sem metáforas: o time tomou sufoco contra Croácia, México, Chile, Colômbia. Só não teve muito trabalho diante de Camarões.

A alegação para dificuldades no clássico no Mineirão está na ponta da língua e faz sentido: os alemães entendem do riscado. Claro, não é de hoje. Nenhuma seleção atinge 13 semifinais em 18 Mundiais. Tem outra: faltam Neymar e Thiago Silva, duas baixas de peso. Mas adianta lamentá-las para sempre? Não, e podem ser compensadas pelo conjunto. Também soa inútil insistir na tecla de instabilidade emocional, pressão, etc e tal. Desafinou.

Felipão matuta alternativas para compensar os desfalques e soltou pistas no treino de ontem pela manhã em Teresópolis. Há dúvida entre optar por formação tradicional, com o retorno de Luiz Gustavo ao meio, Dante no lugar de Thiago e Willian na vaga de Neymar. Além deles, Maicon permaneceria na lateral-direita.

A variante viria com Paulinho no meio-campo, para ajudar Fernandinho e Luiz Gustavo na marcação, com auxílio repartido entre Oscar e Hulk. E Fred continuaria na frente, à espera de bolas que não têm chegado. Ou de aproveitar as que se oferecem para ser chutadas a gol.

A Alemanha coloca o Brasil em alerta, pela regularidade, qualidade de gente como Müller, Neuer, Schweinsteiger, Lahm, Hummels. E pelo toque de bola e esquema tático consolidado, testado e aprovado. Pessoal, os alemães têm um quê de favoritismo. Mas podem ser batidos. Por que não com garra, dedicação, suor – aquelas coisas todas –, e principalmente com futebol soberbo? Está na hora da congestão de prazer.

*(Minha crônica publicada no Estado de hoje, terça-feira, dia 8/7/2014.)