Massacre mostra rei nu e revela crise do futebol brasileiro

Leia o post original por blogdoboleiro

O rei ficou nu.

A goleada que a Alemanha enfiou no Brasil nesta terça-feira, dia 8 de julho de 2014, deixou claro a fragilidade do time montado por Luiz Felipe Scolari para esta Copa do Mundo. Exportação de atletas ainda imberbes, perda de pé-de-obra qualificado para países do primeiro mundo e um mercado interno de baixa qualidade resultaram em uma geração que pode até melhorar, mas fez mais do que podia.

Se da crise vem a oportunidade, a vergonha passada no Mineirão pode servir para que as mudanças de calendário, forma de disputa do Campeonato Brasileiro, os investimentos na base e gestão dos clubes ousada a ponto de segurar novos talentos em território brasileiro.

Nos próximos dias, o brasileiro vai lamber as feridas, escolher vilões e torcer para 1) A Argentina perder para a Holanda e 2) O Brasil vencer a Argentina na decisão do terceiro lugar. O atacante Fred vai ser o alvo das críticas: cone, fantasma e outros apelidos serão dados. Até paródia da música do Skank serviu para alfinetar o atacante do Fluminense via redes sociais: “Fred na área não altera o placar; Fred na área não sabe cabecear…”

Fred sabe que tempos duros virão pela frente. “Vamos enfrentar tempos difíceis. Já estou acostumado: sempre procuram um ou dois jogadores para culpar”, disse na zona mista.

O futuro, a José Maria Marin e Marco Polo Del Nero pertence. Eles vão mudar de treinador e comissão técnica. Tite é o nome favorito para suceder Felipão.

Scolari assumiu a culpa de uma goleada em “jogo atípico”. “Depois do quinto gol, precisei conversar com os jogadores para que voltassem tentando jogar, fazer aproximação, tornar a partida mais difícil para a Alemanha. Tanto que chegamos a criar uma ou duas chances de gol”, disse.

Luiz Felipe tem uma última tarefa a realizar direito: levantar o moral dos jogadores para o jogo de sábado em Brasília. E tentar resguardar alguns atletas (David Luiz, Thiago Silva, Oscar, Willian, Luis Gustavo e Nemar) para seleções futuras.

A perspectiva, vista logo depois do massacre alemão, parece ruim. O tempo dirá. O Brasil precisa ter pressa e pressionar Marin/Del Nero. Se não, o esvaziamento imediato do Campeonato Brasileiro, que retorna no dia 16, pode se tornar crônico.

Vale lembrar: em meio à Copa do Mundo, os jogadores do Botafogo se recusaram a disputar um amistoso na Paraíba porque não recebem salários. O Palmeiras está se reforçando e contratando estrangeiros. Já são seis e mais um deverá vir. Não há gente de qualidade no futebol brasileiro.

Nos dois casos, fica claro o quadro que aguarda o futebol brasileiro e a seleção brasileira para a Copa do Mundo de 2018, na Rússia. Uma crise que se tornou crônica e que põe em risco a qualidade do jogo jogado em “terras brasilis”.

Deu dó ver David Luiz chorar e dizer que queria muito dar uma alegria ao povo brasileiro. É chato ter que obrigar Júlio César a dar mais uma entrevista sobre fracasso. “Eu trocaria minha falha em 2010 para não ter esta goleada”, disse. E os rapazes querem muito voltar para casa e ver os familiares.

Já os alemães deram exemplo do que é planejamento. A Bundesliga é uma das mais ricas do mundo. Há duas temporadas, Bayern de Munique e Borussia Dortmund disputaram o título da Liga dos Campeões da Europa. E desde 2003, a seleção alemã foi planejada com um grupo de jovens que hoje estão na final da Copa do Mundo. Ficaram em terceiro em 2006, pararam diante da campeã Espanha e 2010 e agora chega para tentar o título desta geração de Klose, Schweinsteiger, Lahm, Muller, Ozil e outros.

A seleção da Alemanha joga pela cartilha. Não desperdiça passes nem faz firulas. É boa marcadora, dentro do campo dela e obediente taticamente. Abusou, no primeiro tempo, de atacar nas costas de Marcelo. Abriu o placar em jogada ensaiada. Marcou outros quatro gols sem dribles, só passes e roubada de bola.

E, depois do jogo, Joachim Löw não perdoou: “O time da casa estava desorganizado e aproveitamos isso”.

A mudança do futebol brasileiro e da seleção passa também por uma escola de treinadores brasileiros que parece necessitar de modernização. A desorganização do Brasil no primeiro tempo só é comparável à falta de foco do time depois do primeiro gol. Aturdidos, os volantes Luiz Gustavo e Fernandinho correram perdidos na marcação e, mais uma vez, o time passou a tentar ligação direta outra vez.

Não havia jeito.   

 ILUSÃO NA COPA DAS CONFEDERAÇÕES

O Brasil não conseguiu montar uma  seleção aproveitando talentos como Kaká, Pato, Paulo Henrique Ganso, Luis Fabiano, Lucas, Giuliano, Felipe Coutinho e outros atletas porque 1) eles sofreram problemas de contusão e 2) caíram muito de rendimento antes da hora da maturidade. Sem falar em Robinho e  Ronaldinho Gaúcho, que parecem estar enfastiados com fama, mulheres, dinheiro e festas. E Adriano, que não consegue sair do limbo.

Mano Menezes recebeu ordem, em 2010, para renovar radicalmente a seleção. Ele tentou, mas viu Paulo Henrique Ganso sumir e Lucas ficar devendo nos treinamentos pela seleção. Quando achou que poderia montar um esquema ideal com Kaká no time, foi demitido. Felipão assumiu o cargo e, junto com Carlos Alberto Parreira, montou o grupo atual que conquistou o título da Copa das Confederações.

O desempenho da seleção brasileira, derrotando Itália e Espanha, deu a sensação de que estava tudo bem. A Copa do Mundo colocou tudo na perspectiva correta: a Espanha estava mesmo decadente e a Itália parou na primeira fase.

É triste e humilhante ser derrotada por 7 a 1 numa semifinal. Neymar nem fez falta. Não deu tempo. O primeiro gol marcado por Muller aos 10 minutos tirou o Brasil do ar. “Deu um apagão”, arriscou Júlio César.

A atuação pífia deixa muita gente em má situação. Uma derrota por resultado menos acachapante ainda daria uma chance de disfarçar os erros. De certa forma, os alemães podem estar ajudando o futebol brasileiro a buscar mais rapidamente soluções para melhorar dentro e fora do campo.

A presidente Dilma Rousseff anda querendo interferir na estrutura arcaica do esporte. Se vai fazer isso antes da eleição deste ano, não se sabe. Poderia deixar como semente para nova gestão ou como legado para outra administração.

Aliás, o gesto da presidente homenageando Neymatr com  gesto do “#É Tóis” rendeu o memê mais divertido de um dia onde vontade de chorar não faltou aos brasileiros. E não é que ela previu o resultado deste terça-feira.