Desafio para seleção: mostrar ânimo na luta por 3º lugar

Leia o post original por blogdoboleiro

Sete e meia da manhã, bairro do Cosme Velho, Rio de Janeiro. O passageiro entra no ônibus da linha 583, com intenção de descer no ponto do Corcovado e visitar o Cristo Redentor. Loiro, falando inglês, ele pagou a passagem e passou pela catraca. Nesse momento, o motorista movimentou o coletivo, que deu um tranco. O turista alemão quase caiu, mas conseguiu segurar uma das barras.

A cobradora viu a cena e comentou: “Se fosse jogador da seleção brasileira, tinha caído”. A turma, cerca de 20 passageiros, riu e o debate começou. O carioca estava, acima de tudo, desapontado.

E as confissões seguiram:

1)    “Eu achava que a gente ia perder, mas por sete a um…”

2)    “Lá no meu time em Santa Cruz, depois do terceiro gol, o goleiro já tinha simulado uma contusão e parado o jogo. Aí a turma combinava de fechar a área. Depois a gente via como jogar no segundo tempo”

3)    “Que ideia foi aquela de começar com o Bernard. O Felipão achou o quê? Que iria surpreender os alemães com aquela marcação ridícula?”

4)    “Pensei que o Brasil não ia fazer nenhum, mas fizeram”

5)    Agora, eles têm obrigação de ganhar o terceiro lugar”.

A perspectiva de jogar mais uma partida na Copa do Mundo, contra Argentina ou Holanda, não parece das melhores, a julgar pelas declarações de alguns atletas logo depois do massacre no Mineirão. “A gente tinha um sonho que era o de ser campeão. Nada mais importa”, disse o capitão Thiago Silva. “Para mim, era ser campeão ou nada”, afirmou.

Trata-se, no entanto, de jogar futebol e bom futebol.

O jogo de sábado não vai curar feridas, mas pode dar um sopro de alívio para quem está machucado pelo placar de 7 a 1. Sem o baile. Porque os alemães respeitaram a seleção brasileira. O volante Schweinsteiger chegou até a pedir desculpas pela goleada e, via Twitter, garantir que a Alemanha não humilhou o Brasil “jogando bom futebol”.

Em Copacabana, na manhã desta quarta-feira, dois alemães que não dormiram, agiam com a mesma diplomacia: “O Brasil ainda é o maior do mundo. Eles vão se recuperar”, disse Dietmar Bravo, engenheiro químico que está em férias no Rio. Ele tinha também um pedido estratégico, que envolve até um pouco de geopolítica: “Se a Argentina for para a final, os brasileiros poderiam torcer pela Alemanha. Afinal, é a Argentina né e ninguém quer deixar ela (sic) ser campeã”, argumentou.

Nem ficar em terceiro lugar. Ainda no ônibus da linha 583, a cobradora Elísia mandou a frase de efeito: “Só falta a seleção deixar a Argentina ganhar na disputa do terceiro e quarto lugar”. Isso horas antes do começar do jogo entre Holanda e Argentina.

Este medo de ver o vizinho feliz, nem é muito compartilhado por alguns dos milhares de argentinos que vieram ao Brasil. O guia turístico Sérgio Colombo, que é de Buenos Aires, se mostrou frustrado com a derrota brasileira. “Sonhava com uma final entre Brasil e Argentina no Maracanã. Seria lindo de se ver. E depois fomos tão bem recebidos aqui que dá vontade de vingar o Brasil contra a Alemanha”, falou.

Verdade que nem os alemães achavam possível uma goleada tão humilhante. MC Gringo, alemão que mora no Brasil e tem uma música cujo refrão inclui  “Tô Boladão, Alemanha com a camisa do Mengão”, passou a terça-feira trabalhando das sete da manhã até de noite. Ele animou a turma que acompanhou o jogo entre Alemanha e Brasil no Thor, um bar no Leme que virou reduto alemão.

E, logo depois do jogo, MC Gringo parecia mais revoltado do que um torcedor brasileiro. “Não sei o que este Felipão pensa. Montar um time daquele jeito e não treinar. Desculpe, mas é um erro, um erro, um erro”, berrou.

No ponto em frente ao bondinho do Cristo, o alemão que não caiu apertou o botão para descer, do jeito que outro passageiro ensinou. Na porta, armou um sorriso meio tímido, e desceu as escadas dizendo: “Obrigado e desculpem”.

Elísia agradeceu a gentileza, olhando pela janela sobre o ombro direito, mandou o comentário: “Simpático. Vai subir até o Cristo sozinho”. Estranhamente, depois de dias e dias de multidões, o acesso ao ponto turístico carioca não havia quase nenhum turista.

O ponto final da linha fica no terminal de Cosme Velho. A banca de jornais pendurou as publicações do dia, no Rio e em São Paulo. Capas escuras, de luto, frases de efeito, bem sacadas, e uma raiva incontida contra Scolari pelo maior vexame da história do Brasil em Copas do Mundo.

Tanta criatividade na vergonha da derrota rendeu elogios do site da CBS Sports, do Estados Unidos (http://www.cbssports.com/world-cup/eye-on-world-cup/24612561/look-the-best-of-brazils-world-cup-front-page-heartbreak). Vale como estímulo.

Não custa nada achar um jeito de fazer a disputa de terceiro lugar, algo mais palatável. Porque o massacre alemão ainda não foi digerido.