360 segundos*

Leia o post original por Antero Greco

Rapaz, ficou atordoado com a lavada de anteontem? Não se preocupe, não há nada de anormal, pois se trata de fenômeno nacional. O Brasil amanheceu sem entender direito o que houve no Mineirão, com ressaca futebolística que se refletiu até na desanimada tentativa de secar a Argentina contra a Holanda.

A comissão técnica da seleção também continua chocada, em estado catatônico. Parece não ter se dado conta do significado dos 7 a 1 em Belo Horizonte. Por causa do enorme trauma que viveram à beira do campo, personagens importantes desse episódio negativo criaram realidade paralela, recorreram a escudo hipotético para defender-se e segurar o baque. Optaram por negar o tamanho do estrago, como se assim não tivesse existido, não passasse de um pesadelo momentâneo.

Fiquei triste (sem ironia) de ver o esforço de senhores com currículo venerável a responderem, ontem, perguntas com muitas evasivas. Estavam acuados, magoados, amargurados e tiveram reações distintas. Felipão acusou o golpe e ensaiou explicações mais espontâneas. Porém, foi sistematicamente interrompido por um Parreira irônico, impaciente e impermeável à estupefação. Pelo menos na aparência.

“O futebol brasileiro continua forte como sempre”, teve coragem de comentar. E, para provar que a imagem permanece inabalável, leu e-mail de uma senhora que se derramou em elogios a Felipão. A plateia de jornalistas esteve atônita diante da cena inusitada. Até Felipão ficou sem graça.

A necessidade de âncora era evidente. Tanto que campeões de outrora se agarraram à observação feita por um repórter a respeito “dos seis minutos de apagão” que resultaram em quatro dos sete gols alemães. Sete gols numa semifinal de Copa sofridos pelo time da casa! E, como se ali estivesse a essência da explicação para o desastre, lamentaram a pane, a inexperiência, a sofreguidão dos rapazes jogados às feras.

Eis o mal. Não digerir a frustração e vendê-la como ligeiro arranhão em  ”campanha de sucesso”, como procurou defini-la Parreira. Beirou a soberba. Do ponto de vista psicológico, compreensível o toque de arrogância, porque a paulada foi enorme e deixou zonzos a todos. Mas é sempre um mal transformar um tsunami – termo que Felipão usou – em mero acidente de percurso.

O Brasil não teve só seis minutos de blackout que resultaram na eliminação mais doída de sempre. A seleção viveu o Mundial em tilt, e os momentos de naturalidade foram exceção. Inútil rechaçar, não há como convencer o público do contrário. Foram 7 a 1! Sei, é duro engolir.

Espero que, superada a fase da devastação, da incredulidade, Felipão, Parreira, Paixão e demais recorram à larga experiência que acumularam em décadas e botem o bisturi no centro da ferida. Vai doer, mas fará bem a eles e ao futebol brasileiro.

Não se lida com 7 a 1 na cacunda com a ligeireza de governante a explicar malversação de verbas. O povo cai na lábia de político, mas não tente fazê-lo crer que 7 a 1 não pesam! Aí, amigo, não tem Cristo que convença.

*(Minha crônica publicada no Estado de hoje, quinta-feira, dia 10/7/2014.)

PS. No texto original, saiu escrito “três dos setes gols alemães”. Foram quatro, com a devida correção aqui. Ou seja, também fiquei atordoado com a surra…