Diário da Copa – Aos meus amigos argentinos

Leia o post original por Mauricio Noriega

Sim, eu tenho amigos argentinos.

Muitos, tenho orgulho em dizer.
Estive por baixo umas 15 vezes na Argentina. Sempre fui muitíssimo bem tratado.
Mas a maioria dos amigos argentinos que tenho a alegria de manter até hoje conheci ainda na adolescência, sabem onde? No Brasil, em Santa Catarina. 
Os irmãos Oliveira, um time de futebol de salão, todos muito bons de bola e pessoas da mais elevada educação. Apaixonados pelo Brasil e pelo futebol brasileiro. Filhos de um português chamado Américo, que se casou com uma argentina chamada Zulema, depois de ter chegado ainda criança a Buenos Aires. Ambos profundos conhecedores de futebol e admiradores da bola e da gente brasileiras.
Minha quase irmã Galatea, espiritualmente mais baiana e carioca que muitos de nascimento.
Temos muito mais em comum com os argentinos do que possa fazer pensar quem leva a rivalidade futebolística a um patamar próximo da idiotice.
Você acha que gosta e entende de futebol? É daqueles que se acha craque e profundo conhecedor? Tome um táxi em Buenos Aires e você povavelmente receberá uma aula, inclusive, de futebol brasileiro. Sim, senhor especialista, o argentino adora futebol e tem profunda admiração pelo nosso. Cita times e jogadores brasileiros históricos de memória. Atreva-se a falar de tática e levará uma sova.
Claro que temos imbecis dos dois lados da fronteira. Gente que leva a sério provocações infantis que são uma das muitas expressões de rivalidade entre adversários que, no fundo, não vivem um sem o outro. 
A mão pesada de setores e pessoas da mídia potencializa essa situação.
Enquanto iso, quem sabe levar a vida sai da Argentina e se diverte em Búzios, em Porto Belo, no Nordeste, convivendo em harmonia com os vizinhos. Em resposta educada, nos embriagamos com o marvilhoso vinho deles ou com as paisagens incríveis dos Andes e o churrasco sem igual (embora os imrãos uruguaios achem que o deles é melhor).
O velho e saudoso Américo me contava que jamais esqueceu do dia em que viu Pelé matar uma bola de queixo contra o Boca Juniors dele, na Bombonera. Quando seus filhos, em especial o Javier, o provocavam sobre Maradona, ele respondia: “Tchê, boludo, el Negro es único, no me hables de Maradona”.
Fernando, também quase um irmão, treinador de futebol que revela e educa muitos talentos, sempre me fala maravilhas sobre a técnica apurada dos brasileiros com a bola nos pés e limão e cachaça nas mãos. Tanto que aprendeu a fazer caipirinha.
Rodolphito, nosso motorista na Copa América de 2011, ex-combatente da Guerra das Malvinas, capaz de chorar ao se despedir da nossa equipe, arriscar um português mambembe e lamentar pela decadência do Banfield como lamentou a eliminação brasileira diante do Paraguai.
Graciela e Bernardo, argentinos que escolheram o Brasil como casa e trabalham pela cultura dos dois países incessantemente.
Sempre estive ciente da rivalidade no futebol. Afinal, são os países que mais produziram grandes jogadores. Mas, sinceramente, acho que levamos a sério demais esse papo, nós, brasileiros. 
Estive em Buenos Aires uma semana após o Brasil ganhar o tetra e, acredite, houve festa por lá. Torceram por nós e reverenciaram Romário.
Meu amigos argentinos sabem que em Copas sou um cucaracha assumido. Torço pelos latino-americanos, sempre. 
Mas desta vez estou dividido. Ainda que Messi e todos vocês, mis hermanos, me façam ver com simpatia um tri argentino, sinto-me atraído pelo toque de bola hipnotizante dos alemães e sua incrível capacidade de organização, que me faz sentir uma gostosa inveja. 
Enquanto isso, na Granja Comary….
De qualquer modo, embora eu ainda ache que a Holanda merecesse estar na final e mereça um título pelo conjunto da obra, quem for campeão no domingo fará bem ao futebol.
A Alemanha, que soube se reinventar e jogar com talento, num prazo de 14 anos. Ou a Argentina, que mesmo sem ter um timaço como muitos que já teve na história, tem Messi, Di María e soube se reinventar em um mês, sem a arrogância e a prepotência que muita gente teima em colar na testa dos vizinhos mas anda sobrando em nossos “professores”.
Pela grande quantidade de amigos argentinos apaixonados pelo Brasil que colecionei na vida, admito que, se eles terminarem o domingo felizes, abrirei um Malbec para celebrar essa gostosa vizinhança.
Sem antes deixar de lembrar que só nós temos cinco títulos e que só o Pelé fez mil gols. 
Saludos, mis queridos amigos argentinos. 
Disfrutemos.