O grande castigo*

Leia o post original por Antero Greco

O dia nublado, coroado por chuva forte, combinou à perfeição com o astral de Teresópolis e da Granja. Tanto a cidade quanto o local da concentração da seleção ficaram esvaziados, retomaram ritmo arrastado, agora com jeito de fim de festa. Evaporaram os símbolos de apoio à tropa que lutaria pelo hexa. Ainda assim, houve torcedores à porta e ao redor do condomínio Comary, além de resistentes jornalistas com a tarefa de acompanhar os últimos passos da turma de Felipão. Até a segurança relaxou. Malditos para sempre os 7 a 1!

Os treinos brasileiros não foram marcados por intensidade, quando a disputa pegava fogo. Não há como exigir empolgação neste momento. E o que se viu, no meio da tarde, foi um bloco de jovens profissionais submetidos a sessão de tortura e enfado. Porque não passa de punição adicional a obrigação de preparar-se para a disputa do terceiro lugar.

Louis van Gaal abordou o tema logo após a Holanda ter sido eliminada pela Argentina, na semifinal decidida nos pênaltis. O holandês criticou a penúltima partida no calendário da Copa. Ele a considera inútil, desnecessária, abusiva.

Pois estou com o gringo. Não há, em Mundiais, jogo mais desalentado, desenxabido e triste do que esse. Por quê? Óbvio e simples. Reúne equipes que viram truncado o sonho do título, caíram no penúltimo degrau, estão com feridas abertas e hematomas espalhados pelo corpo. Entram em campo destroçadas pelo peso da frustração. Se pudesse, qualquer uma arrumava as malas e saía do estádio direto para o aeroporto tão logo tenha escapado o lugar na finalíssima.

Cadê ânimo para cumprir o ritual de treinar, viajar, concentrar-se, ir ao estádio, perfilar-se na hora do hino e, como complemento, correr atrás da bola? O sujeito no campo sabe que, nas arquibancadas, haverá milhares de pessoas igualmente enfadadas, pois imaginavam a respectiva equipe na decisão. E, no entanto, lá está ela, supostamente atrás de uma medalha de bronze. Em Olimpíada, cabe o esforço suplementar. Em Copas, dá vontade de o jogador entregar a comenda aos cartolas. (E alguns a embolsariam com satisfação e sem pensar duas vezes.)

No caso do Brasil, então, fica muito pior. O time foi o anfitrião da competição, chegou cheio de prosopopeia, cercado do maior otimismo, de expectativa nas alturas. Levou trombada da Alemanha, desconjuntou-se, cada atleta doido de desejo de pegar uns dias de férias. Jogar o terceiro lugar é castigo, é expor-se a nova e derradeira humilhação. O negócio é torcer para que os holandeses estejam com menos disposição.

Mas o futebol é business, meu amigo – e essa partida representa quota de publicidade, ingressos, transmissão por tevê e etc. etc. Vende-se a ideia de que faz parte do fair-play os caídos nas semifinais se encontrarem, confraternizarem e brindarem os torcedores com o recital do adeus.

“Cascatolândia”, cravaria Toninho Cazzeguai, saudoso filósofo da várzea do Bom Retiro. No fundo, tal jogo é atitude impiedosa da Fifa.

*(Minha crônica publicada no Estado de hoje, sexta-feira, dia 11/7/2014.)