Final é sempre uma partida

Leia o post original por Mauro Beting

Final é sempre um começo.

Beting é alemão. Joelmir que me fez Beting me fez gostar de futebol e fantasiar a respeito da Hungria de 1954. Um time que 20 anos antes daquela tarde de domingo de 1974 havia sido batido pela Alemanha que não era favorita em Berna. Como os alemães também não eram favoritos mesmo jogando em Munique na primeira final de Copa que vi, na sala da casa onde cresci, no Ibirapuera.
Eu tinha sete anos. A Laranja Mecânica não tinha um mês de sucesso naquele verão chuvoso alemão. Era tão favorita em 1974 como a Hungria de 1954. O problema é que a Alemanha daquela Copa era ainda mais Alemanha. Uma baita base do Bayern virou o jogo contra a poderosa Holanda de Cruyff.
Torcia pelo futebol holandês tanto quanto pela camisa alemã. Mas acabei a final feliz pela alegria de meu pai e meu irmão, mais germanófilos que eu.
Em 1978, na mesma sala, a mesma belíssima camisa laranja era mais uma vez finalista, depois de eliminar a mais bonita Itália pela qual torci. Mas a Holanda não era a mesma. Longe disso. Até por Cruyff estar longe. Ainda assim o título mundial esteve perto, com a bola na trave do goleiraço Fillol chutada pelo ponta Rensenbrink, aos 45 do segundo tempo.
Na prorrogação, não chorei. Mas a raiva pela vitória do maior rival tomou todas aquelas maravilhosas férias de inverno de tantas descobertas de música, de amor e de vida. A rivalidade com a Argentina era respeitosa. Apimentada pela mídia e pela goleada contra o Peru. Mas também ali iniciava uma história para mim muito bonita de respeito e admiração pelo grande futebol dos hermanos. Pelo fervor da hinchada. Pelo grande futebol que também deles herdamos.

Em 1982 eu traí a paixão alemã na semifinal. Ainda em lágrimas pela derrota contra a Itália do Brasil de Telê, torci pela ótima França de Platini e Giresse contra a Alemanha, na semifinal. Só para evitar o que acabou inevitável na final de Madri: o Brasil ganhou um companheiro de tri.
Na decisão, escolhi a Azzurra – como normalmente faço quando enfrenta os alemães. Sou mais italiano que alemão. Sou mais palestrino que brasileiro. Deve ser isso. E, em 1982, também torci mais pelos italianos por entender que eles teriam menos chances que os alemães de ganharem outros títulos mundiais depois…
Na final de 1982, na casa nova no Jóquei, minha mãe italianíssima só não fez mais festa em respeito ao meu pai alemão.
Meu irmão? Desde 5 de julho não via a Copa. Para não dizer que não viu mais futebol até 12 de junho de 1993.

Eu vi toda a Copa na vibração dos meus 15 anos. Mudei o horário do inglês na Cultura para não perder jogos. Estudei muito nas primeiras provas do primeiro colegial no Dante para não precisar tanto das notas daquele junho. Levava uma TV para ver no carro do seu Antonio, com o Daud, Braga e o Luque o primeiro tempo dos jogos da hora do almoço. Gravava os melhores momentos dos jogos no videocassete JVC que meu pai acabara de comprar para a casa onde nos mudamos uma semana antes da melhor Copa que vi. Também pelo grande Brasil. Por grandes equipes. E por grandes colegas de colégios e amigos de bairro que estava fazendo.
Em 1986, com 19 anos, segundo ano de faculdade de Direito e de Jornalismo, estava abraçando o Magri, o Limão e o Magoo quando ouvi que a bola do pênalti de Júlio César havia explodido na trave de Bats. Quando Fernandéz nos eliminou na mais dramática de todas as disputas de pênaltis, depois de um dos mais fantásticos 120 minutos em Copas, abri a porta de casa e fiquei andando pelas ruas do bairro. Sem dizer uma palavra aos mais de 90 amigos que estavam em casa vendo a disputa.

Na decisão de 1986, eu era Alemanha. Muito Alemanha. Mas não fiquei triste pela genialidade vitoriosa de Maradona. Como bem sabem Cecchini, Zuccari e Limão que caíram de tanto rir depois de uma groselha que um de nós disse depois do jogo. E aqui não posso repetir.
A final se repetiu em 1990. Alemanha x Argentina. Eu era ainda mais Alemanha naquela Copa horrível. Tanto pior pela Argentina que jogava atrás para Goycoechea defender os pênaltis. Castigo que não deu certo na decisão em Roma. Pênalti duvidoso marcado por Codesal deu no gol do tri alemão. Não houve disputa. Nem de pênaltis. Mas aquela que foi a pior Copa só podia ser decidida por uma bola ainda mais parada.

Eu tinha 23 anos. Era repórter de política da Folha da Tarde. Mas havia sido convidado em janeiro de 1990 para cobrir a Copa. Me viro em italiano, e faria o outro lado da Copa. Mas o Plano Collor enxugou a cobertura. Fiquei no Brasil. No começo da Copa, fui escalado pela redação para editar meia página de outras notícias do Mundial que chegavam por telex. Naquele dia, quase nada chegou. Tive de me virar. Contei a história dos camisas 10 do Brasil em Copas. O chefe gostou. Passei a assinar a coluna no dia seguinte.
Quando o Brasil foi lazarento e perdeu para a Argentina, chorei de raiva andando pela redação. Exagerei mas tintas e no tom. Desabafo de torcedor. Seria a última coluna. Mas ela ficou até o final da Copa. Ainda tive tempo de dizer que a dor palmeirense estava pior que a corintiana. Nos 22 anos alvinegros de fila, o corintiano pôde gritar é campeão três vezes. No máximo ficou 8 anos sem títulos mundiais do Brasil, de 1962 a 1970. O palmeirense, de 1976 a 1990, estava numa seca de dar dó.

Eu virei jornalista de esporte de jornal, rádio e TV. Em 1994, o Palmeiras havia um ano voltara a ser Palmeiras. Em Pasadena, eu me levantei e bati palmas quando Baggio bateu longe o pênalti decisivo. Eu estava noivo. Eu tinha 27. Eu comentava minha primeira Copa pelo rádio. Gazeta, com Enio Rodrigues narrando, Regiani Ritter e Eduardo Luís reportando no inferno de 45 graus no Rose Bowl. Continuava escrevendo a coluna diária na Folha da Tarde. Também comentava na TV Gazeta e Rádio USP. E me sentia feliz por vivenciar no estádio o meu primeiro título mundial pelo Brasil. Na minha primeira Copa in loco.

Levei uma semana para abraçar a família campeã e os magos sempre vencedores como o Giannini, Edu e tantos. Valeu pelos 27 anos sem títulos mundiais.

Em 1998, eu fazia 8 anos de coluna no jornal. E estava há um ano comentando na Band. Fiz a disputa de terceiro lugar entre Croácia x Holanda, no Parque dos Príncipes, com Nivaldo Prieto.

Na decisão, fiquei na redação em Paris para escrever a última coluna da Copa. A do apagão brasileiro. A da crise de Ronaldo. A do penta que Zidane!

Foi triste. Mesmo com a alegria tricolor nas ruas de Paris. Foi uma Copa de muita saudade do meu Luca que estava ainda na barriga da mãe. Nasceria dois meses depois. Um dia depois do meu aniversário. Mas todo lance eu sentia que ele estava comigo.
Em 2002, ele estava no meu colo quando acabou Brasil 2 x 0 Alemanha. Só ficou no da avó no segundo seguinte, que eu precisava mandar por e-mail a coluna para a edição extra do Agora S.Paulo. Meu jornal publicava sempre uma edição após cada jogo de madrugada. Eu tinha a obrigação de mandar o texto completo no instante em que o árbitro acabava o jogo. Foi o que fiz pela sétima vez. Algumas delas no meu apartamento na Vila Sônia. Contra a Bélgica na casa do amigo Lucas Battaglin. Na virada contra a Inglaterra foi no Zuccari, com Cecchini, Giannini, Edu, Doloso e Limão fazendo barulho em Higienópolis.
Na decisão, foi com meu Gabriel com nove meses no colo da mãe. Na casa do meu irmão, com o Thomas com a mãe Sharon (o Martin ainda era um projeto). Meus pais junto.

Saímos pelas ruas. Meu pai, eu e meu Luca com três anos. Ele jamais esqueceu pessoas em cima dos ônibus. Jamais esquecerei a alegria de trabalhar no Brasil durante a Copa. Eu escrevia para um portal de internet, para o meu jornal e comentava na TV Record.
Foi a minha Copa no Brasil. A primeira aqui celebrada. Junto com meu pai e meu filho. A única.
Em 2006 foi Copa na Alemanha. Como a minha primeira, lá em 1974. Copa do orkut. Do skype. De matar saudade do Luca e do Gabi pelo computador. De bater palmas para Zidane em Frankfurt. E bater longos papos meu irmão-primo Erich. Com Sergio Patrick, Paulo Bonfá, Dante Compagno, Ulisses Costa, Luciano Borges, José Silverio, João Bicev e grande time da rádio Bandeirantes, Bandsports e Band. E ainda não entender como em Berlim o Zizou perdeu a cabeça no peito de Materazzi no mais lindo estádio que vi. Numa tarde em que tomei água antes de ir pra cabine e encontrei Paolo Rossi atrás de mim. Disse a ele apenas que o admirava. Mesmo fazendo o Brasil e o mundo sofrerem em 1982. Ele riu. E eu me emocionei demais com a minha segunda final de Copa no estádio. A segunda nos pênaltis. A segunda ficando em pé no pênalti decisivo. Celebrando a cobrança de Grosso. Outro tetra comemorado. Desta vez pela Itália da minha mãe Lucila. Do meu passaporte como bisneto de Salerno. De Corigliano Calabro. De Camaiore. De Piacenza. Fratelli di Italia.

Em 2010, meu Luca estava em Israel. Meu Gabriel no apartamento no Itaim. Saiu orkut. Entrou Twitter. Saiu o Brasil em jogo das quartas em que entubei de Johanesburgo pela rádio Bandeirantes. Fiz Bandsports. Band. Yahoo! Esporte Interativo. Lance! LANCENET! Muita gente ótima como o Fratello Patrick. Ulisses. Megale. André Coutinho. Bicev. Marcelo. Os programas com Elia, Piperno. O Mauro & Mauro com o Mauro Silva. O Beting & Beting com o Erich.

A final vendo Mandela no Soccer City. Vendo Iniesta decidir o título na narração do Silvério. Não vendo a hora de beijar meu Gabi na volta. E duas semanas depois meu Luca.

Em 2014, a Copacabana é aqui. O mundo é no Brasil. Sou Fox Sports. Rádio Bandeirantes. Esporte Interativo. Lance! LANCENET!

Estou em Jacarepaguá desde 24 de maio. Viajando Manaus, Natal, Salvador, Brasília, Porto Alegre, São Paulo e Rio de Janeiro pelo Fox Sports. Narrando jogos com Marco de Vargas e Gustavo Villani. Com Mauro Júnior, Helena Calil, Vagner Martins, André Cavalcante, Gudryan Neufert, Flávio Winicki jogando, torcendo, trabalhando. Juntos.

Com um baita time fazendo o dever com prazer.

Agora, com a minha Silvana pela primeira vez e o meu Gabriel aqui no Rio comigo. Com o Erich também. Com o meu Luca com os amigos na praia.

Com a minha família e os meus amigos para ver o Brasil tentar ser terceiro colocado.

Com todos eles e muitos mais como o Calabar e toda a Famiglia e amigos comigo na cabine do Maracanã para fazer a final com o Gustavo Villani e com o treinador que nos deu o 12 de junho de 1993 comigo comentando.

É a minha 11a Copa desde criança. Será a minha 11a como criança.

Torcendo pela recuperação do nosso craque Mario Sergio. O mais completo profissional do futebol.

Trabalhando para ver a Alemanha favorita contra Messi.

Comentando um jogo equilibrado que decide o mundo.  Embora a minha Copa já esteja decidida.  Para mim estaria ganha mesmo se não estivesse na final.  Minha Copa independe da final. Ou dos outros 63 jogos.

Minha Copa é como o espírito olímpico do Barão de Coubertin.  O importante não é vencer.  É estar.  É viver.

É me emocionar mais uma vez com a Copa da minha vida.

Beijando minha mulher e meu filho que estão comigo. Beijando nossos filhotes espalhados por Juqueí, Canadá e África do Sul. A minha mãe na Itália. E meu pai pela primeira vez no céu. Sabendo que o filho dele está muito feliz. E muito bem cuidado e protegido.