Persistência e simpatia premiadas*

Leia o post original por Antero Greco

Os estereótipos abarrotam nossa mente. Um deles define alemão como frio, contido, sem graça. Enfim, gente insossa e intragável. Conversa fiada. A alegria de criança que os jogadores da seleção da Alemanha esbanjaram, ao comemorar o quarto título mundial, destruiu preconceitos e serviu como fecho de ouro para o comportamento extraordinário, dentro e fora de campo, que tiveram durante a aventura no Brasil.

Os germânicos trabalharam e se divertiram na Copa. Não se enclausuraram, interagiram com o povo, seja em Santa Cruz Cabrália – a base da concentração –, seja nos deslocamentos pelo País. Não empinaram o nariz, apreenderam o espírito da terra, relaxaram com o sol. Foram felizes.

A felicidade da trupe de Joachim Löw refletiu-se no futebol que exibiu em sete desafios. Nem sempre impecável como no atropelamento contra o Brasil, mas regularmente eficiente. Sóbrio sem ser maçante, solto sem flertar com o desleixo, criativo sem beirar a insolência, duro sem exaltar a violência e a covardia.

A conquista consolidou-se na bacia das almas, com alemães e argentinos esbaforidos, as pernas a pesar toneladas, o raciocínio lento. O 1 a 0 deu a medida da pequena diferença na decisão, pois os hermanos apresentaram valentia e controle que faltaram à moçada de Felipão. Higuaín, Messi e Palacio tiveram chances de gol. Falharam, porém incomodaram Neuer. Estavam vivos até o último sopro no apito. No todo da competição, se valeram mais da técnica e da garra do que da tática.

O título alemão, ao contrário, não caiu do céu, não foi desejo dos “deuses do futebol”, imagem tão desgastada quanto a de meninos a chorar nas arquibancadas. A quarta estrela será cosida na camisa como prêmio ao planejamento e a ideias arejadas.

Os alemães há quase uma década preparam guinada na maneira de jogar. Se antes era pragmática, agora é também bonita. A habilidade, a ousadia, os passes bem feitos, os dribles foram levados em conta. A opção deu o ar da graça em Mundiais e Eurocopas, com chegada frequente às semifinais. Só que batia na trave…

Na África do Sul, em 2010, a reviravolta chamava a atenção. Já na primeira rodada, escrevi que a Alemanha parecia o Brasil de outrora e o Brasil de então lembrava a Alemanha de antes. Papéis invertidos. O afastamento das origens acentuou-se: os alemães mais soltos e os brasileiros, contidos. Quem está no rumo certo?

A razão me leva a cumprimentar os alemães, que têm feito bem para o futebol e são perseverantes. Sentimento sul-americano e admiração por Messi (que não considerei o melhor do torneio) me fazem lamentar a queda da Argentina, que amarga o próprio Maracanazo.
Pra fechar: que linda Copa!

Família desfeita. A CBF aceitou pedido de demissão de Felipão, informou a Globo no início da madrugada. Desenlace inevitável. Fosse o treinador, teria entregado o cargo em público, e de maneira peremptória, no sábado.

(*Minha crônica publicada no Estado de hoje, segunda-feira, dia 14/7/2014.)