Obrigado, Felipão. Um cara do bem com cara de mau

Leia o post original por Mauro Beting

Luiz Felipe,

você perdeu 2014 com o mesmo Brasil com quem você venceu em 2002.

Você foi goleado pela Alemanha nesta Copa por erros que você cometeu e que você não cometeria quando venceu a Alemanha naquela Copa.

Você não voltou igual da Europa que você quase conquistou em 2004 como vice da Euro, do mundo que você rodou e quase ganhou em 2006, por Portugal.

Você demorou a se readaptar ao Brasil e ao jogador brasileiro. Ele mudou, Felipão. Você também. É diferente o que dava certo em 2002. O mundo é outro. E você que o conquistou não foi feliz como merecia ser no Palmeiras que você aprendeu a amar como nasceu Grêmio. Tricolores e alviverdes que torcem por você como se eternamente você fosse deles.

Permita-me: nosso Felipão.

Sou dos que sempre respeitaram o treinador campeão da Copa do Brasil pelo Criciúma, em 1991. Pelo que conquistou no Grêmio a partir de 1994 até deixar o Olímpico campeão do Brasil, da Copa do Brasil, do Gaúcho, da Libertadores, e quase venceu em Tóquio o excepcional Ajax de Van Gaal.

O mesmo treinador que venceu o seu Brasil em Brasília. Só em 2002 – que você tão bem sabe o que aconteceu na Copa – ocorreu um mandante semifinalista terminar a competição em quarto lugar. Então foi a Coreia do Sul. Time que perdeu a semifinal para a Alemanha e a disputa de terceiro lugar para a Turquia. Mas não levou dez gols em 180 minutos como o time que Felipão não soube armar na semifinal, e não teve condições de rearrumar na disputa de terceiro lugar.

Felipão nunca foi o cara para olhar um jogo e mudá-lo como estrategista. Mas quase sempre fez suas equipes venderem caro qualquer resultado, soltando fogo pelas ventas, jogando bola como se valessem as próprias vidas. Scolari sabe como motivar e cativar. Sabe treinar time, torcida e imprensa. Até mesmo adversários de campo, de banco, de tribunas de imprensa e de honra.

Mas não tem sido mais o mesmo. Não foi no Palmeiras carente de craques. Não foi no Brasil carente de geração tão talentosa – e experiente.

Não, não o acho obsoleto.

Não, não posso dizer que ele é antiquado e ultrapassado.

Não é. Ele segue estudando. Segue aprendendo.

Talvez menos como antes. Como o Chico Buarque não compõe como fazia até a metade dos anos 1990. Como Martin Scorsese não dirige mais tantos e tão bons filmes. Como o Luis Fernando Verissimo não me faz mais rir tanto como de costume – e mesmo o Agamenon Mendes Pedreira. Como a minha avó perdeu nos últimos meses a mão na pizza inexcedível. Como o meu pai nem sempre acertava mais todos os comentários e textos.

Como o Parreira já não dá tantas aulas. Como Felipão já não acerta tanto o time e o ambiente. Como a gente envelhece. Perde o tônus. O timing. O tempo. Os jogos. Os campeonatos.

Mas, para todos, campeões ou não, não podemos perder o respeito.

Esses tantos são vencedores. Craques. Têm um lugar na história. Mas ainda não são apenas história.

Têm presente. Podem fazer parte de um futuro mais que perfeito.

Desde que, claro, não sejam apenas verbetes de enciclopédia. Desde que reciclem. Deem um F5. Reboot se necessário no sistema.

Tentem mudar o discurso. A prática. O jogo.

Cabe a eles. E cabe a nós respeitar, não desancar, muito menos desencanar.

Felipão poderia ter fechado o time contra a Alemanha. Parreira poderia não ter sido tão otimista antes. Poderiam ter incutido mais confiança que esperança no elenco. Poderiam ter sido os tiozões no meio de tantos sobrinhos. Talvez pudessem mudar algo nos treinamentos – mas nem tanto, tudo dera certo na Copa das Confederações. Não tinham muito mais gente diferente para chamar. Talvez um Kaká. Lucas. Luís Fabiano. Robinho.

Mas quem mais?

O time era esse. E jogara muito bem em 2013 – sem Alemanha. Argentina. Holanda. França. E outras equipes que cresceram em 2014.

A pressão era grande. Talvez outros treinadores também não conseguissem. Aconteceu. Embora não aconteça um 7 a 1. É a primeira vez em semifinal de Copa desde 1930. É a primeira vez em 100 anos de Seleção.

Foi a última vez de Felipão. De Parreira.

Não é a melhor impressão. Como, confesso, meu primeiro papo com Felipão também não foi legal. Ele não gostava de jornalista paulista. Não gostou de uma pergunta mais seca. Mas, depois, me conhecendo, e eu a ele, nos divertimos. Mesmo quando discutimos. Discordamos.

Em 1998, meu pai fez uma preleção antes da final da Mercosul que o Palmeiras ganhou com Scolari no comando. Em 1999, meus pais fizeram a festa da Libertadores em casa, e ele lá ficou das 20h30 até 3 da manhã. Em 2001, quando assumiu a Seleção, me pediu um relatório do Uruguai, já que a CBF nada tinha, e eu tinha comentado e visto todos os jogos uruguaios. Ele agradeceu muito pelo trabalho feito com enorme prazer e dever.

Tivemos discordâncias como quaisquer jornalistas e quaisquer pessoas que se conhecem.

Poucas vezes concordo com alguém que adora Pinochet e muitas práticas pouco corretas em campo.

Não gosto do Felipão que atira bolas no gramado em final de jogo e arruma confusões premeditadas.

Não gosto do Felipão que não consegue pilhar seus jogadores ou os orientar para parar o massacre alemão, nem o que deixa seus reservas “orientarem” seus companheiros.

Não é o Felipão que conheço e admiro. Até quando não admiro o que ele faz.

Talvez não seja mesmo mais o mesmo. Como eu também não sou. Como você que ainda está lendo também não é.

Mudamos.

E nem sempre gostamos do que fazemos.

Mas é o que podemos.

O que sei é que ele fez tudo que pôde. Como sempre.

Talvez não possa tanto quanto antes.

Mas ele ainda é o tiozão conservador que rouba os brigadeiros da mesa de doces antes do parabéns para saciar a fome dos sobrinhos.

Ele é o cara que tem fidelidade canina e late e rosna e morde e não assopra.

Erra como muitos.

Mas acerta como poucos.

Errou como nunca havia feito. E errou ainda mais ao achar que não errou tanto assim. Parecia estar em um mundo paralelo. Ou no inferno para onde ele manda os desafetos. Não sei. Não é o Felipão que admiro e respeito. Mas ainda é o Felipão.

Ele é daquelas pessoas que erram com mais graça, ainda que não admitindo erros dos outros, e ache que todo mundo quer o mal dele.

Felipão muitas vezes não entende as críticas construtivas. Sente-se perseguido. Aviltado.

Alguns até gostam do pior. Não gostam dele.

Mas muitos apenas querem que o futebol seja da altura da capacidade do time. Querem o bem como o Felipão quer os seus meninos como se fossem filhos.

Quem critica quer um time também vencedor. Não vendedor de ilusões.

Mas Felipão enxerga só maldade. Quando ela existe, ele chuta por trás. Quando ela não existe, ele anda esnobando. Ignorando. Como pareceu ignorar as tantas virtudes alemãs. Como pareceu ignorar os tantos erros na intermediária que levaram aos problemas defensivas, e à falta de solução ofensiva no Brasil.

Felipão não é mais o treinador da Seleção.

Pena para ele. Pena para o Brasil que entrou em pane.

Mas, desta parte, ele ainda vai ser muito mais o técnico do penta que o das goleadas finais. O campeoníssimo do Grêmio. E, para mim, o cara que foi abraçar primeiro os gandulas quando ganhou a América no Palestra, em 1999. O cara que fez gestos que as crianças não podem ver quando venceu o Corinthians nos pênaltis, na Libertadores de 2000. Muito mais que o treinador que, em meses, ganhou a Copa do Brasil e não soube evitar o rebaixamento alviverde em 2012.

O treinador que errou agora. Vinha mais errando que acertando. Mas que acertou muito mais.

Um cara do bem com cara de mau.

Perdemos, Felipão. E feio.

Mas você nos ensinou que é possível ganhar bonito até quando feio.

Obrigado, campeão.