Torcedores desabafam! Recomendo a leitura

Leia o post original por Vitor Birner

O post tem dois desabafos, nenhum deles meu.

O primeiro é do leitor que se auto-intitula ‘seu Lúcio’ e comentou no blog.

Transformei o texto em post. É uma carta dele ao Carlos Alberto Parreira.

O outro é do Thiago Lattes, responsável pela moderação de comentários no blog, que trabalhou muito pouco durante o Mundial porque foi em 13 jogos da competição para curtir o torneio e viu algo que o incomodou nos confrontos do Brasil.

Carta ao Parreira

Do leitor ‘seu Lúcio’

Mandei essa carta pro Parreira, mas ele não lê como fez com a dona Lúcia.

Eis a carta na integra:

Parreira, acabo de ver a coletiva onde o senhor leu a carta da dona Lúcia, que não sei se existe mesmo ou foi inventada.

Mais uma vez vi diante da câmera um homem arrogante diante das críticas, fazendo indiretas de que a nação lhe é devedora e de que críticos são ingratos e limitados.

Primeiramente, quero lhe dizer que não lhe devo nada, absolutamente nada.

O senhor foi contratado pela CBF, uma organização privada e autônoma, para realizar um trabalho e está sendo bem pago pra isto.

Do mesmo modo que a CBF contrata quem quiser para ser técnico de sua seleção, eu, como torcedor, decido se me identifico ou não com ela, se torço ou não para ela.

Isso não faz de mim menos patriótico do que ninguém, porque minha obrigação de cidadão é com o meu país e não com a CBF.

Pra sua sorte, milhões de brasileiros se identificam com a seleção e torcem por ela.

São eles que lhe dão audiência e público, o que reflete no interesse dos patrocinadores e em última análise no seu salário.

Portanto é senhor que deve ser grato a eles e não o contrário.

Eventualmente muitos entre esses milhões de brasileiros vão lhe criticar: vão dizer que a escalação está equivocada, que o Brasil jogou mal, etc.

Eles têm o direito de criticar o quanto quiserem e darem o palpite que bem entenderem, goste o senhor ou não, pois não precisam de sua aprovação para se manifestarem.

Pelo menos estão acompanhando o seu trabalho, pior pro senhor se estivessem indiferentes fazendo outra coisa da vida durante os jogos.

O que não se pode fazer é ofender a honra e a dignidade humana dos jogadores e de todos os profissionais envolvidos no trabalho. Isso vale para todo mundo inclusive pro senhor e pro Felipão em relação a outros profissionais, como os da imprensa por exemplo.

É justamente nesse milhões de brasileiros que acompanham a seleção, não por obrigação ou qualquer tipo de ganho financeiro mas por amor genuíno, que o senhor e o Felipão deviam se importar quando falaram após a derrota da semifinal, tão dura e vexatória.

Deveriam ter dito que lamentavam profundamente e que, apesar de terem feito o máximo que podiam, reconheciam que o desempenho da seleção na competição foi pífio.

Deviam ter dito que vão tentar aprender com os erros e que vão lutar para melhorar o futebol no país.

Infelizmente não foi o que ocorreu.

Concentraram-se em se auto elogiar, em minimizar a derrota, em negar que erraram e afirmar que o trabalho foi bem feito.
Milhares de crianças chorando pela derrota e o senhor usa as palavras de uma fã para exaltar a si mesmo e ao Felipão.

E o Felipão, sustentando a tese ridícula de que, afora os gols sofridos, o Brasil jogou bem e que ele não errou em nada.

Poucas vezes vi tanta arrogância em uma pessoa.

Tenho que admitir que finda a coletiva eu sabia exatamente porque o brasil havia perdido como perdeu, involuntariamente vocês dois me deram a explicação.

O senhor falou: “quando ganhamos o trabalho foi bem feito, quando perdemos não”, indiretamente está nos chamando de idiotas, cujo julgamento se resume a essa análise simplória. Vou lhe responder: não somos tão idiotas assim.

Veja a seleção de 82 por exemplo, foi derrotada, mas permanece amada e respeitada no coração de muitos.

Mas, mesmo supondo que sua declaração esteja correta, qual o problema em se valorizar o resultado? Por acaso a valorização do resultado não é inerente a qualquer esporte competitivo?

O senhor tem uma lógica ímpar: quando ganha valoriza o resultado como fez em 94, mas, quando perde, quer nos convencer de que o resultado não tem importância.

Receba essa crítica de um brasileiro anônimo…

Seu Lúcio

Foram aos jogos, mas não viveram a Copa do Mundo

De Thiago Lattes

Não tenho o que reclamar da minha Copa!!

Fui a 13 jogos (Brasil x Croácia; Espanha x Holanda; Alemanha x Portugal; Espanha x Chile; Holanda x Chile; Bélgica x Coréia do Sul; Brasil x Chile; Argentina x Suíça; Brasil x Colômbia;  Holanda x Costa Rica; Brasil x Alemanha; Argentina x Holanda; Alemanha x Argentina), visitei 5 sedes (São Paulo, Salvador, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Fortaleza), conheci muita gente e vivi a Copa na rua.

Me recordo de poucos jogos que assisti pela TV, em alguma casa, tranquilo e sozinho. Programas esportivos: quase zero.

Tive diversas constatações, e a esmagadora maioria, muito positiva. Caso seja possível, escreverei sobre outras no futuro.

Mas segue a, possivelmente, única constatação negativa da Copa: parte de nossos torcedores são medíocres.

Sempre fui fã de futebol, fui a centenas de jogos do São Paulo, mas quase sempre em cadeira numerada, poucas vezes na arquibancada.

Certamente não sou o maior fanático, o rei das arquibancadas, mas entendo o poder que uma torcida pode ter.

“Ahhhh, mas a torcida do São Paulo é modinha… Sabe de nada de torcer esse ai ”

Todas as nossas torcidas, que se dizem fanáticas, são certamente piores se comparadas a torcidas de vários outros países.

Há exceções em alguns momentos: Fluminense fugindo do rebaixamento, Corinthians na volta a primeira divisão, São Paulo na Libertadores… Enfim, mas nada que se compare a torcidas da Turquia, Argentina, Alemanha, etc.

E o reflexo dessa falta de habilidade em torcer é visto na nossa seleção.

Não estou acostumado a pular um jogo inteiro. Mas pelo fato de estar próximo a seleção durante a Copa, comprei a briga.

Pintei a cara, comprei a bandeira, aprendi os cantos, ajudei a criar outros, provoquei rivais, pulei que nem um louco e comemorei com desconhecidos na porta dos estádios e na “arquibancada”.

Festa incrível, sentimento maravilhoso!

Porém faltou mais! Muito mais da maioria dos brasileiros que foram aos jogos!

O Felipão não ter povoado o meio-campo contra a Alemanha foi tão grave quanto a apatia da esmagadora maioria dos torcedores no estádio, especialmente no Mineirão.

Infelizmente, cantar o hino à capela não é suficiente para motivar o time um jogo inteiro.

Uma ressalva: sei que é injusto comparar com os torcedores de outros países que vieram ao mundial. Quem vem à Copa, especialmente, em um desconhecido Brasil, certamente é fanático por futebol e pela sua seleção.

Mas, voltando aos verdadeiros torcedores modinhas, queria deixar registrado que eu tenho repulsa da esmagadora maioria das pessoas que estavam no pacote Hospitality da FIFA.

Para quem não sabe, o Hospitality é o camarote da Copa, onde o torcedor desembolsa milhares de reais ou empresas torram outras centenas de milhares de reais e levam seus convidados, parceiros, clientes.

Eles pagam caro e tem direito a inúmeras outras coisas (ar condicionado, canapés de salmão, vinhos frisantes, guias bilíngues, melhores assentos, acessos exclusivos, etc), que nós meros mortais não temos.

Acho justo eles terem esse direito dado o alto valor que estão pagando. Você pode discordar, mas minha questão não é essa.

Meu ponto é: por que raios eles não torcem, não vibram, não sentem?!?!?!?!

Não precisava ser o mais fanático membro de torcida e pode tirar sua selfie para o Instagram tranquilamente.

Mas podia abrir a boca algum momento, expressar um sentimento, seja de alegria, tristeza, raiva, decepção.

Ser rico e aproveitar esses bens não anula a possibilidade de curtir um jogo.

Enquanto amigos imploravam pelo meu ingresso, tive ânsia ao ver alguns torcedores, em plena prorrogação contra o Chile, saindo das cadeiras e voltando para o camarote porque estava um sol infernal.

E tem mais: após o primeiro gol da Alemanha, o famoso “Senta! Senta! Senta!” foi mais frequente do que um simples “Brasil! Brasil! Brasil!”.

E não para. No desespero de apoiar o time, tentei, sozinho, inúmeras vezes, puxar cantos para nossa seleção, totalmente em vão.

No caminho para o estádio, em uma SEMIFINAL de Copa do Mundo no Brasil, com Brasil, o silêncio reinava no ônibus, apesar das tentativas frustantes de contagiar os torcedores.

As vaias ao hino do Chile; o xingamento a nossa presidente; as inúmeras idas ao bar durante os jogos;  e todos os outros momentos bizarros mostraram que não estamos prontos como torcida.

Talvez até seja um problema social.

O estádio de futebol é um lugar democrático e os torcedores do Hospitality tem o direito de estar lá.

Mas, por favor, quando comprarem um evento, uma experiência, entendam para onde vocês estão indo e sintam a emoção daquilo, a sua maneira é claro.

A ostentação desses torcedores nessa Copa foi um desrespeito aos torcedores comuns e a quem realmente queria estar lá.

Para efeitos de comparação, se ganhasse um show de um artista famoso que não conheço, eu iria ao evento, tiraria a minha foto, comeria meu canapé,  mas certamente tentaria viver a emoção daquilo e não somente dizer que estive lá.

Vocês, torcedores do Hospitality, que mandaram sentar, que se calaram durante 90 minutos e não se emocionaram, certamente não viveram a Copa do Mundo.

Quem madrugou e não conseguiu ingresso, viveu mais essa Copa do que vocês.