Revolução meia-boca*

Leia o post original por Antero Greco

O Campeonato Brasileiro voltou ontem, com a disputa da 11ª rodada da Série B, e prossegue hoje, com o retorno da A, que está com uma jornada a menos. Gostaria de ocupar o espaço da crônica com o futebol nosso de cada dia – e não escondo a saudade dele, que me diz mais do que Mundial. Mas, não tem como evitar: é preciso abordar ainda desdobramentos do cataclismo da seleção na reta final da Copa.

O comando da CBF resolveu fazer uma limpa na Comissão Técnica. Desde a noite de domingo começou uma caça às bruxas que enfia, na mesma tacada, desde Felipão a Parreira, até o doutor Runco, o preparador de goleiros Pracidelli e o diretor de comunicações Rodrigo Paiva. Se bobear, sobra para roupeiro, cozinheiro, porteiros e faxineiros.

A dupla José Maria Marin e Marco Polo del Nero pretende fazer terra arrasada do grupo que guiou a tropa canarinha na disputa. Os dois ficaram um tanto na moita durante o torneio – de vez em quando baixavam de helicóptero para visitar concentração –, não apareceram em público para pronunciamento após os 7 a 1 para a Alemanha e tergiversaram, nos raros momentos em que se viram obrigados a falar, a respeito do futuro dos profissionais que cuidavam da equipe nacional.

Em determinado instante, a dobradinha de cartolas acenou até com a perspectiva de não mudar nada, como prova de confiança na capacidade dos gestores, etc e tal. Felipão e Parreira, escolados, rodados, experientes, conhecedores da roda viva desse meio, caíram na conversa. A ponto de, mesmo depois dos 3 a 0 diante da Holanda, continuarem com o discurso de que as surras não cobriam de nuvens cinzas o planejamento, e isso e aquilo. Parreira soube da demissão pelo site da CBF na segunda-feira, horas depois de a notícia ter sido veiculada na TV Globo…

Ambos teriam evitado o constrangimento se botassem pra quebrar, ou na quarta-feira, um dia depois do massacre no Mineirão, ou tão logo terminasse a decisão pelo terceiro lugar. Vinham a público e, de maneira categórica, peremptória, ali mesmo, na sala de entrevistas do Mané Garrincha, apresentavam renúncia, que se estenderia aos demais integrantes da Comissão. Um gesto de desprendimento, de coragem e que não daria espaço para carregarem sozinhos o ônus do fiasco.

Pois optaram por servir de escudo para os patrões e se deram mal. Nem entro em discussão sobre direitos trabalhistas que tenham para receber; essa é questão de cada um. Mas, para a maioria deles, parece detalhe secundário. E pensar que Parreira reiteradas vezes se encheu de brios para anunciar que a CBF serve de exemplo, pois é retrato do “Brasil que deu certo”. Sempre é bom segurar o entusiasmo.

Daí, meu amigo, se imagina que começou a reviravolta no futebol do país. Saem Felipão e companheiros e se inicia ciclo novo, pujante, arrojado. Permita-me jogar água no chope. Como supor que algo de diferente, de fato e profundo, possa nascer enquanto a estrutura for mantida? Não vislumbro em Marin, atual presidente, nem em Del Nero, o futuro mandachuva, perfil para guinada.

Eles representam a continuidade, ganharam visibilidade ao segurar a onda do ex da CBF, aquele que se escafedeu de uma hora para outra e, ao que consta, vive exílio sereno nos EUA. São mais do mesmo, assim como seria Andrés Sanchez, que se proclamou oposição e era, inicialmente, o predileto do ex para ser seu sucessor. Não se pode esquecer que chefiou a malfadada delegação que foi à Copa da África e teve força significativa do então patrono da CBF para erguer o estádio em Itaquera.

Pouco adianta chamar Tite, Guardiola, Sabella, Muricy, ou sei lá quem. O treinador atacará um aspecto pontual, a seleção, e só. A questão central se adensa na estrutura do poder do futebol de cá. A transformação começa na base – no organograma diretivo de clubes e ligas –, para chegar a Federações e CBF. Até lá, as raposas continuarão a tomar conta dos galinheiros. E a regalar-se.

*(Minha crônica publicada no Estado de hoje, quarta-feira, dia 16/7/2014.)