O livro do tetra

Leia o post original por Mauro Beting

Este é meu prefácio para o belo trabalho dos amigos e colegas André Rocha e Michel Costa.

Tetra que hoje comemora 20 anos exatos.

Vinte anos de evolução ou não?

Ao texto do tetra.

Eu trocaria o gol que o Brasil não fez na Itália em 120 minutos de calor em Pasadena em 1994 pelo pesadelo de ter feito um gol a menos que Paolo Rossi em Sarriá, em 1982.

Revejo com prazer até mesmo aquela derrota do Brasil de Telê e do mundo da bola na Copa da Espanha. Revejo com algum pesar muitos dos jogos do Brasil de Parreira tetracampeão nos Estados Unidos.

Respeito todos os campeões. Nem sempre os admiro. Reverencio eternamente times que não ganharam mundiais, mas conquistaram corações planetários. Como a Hungria-54. A Holanda-74. O Brasil-82.

Em menor escala e escola de futebol, também o Brasil de 1986. Eliminado nos pênaltis por uma França melhor que a de 1998. Mas que também parou antes. Ficou pelo caminho que o Brasil de 1994 superou. Também nas cobranças que a seleção desperdiçou no México. Numa tarde louca em que Zico, Sócrates e Platini perderam suas penalidades mais que máximas.

Baresi e Baggio, craques da Azzurra, desperdiçaram os pênaltis deles na final de 1994. Romário, o cara que nos levou para a Copa contra o Uruguai, em 1993, e que nos trouxe o caneco de volta depois de 24 anos, lá dos EUA, quase perdeu o dele. Bateu na trave e entrou.

Era para ser assim. Como não fora antes. Como voltou a ser em 2002. Acontece com as melhores famílias. Scolari ou não. Também com as grandes escolas. Joguem bonito como nos três primeiros títulos. Joguem bem como no tetra e no penta.

O Brasil consegue ser campeão de todo jeito. Até sem muito jeito. Faz parte do jogo. O futebol aceita vários tipos de gente, de ginga, de jeito, de jogo. O brasileiro é que nem sempre aceita um outro futebol.

O melhor time de 1994 foi o campeão. Poderia ter jogado melhor, mais bonito, mais solto, mais ousado, mais brasileiro o time de Romário e Bebeto. Mas, talvez, teria perdido a força, fatos e feitos. Para não arriscar o tetra, Parreira optou por arriscar pouco. Deu certo.

Um chute errado de Baggio nos deu o tetra. Mas a justiça que nos faltou em 1982 sobrou em 1994. Ainda que pudesse jogar mais, não teve time melhor naquela Copa. O Brasil de ótima defesa, excelente disposição defensiva, boa organização na armação tolhida por uma camisa-de-força tática, e um ataque seminal.

Não teve time melhor que aquele em 1994. Vencedor com mérito. Campeão sem contestação. Mas com um futebol discutível para quem tinha de um gênio como Romário para fazer os gols que o time bem armado não tomou nos Estados Unidos.

Não é Copa para rever os jogos – exceto o excelente segundo tempo de Brasil x Holanda. Mas é Mundial que serviu como resgate para o mundo rever o Brasil campeão.

Ótima oportunidade para ler o excelente trabalho de uma dupla que sabe de futebol. André Rocha e Michel Costa são Romário e Bebeto. Têm ótima retaguarda e conhecimento de causa para analisar friamente (mas sempre com a necessária paixão) uma Seleção que fez história. Um campeão que sempre vai se discutir. Com razão ou apenas emoção. Com birra e aos berros.

A dupla deste livro destrincha o time, os rivais, os jogos, a Copa. Abre o jogo, fecha aspas, levanta questões, reponde dúvidas.

Como em 1994, você pode discutir o estilo e a escola. Mas não o resultado final: é um trabalho campeão

 

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