O jogo do alemão: eles viraram Brasil. E o Brasil virou o quê?

Leia o post original por Mauro Beting

Entre tantas coisas que o Brasil pentacampeão pode aprender com a Alemanha tetracampeã é como saber se defender com e sem a bola.

Não precisa apenas ter um monstro como Neuer na meta. O antigoleiro. Muro de Munique que mal se move para muito bem defender. O posicionamento perfeito que leva à lei do mínimo esforço e máxima eficiência. O zagueiro de sobra que pode defender com as mãos. O libero que desarma como quinto zagueiro. O dono da área que sabe o tempo da bola e do jogo. O cara que nem precisa de tantos zagueiros bons à frente. Basta um Hummels – e um Boateng muito bem na Copa. Basta um Lahm na direita. Ou em todos os lugares em todos os momentos.

Mas sobra, isso sim, enorme qualidade à frente. Na cabeça da área pensante e passante de bola como Schweinsteiger. Imperial hub de distribuição de força. Panzer que faz todos os verbos de um jogo. Colosso que mais correu e mais jogou na decisão no Maracanã.

Nesse triângulo do 4-3-3 alemão, à frente do bastião Schweinsteiger, pela direita, e sempre muito à frente, o todocampista Khedira. Não há volante que chegue tanto à área alheia como ele. À esquerda, e por vezes por dentro, Kroos. Outro meia que pode ser volante. Outro que mais cerca que marca e que pode armar o jogo desarmando mais à frente como fazem os três atacantes de Low. Trinca que pode ter apenas um atacante e dois meias. Ou mesmo três meias que atacam sempre.

Sem a bola, são 11 zagueiros. Até Neuer vira o último deles. Com a bola, e sendo chamado a participar do jogo o goleiro, todos atacam. Ou podem atacar. Sabem como. E quando.

Melhor: todos passam a bola. Todos ficam com ela. Todos jogam. E, ao ficar com ela, não deixam o rival jogar. Não precisam marcar individualmente. Todos marcam coletivamente. É isso.

É a Alemanha. Era um time que não jogava assim. Com jogadores que não sabiam jogar assim. Aprenderam. Foram ensinados. E agora dão aula.

Quem é o melhor do time? Todos. Quem é o pior? Ninguém.

Em 2014, a Colômbia tinha Rodríguez, o Brasil não tinha mais Neymar, a Holanda tinha Robben, a Argentina tinha Messi, e a Alemanha tinha um time.

Uma equipe que passa também pelo Pep Guardiola que dá guarida no Bayern. Pelo dinheiro que jorra no clube cujo presidente foi preso por sonegação fiscal. Pessoa física fraudulenta, mas instituição jurídica sólida e cada vez mais hegemônica. Não é o ideal para a competitividade da Bundesliga. Mas o mega Bayern deu ainda mais liga para a máquina tetracampeã mundial.

Time e jogo que podem ser emulados sim em canchas braseiras que por vezes imolam e amolam algumas mulas de chancas. Futebol que pode se depreender, aprender. Ou mesmo reaprender. Já jogamos assim, com a bola que era nossa como os canecos. Já ensinamos o que agora esquecemos.

O próprio Parreira, embora nem sempre tenha conseguido em seus times, é dos maiores defensores da tese de que o melhor modo de não deixar um adversário jogar é não o deixar ficar com a bola. Ele sempre tentou incutir isso nas equipes. Nem sempre conseguiu. Mas a ideia é essa da Alemanha. O tiki-taka do Barça. O tal kurtzpassspiel. O tikitaken teutônico.

Ficar com a bola. Não dar pelota ao rival. Nem às críticas. Fazer o seu jogo. No caso brasileiro, refazer o nosso jogo.

A hora é agora. Para não dizer que já passou dela. A Alemanha virou Brasil – e não apenas em post do Podolski. E o Brasil virou o quê?

Vamos revirar o jogo. O nosso jogo.