Mais do mesmo*

Leia o post original por Antero Greco

Muita gente ficou surpresa – até indignada – com o anúncio de Gilmar Rinaldi para o cargo de coordenador de seleções. O tom dos comentários na mídia e em redes sociais, logo após a entrevista de José Maria Marin, no final da manhã de ontem, oscilou entre a indignação e a desconfiança. Esperava-se nome de impacto para função tão delicada, e não o de ex-goleiro e, pelo menos até a quarta-feira, representante de jogadores.

Pois, sem ser esnobe, não me abalou nem chocou a opção da CBF. A escolha de Marin e de Del Nero, o sucessor que só toma posse em 2015 mas anda pra cima e pra baixo com o presidente, é coerente e tem lógica. Reconfirma o perfil administrativo e filosófico (ops!) da cúpula do futebol brasileiro. E a falta de tato, de feeling – pra ficar em expressão mais fina – da dupla.

A alternativa encontrada para iniciar o processo de reconstrução canarinha foi, no mínimo, desajeitada. O momento requeria alguém com forte aceitação popular e com alguma experiência na área. Especulou-se, ou imaginou-se, a contratação de personagem do calibre de Falcão, Zico, Júnior, Raí, Leonardo, Zinho. Qualquer um deles atuaria, neste momento, como apaziguador da opinião pública. Seria crédito e escudo para os cartolas desgastados.

Não é o caso de Gilmar. Antes de mais nada, e que fique bem claro, não se trata de julgamento pessoal, de preconceito, prevenção, cisma e quetais. A lembrança que guardo dele, dos tempos de atleta e mesmo do início da carreira de agente, é positiva. Polidez nunca lhe faltou. Ainda bem.

Tampouco coloco em primeiro plano a função que tinha até o meio da semana e da qual, garante, se desligou para evitar choque de interesses. Digamos que, por princípio, se dá crédito à veracidade da informação oficial. Mas Gilmar sabe que terá dificuldade para desvincular a imagem de empresário do trabalho de coordenador técnico. Terá de conviver com a sombra, sobretudo ao soltar listas de convocações.

O entrave está no fato de que Gilmar há tempo não atua diretamente com o futebol – seja como cartola, comentarista ou técnico. Não está nas frentes de batalha, com olhar crítico. O negócio dele era ajustar carreiras, discutir contratos, definir agendas dos clientes, tratar com os patrões, com patrocinadores. Eventualmente dar explicações para a imprensa sobre o futuro deste ou daquele profissional.

De uma hora para outra, salta de lado do balcão para descascar abacaxi espinhoso. Para azedar o fruto, a conversa, na coletiva no Rio, não esparramou entusiasmo. O lugar-comum pautou o encontro. Marin choveu no molhado, pra variar. Como não se desvencilha dos cacoetes de político, falou, respondeu, tergiversou e não disse nada. Del Nero, ao lado, referendou tudo.

Gilmar também apelou para frases feitas e deu ênfase ao coletivo. Ao contrário de Gallo, responsável pelas categorias de base, que ressaltou a busca pelo talento individual. Já há aí um ponto a ser afinado em conjunto.

O novo dirigente da CBF fechou portas para treinador de fora, e assim nega a possibilidade de se tentar algo diferente, ousado, com o que carrega de perspectivas e riscos. Da mesma forma, mandou recado para quem assumir o time principal: deverá ter como referência o que faz Gallo. Alto lá: sintonia é desejável, mas o [ITALIC]professor[/ITALIC] da equipe nacional hierarquicamente está acima. Sei não…

Está com cara de mais do mesmo. Haverá um técnico – Tite, Muricy ou um terceiro menos cogitado –, que chegará com a tarefa de montar time para Copa América e Eliminatórias. Manterá boa parte do que fez Felipão, com novidades, para marcar território, e pedirá união geral. O Brasil se classificará para o Mundial da Rússia – com folga ou no sufoco, pouco importa, mas estará lá. E tudo continuará como sempre.

Como escrevi na crônica de anteontem, não se espere guinada em campo, se fora dele a mentalidade permanecer enferrujada. E, com a turma que está no poder, pode tirar o cavalo da chuva, que ele se resfria.

*(Minha crônica publicada no Estado de hoje, sexta-feira, dia  18/7/2014.)