Amor de Palmeiras para filhos. Retratos de família

Leia o post original por Mauro Beting

 

Só estou escrevendo estas linhas por ser Palmeiras. Só sou jornalista por ser palmeirense. Só sou gente por ser Verdão. Amor de mãe e pai que me fizeram Palestra. Logo, gente.

 

Família que retrato neste álbum.

No texto que conta um pouco do muito que são cem anos de vida. 100 de Palestra. 72 de Palmeiras. 47 de Mauro. 24 de jornalismo esportivo. 15 de Luca. 12 de Gabriel. 2 com a Silvana. 1 só Palmeiras.

O amor.

 

Família palestrina como tantas. Com um patriarca palmeirense como poucos.

Homenagem da turma do Dissidenti ao pai palmeirense.

Palmeiras agradecendo aos Beting (e Zioni, Ramenzoni, Oliveira, Weissman…) por algo que não tem preço. Como o Palmeiras.

 

Os netos de Joelmir celebrando com o Matador em 12 de junho.

 

O Palmeiras que não escolhemos. O Palmeiras que acolhe meus Gabriel e Luca.

 

 

 

Meu pai tinha uma frase escrita no vestiário do Palmeiras.

 

 

Saguão do vestiário do Palestra Italia, de 2008 a 2010.

 

 

Por ser filho de quem sou, pai de quem sou, marido de quem sou, primo e amigo de tantos que são como eu, sou um dos embaixadores do centenário ao lado dos ídolos e amigos Dudu e Ademir, e dos meus autobiografados Evair e Marcos.

Autógrafo de Marcos no livro que escrevi por ele, em agosto de 2012.

 

Apresento banquetes do Palmeiras, eventos, festas de títulos, camisas. Fiz texto para chuteiras, campanhas publicitárias do clube e patrocinadores. Fiz vídeo para motivar o elenco antes de partida. Escrevi sete livros a respeito da minha paixão de útero. O livro da história oficial do centenário é meu. As histórias são todas nossas.

Campanha da Adidas, 2013. Sou o da esquerda.

 

Sou roteirista e diretor da trilogia oficial de filmes do Palmeiras.

 

Jaime Queiroz (diretor e roteirista), Ademir da Guia, Dudu e o outro roteirista e diretor de 12 DE JUNHO DE 1993 – O DIA DA PAIXÃO PALMEIRENSE.

 

Devo minha carreira ao Verdão que jamais deve nada a ninguém. É credor de confiança plena. Amor incondicional de pai para filho para netos e não para jamais.

Mesmo quando as pernas do meu Babbo fraquejaram no Dia dos Pais de 2012. A última vez que meu pai passeou com meus filhos. Ele já estava sentindo sintomas da doença que o levaria três meses depois. Mas ainda assim trocou a final olímpica do Brasil x México no futebol em Londres para ver o que é muito mais importante do que vencer ou competir: o nosso amor de Nonno para os netos. De Babbo para o filho. De Palmeiras para a famiglia.

Martin, Gabriel, Thomas e Luca Beting, os netos da Nonna Lucila. Palestra Italia, março de 2010

 

O alemão Beting levou os netos Luca e Gabriel pelas mãos para visitar as obras do Palestra Italia naquele sábado ensolarado de agosto de 2012. Dia do Pendura na Faculdade de Direito. Dia de não pagar conta em restaurante. Dia impagável no Stadium Palestra Italia. Ele ganhou esse nome três anos antes de meu pai nascer. O avô Joelmir veio ao mundo no 1936 em que o Palestra foi 100% no Paulista. A avó Lucila é do ano em que o Palestra morreu líder e o Palmeiras nasceu campeão paulista de 1942.

Nonno que foi Babbo pela primeira vez do mano Gianfranco em 1964. Quando o Jardim Suspenso foi inaugurado, em setembro. Dez anos antes de ele e a guerreira da minha mãe nos levarem pela primeira vez ao estádio. Na temporada do título de 1974 contra o Corinthians.

Em 2012, um mês antes da nossa visita de Dia dos Pais, meu pai celebrou pela TV com meus filhos a Copa do Brasil. Na madrugada seguinte, estávamos nas ruas paulistanas e, depois, na Academia para eu apresentar a festa do título no gramado, com todo o elenco. O último campeonato que meu pai viu. Ele já não via muita coisa quando o Palmeiras caiu dez dias antes de ele subir, em 29 de novembro daquele ano.

No último passeio com os netos, na véspera do Dia dos Pais de 2012, meu Babbo foi ao vestiário onde estava escrita desde 2008 a frase famosa dele.

Joelmir descendo as escadas para ver o que havia falado a respeito do amor incondicional. O Palmeiras.

 

A frase estampada pelos atletas do Palmeiras no jogo seguinte depois do passamento dele, no começo de dezembro de 2012. O time todo com a camisa verde feita pela Adidas com o pensamento escrito no peito, com o número 10 nas costas, e o nome Joelmir nos ombros.

Time do Palmeiras entrando em campo com camisa e faixa em homenagem a meu pai, dois dias depois, na Vila Belmiro.

Aqueles arqueados ombros que em 20 de fevereiro de 1974 me carregaram na conquista do Brasileiro de 1973, no Morumbi, contra o São Paulo.

A única conquista que vimos juntos no estádio. Nas demais, ou ele estava trabalhando na TV falando de Economia, ou eu, na rádio ou na televisão, tagarelando Palmeiras.

Juntos, mesmo, no estádio, só o primeiro título. O bi brasileiro de 1973.

Juntos, no nosso estádio, a última vez com meus filhos e meu pai foi naquele sábado, 11 de agosto de 2012, a convite da WTorre.

Vimos os novos prédios. As arquibancadas que subiam. O clube rejuvenescido. E meu pai também. Ainda mais quando subiu com alguma dificuldade as escadas do vestiário para o campo. Quando por instantes voltou a ser garoto naquele corpo fraquejado pela doença. O menino de Tambaú que só pelo rádio ouvia as epopeias palestrinas na Pompeia, Pacaembu e outros campos de Piratininga.

Meu pai recolheu algumas pedras pelo chão do campo. Ganhou outras das arquibancadas despedaçadas de um dos responsáveis da obra. Guardou nos bolsos pedaços da história da casa alviverde.

Ali dentro onde um dia jogou o time que mais venceu no país que mais venceu no mundo no século XX, meu pai não conseguia reconhecer o velho estádio, nem mesmo as marcas do gramado e do tempo. Mas ele, como qualquer um, se sentia muito próximo de cada canto do campo. Era o nosso lar. Dele. Meu. Dos meus filhos. Dos netos dele.

Fez questão de se juntar aos meninos para as fotos.

Gabriel, Nonno Joelmir, Luca. O último Dia dos Pais. O último passeio

Gabriel, Nonno Joelmir, Luca. O último Dia dos Pais. O último passeio.

Uma delas posando para onde estava a meta do pênalti da Libertadores de 1999 ao fundo. Outra foto com a meta do gol de Arce, na Mercosul de 1998. Quando ele fez uma palestra para os atletas horas antes da decisão, a pedido de Felipão. Não como um especialista palestrante de economia, mas como mais um especial palestrino. Quando o Felipão e o elenco deram a ele e a mim esse uniforme de bebê autografado para o meu Luca, que nem tinha três meses em 1998. E que desde então é também do Thomas, do Gabriel, do Martin, do Vítor, do Renato, do Enrico, da Luna, da Isabel, da Manoela, do Theo, de todos da nossa família que ainda virão e viverão o nosso amor.

Macacão campeão da Mercosul de 1998

 

Mais algumas fotos com as arquibancadas ao fundo, onde a família tanto já cornetou. Outras com as numeradas no segundo plano, onde vimos pela primeira vez aquele empate por 2 a 2 com o Saad. Também em um sábado. Também era agosto. Era 1974. Quase 20 anos antes de eu começar a comentar futebol onde eu cornetava Palmeiras.

Netos e avô pela última vez no gramado do Palestra. A nossa casa

Netos e avô pela última vez no gramado do Palestra. A nossa casa.

Foi naquela arquibancada, numa terça-feira de 2003, quando ele levou o Luca pela primeira vez ao estádio.

Foi um pouco mais para a esquerda, num sábado, quando ele estreou o Gabriel, em 2007.

No mesmo ano em que o afilhado, padrinho, primo, irmão Erich e Luca bateram bola com a nova camisa no velho gramado.

Primo-sobrinho-padrinho-afilhado na apresentação da nova camisa, em 2007

 

 

Foi naquele lar em reconstrução que meu pai, meus filhos e eu começamos a nos despedir, sem saber, no Dia dos Pais de 2012.

 

 

Dois meses antes eu havia me separado. Meus filhos estavam morando com a mãe deles. Eu estava namorando com a minha palmeirense de olhos e corações verdes, do tamanho do amor que temos pelo Palmeiras. Minha Sil, meu sol.

Nossas casas estavam em reconstrução.

O amor era o mesmo.

Enquanto eu tirava essas fotos, contava dias e horas imaginando nós de volta ao estádio reformado. Reinaugurado. Reinado palmeirense.

Mas sentia que talvez demorasse um pouco mais para ficar pronto.

E foi mesmo a eternidade.

 

Na saída da visita, meu pai teve de usar uma cadeira de rodas. A doença autoimune atacava músculos e rins. Ele não conseguia mais andar naquela manhã.

Meu pai deixara todas as energias na última cancha. Todo o amor na terra palestrina. Parecia o nosso time em jornadas épicas. Era a última partida. Ali não tinha grama. Apenas obra. Ali só tinha história. Amor. Pai. Filho. Neto. Família. Palmeiras.

Superação.

Meu pai mal conseguiu entrar no carro de tanto cansaço. Fiquei assustado com a condição dele. Nunca o havia visto tão fraco. Jamais imaginei que meu pai pudesse faltar. Falhar jamais! Amor não falha quando não falta. Aprendi isso com meus pais e também com o nosso time.

Recusava a ideia de ele estar doente. Meu pai não ficava doente! Era uma gripe. Algum remédio mal tomado. Não seria nada.

Foi tudo.

Eu não queria acreditar. Meu pai estava caindo. Parecia nosso time que, ao final daquele ano…

É.

Foi.

Só mais uma vez meu pai saiu de casa sem ser para trabalhar ou ir para o hospital de onde não voltou mais: foi na terça-feira seguinte à visita de Dia dos Pais ao Palestra.

Quando ele não conseguiu me abraçar no lançamento do livro de Marcos. Ele e minha mãe ficaram presos na entrada da livraria quando não saía ninguém e não entrava ninguém. Onde não tinha cabimento para tanta paixão.

Mais  de 8 mil pessoas no maior lançamento de livro até então no Brasil.

Mais de 8 mil pessoas no maior lançamento de livro até então no Brasil. NUNCA FUI SANTO. A autobiografia de Marcos

 

Não vi meus pais naquela noite de agosto. Mas sabia que eles estavam lá. As pessoas me diziam. A vida deles sempre me ensinou. Eles estão comigo. Sempre. Minha mãe. Meu pai. Meus filhos. Minha mulher. O nosso time sempre joga junto.

Sempre.

Manoela, Silvana e um dos autores de EVAIR: 12 DE JUNHO DE 1993 – O FIM DO JEJUM E O INÍCIO DA LENDA

 

Bem ou mal, na saúde ou na doença, na vitória ou na derrota, no Palmeiras e no Palestra.

Obrigado por estarem comigo.

Obrigado por serem palmeirenses.

 

 

Não importa a data. A hora. O local. O motivo. A emoção. É família. É Palmeiras.

 

“Explicar a emoção de…”

 

Meu pai já falou quase tudo a respeito do nosso tudo. De todos nós.

 

 

Explicar, Babbo e Mamma, tudo que vocês me deram, a começar pelo Palmeiras, é o jeito de celebrar o aniversário de tudo isso que vivemos.

São 100 anos de um beijo da minha mãe, um cafuné do meu pai.

Como se fossem 100 anos de todos os dias em que meu mais velho filho Luca enxugou minha lágrima no Dia dos Pais de 2002, dez anos antes do meu último com o meu Babbo, e o Nonno deles.

Como se fossem 100 anos daqueles abraços de boa noite do meu caçula Gabriel.

Como se fossem 100 anos daquele olhar e sorriso e beijo da minha mulher Silvana.

2014. Com a minha Silvana, O primeiro jogo em que vesti a nossa camisa em um estádio desde que virei jornalista esportivo, em 1990.

 

Centenário do Palmeiras é mais que Leão, Eurico, Luís Pereira, Alfredo, Zeca, Dudu, Ademir, Edu, Leivinha, César e Nei. Rima que é seleção.

100 anos de Palestra é mais que Heitor, Bianco, Junqueira, Romeu, Lima, Oberdan, Fiúme, Og Moreira, Aquiles, Jair, Rodrigues, Carabina, Mazola, Geraldo Scotto, Julinho, Chinesinho, Valdir, Djalma Santos, Servílio, Djalma Dias, Tupãzinho, Jorge Mendonça, Pedrinho, Jorginho, Vagner Bacharel, Velloso, Evair, César Sampaio, Marcos, Zinho, Mazinho, Antonio Carlos, Edmundo, Roberto Carlos, Cléber, Rivaldo, Júnior, Alex, Arce, Oséas, Paulo Nunes, outros tantos nomes próprios de nossa paixão comum.

 

O anjo-guardião do meu anjo Gabriel e do meu nem sempre santo Luca

 

 

Academias dos Guias de futebol. Do Divino ao Santo, do Maluco ao Animal.

 

 

Em nome do Pai da Bola Fiúme, do Filho do Divino Ademir, e do espírito de São Marcos, amém.

 

Cem anos é Calabar. Alemão. Gra. Dadá. Kiko. Bruno. Ulisses. Dora. Tarcila. Raquel. Patricia. Vla. Cleber. Jura. Leo. Cid. Jurluci. Chico. Todos meus primos, tios e sobrinhos que são irmãos de fé. Braga. Cecchini. Sapo. Zuccari. Todos os meus amigos que são parceiros de credo verde.

Mais que cem anos era a Vó Albertina, a maior palmeirista. Nonna Ina alemã mais italiana que conheci. Quase tanto quanto a Itália Roma. Nome da outra avó. Juro pela Lu, Pepi, Dedé e Sil. E até pela Bibi, que virou casaca quando casada e se tornou ovelha alvinegra.

Centenário é abrir o coração e a casa para todos. É fazer de um relato de fotos o retrato de nossa fé. Torcer é a mais individual e egoísta ação coletiva que existe. Mandar a minha mãe ficar passando por anos à frente da TV para sair um gol pro nosso time não é acreditar em superstição. É achar que a culpa é dela se não saía o gol na fila. É ter certeza que ela era artilheira quando dava certo. Torcer é isso. É achar que realmente somos campeões. Todos nós e cada um bateu o pênalti com Evair, defendeu pênalti com Marcos, passou como Ademir, suou como Dudu.

Somos milhões de histórias em cem anos não de glórias. É muito mais que isso. São 100 anos de todas as nossas vidas.

Centenário é mais que abraçar um desconhecido no gol como se fosse irmão. É abraçar o irmão como se fosse a própria alma. É ser abraçado pelo filho e perder mais que o fôlego. É ser beijado pela mulher e extasiar.

É… Palmeiras!

Não apenas uma história de amor – a maior delas. Não apenas uma história de família – a maior delas. É tudo junto e misturado.

O meu Palmeiras é o seu. A sua família. A minha história de Palmeiras e de família é como a sua. Nem maior, nem menor. É Palmeiras. Basta.

Meu pai e as estátuas: Ademir, Waldemar, Oberdan, em festa do título de 1996

 

Por isso o centenário é de todos os palmeirenses, do Alviverde inteiro. A minha história não se confunde com a do clube que o Palmeiras não confunde ninguém, por mais palestrino que seja. Mas a história do nosso clube é a de muitas famílias que, por vezes, só são mesmo unidas na frente da TV, do lado do rádio, na arquibancada do Palestra, em algum muro de lamentação, em alguma alameda de alegria. Em um longo álbum de retratos de uma vida. De todas elas.

Evair abençoando Claudio, Evair, Joelmir, Zinho, Luca e Gabriel. A classe de 1993

 

 

 

Ser palmeirense é ser. Não ser palmeirense é não ser.

 

 

Cem anos é mais que ter vivido todos os jogos que não vimos. É olhar para o filho que chora um jogo derrotado ou a partida de um ídolo perdido e dizer tudo sem falar nada. É olhar e não precisar dizer nada. Está tudo dito. Feito. Vencido por viver Palmeiras.

Cem anos é mais que uma vida. São todas elas juntas por nossa vida.

 

Os dois caras que melhor me defenderam em 47 anos.

 

100 anos é mais que a primeira camisa.

 

A minha mais antiga que guardei. 1977. Com o distintivo bordado pela minha mãe

 

Cem anos e todos os próximos dias com uma só camisa.

Única pele. É verde. É branca. É alviverde.

É ali. É lá. É verde para crer. É viver por verde.

 

100 anos é muito título do campeão do século. É decepção em toda divisão. É muito empate. É muito amor.

 

É um sábado de sol com a família como se fosse a última vez.

É a última vez como se fosse eterna.

É o amor à primeira visita do novo estádio.

É o amor à primeira vista como o meu.

É o amor.

Não se explica.

É.

É o amor.

É o Palmeiras.