Ação entre amigos*

Leia o post original por Antero Greco

Caro amigo que está a folhear o jornal de domingo preguiçosamente (bom, né), enquanto beberica um café, me responda com sinceridade: você acredita que o futebol brasileiro esteja no limiar de nova era? Acha que a sova de 7 a 1 sofrida diante da Alemanha servirá de marco para guinada, revolução, mudança de valores e de métodos? Imagina que se prepara algo de profundo, de intenso, para resgatar a autoestima de país cinco vezes campeão do mundo e que está mais por baixo do que sonda de petróleo?

Seja franco, não esconda nada, aposte na sensibilidade. Como?! Fica com um pé atrás? Anda cismado? Eu também. Por mais que tente afastar a sombra da prevenção, por mais que rejeite ideias preconcebidas, por mais que me esforce para dar um bico no ceticismo, não consigo botar fé em reestruturação da bolinha daqui. Pelo menos não com a turma que aí está.

O desânimo não é manifestação de baixo-astral gratuito, vem de fora pra dentro. Olhe para a dupla que comanda a CBF e veja se lhe passa a esperança de que parta dela projeto arrojado. Analise, se puder, o conteúdo de declarações e observações do atual e do futuro presidente nestes dias de crise. Esprema o festival de lugares-comuns e confira se resta algo de consistente.

A CBF tratou de mostrar agilidade e, menos de uma semana após o encerramento da Copa, apresenta a solução para todos os males. De que maneira? Ao chamar para coordenador geral de seleções um ex-goleiro, que há quase 15 anos atua essencialmente como agente de jogadores. Gilmar Rinaldi desembarca como incógnita na função.

Mal chegou, e a novidade que paira no ar é… eventual retorno de Dunga. Eis o pontapé inicial para a modernidade. A saída para o beco em que se meteu o Brasil futebolístico estaria na reconvocação de técnico que obteve resultados normais, em quatro anos à frente da equipe, e viu ruir uma seleção, também com nervos à flor da pele, nas quartas de final do Mundial de 2010. Falou-se tanto do choro dos moços de Felipão e se esqueceu de que o rigor militar imposto ao grupo que foi à África, enclausurado o tempo todo e a ver inimigos no rosto de cada repórter, contou muito nos 2 a 1 pra Holanda.

Dunga sintetizou a falta de rumo em que se encontrava a CBF, em 2006, depois do fiasco na Copa da Alemanha. O então todo-poderoso presidente quis apagar a imagem de bagunça em torno daquele grupo e apelou para treinador com perfil duro, tipo sargentão. Deu no que deu. Após a Copa de 2010, preferiu o estilo mais leve de Mano Menezes. Depois, com a ascensão da dupla Marin/Del Nero, se apelou para o paizão Felipão, a meio caminho entre o rigor de Dunga e o low profile de Mano. A experiência teve o fim que sabemos.

A tendência é recorrer de novo para linha-dura. Daí desponta o nome de Dunga como ideal. Porque é disciplinador, foi capitão do tetra, parceiro de Gilmar, etc e tal. Bem a cara da CBF. Ok, fora o fato de que a contratação de técnico para a seleção não deveria jamais ser ação entre amigos, importa saber qual contribuição ele trará para colocar a seleção de novo no nível, alto, de grandes rivais.

Vale questionar o que houve com a carreira de Dunga de 2010 até hoje. Fora longo período sabático que tirou para cuidar de questões familiares, e de um ou outro bico como comentarista esportivo (ex-boleiros à espera de trabalho no esporte gostam de brincar de jornalistas, categoria que muitos deles abominam), dirigiu o Internacional por algum tempo, sem deixar lastro. Seria, portanto, o nome adequado para um projeto de reconstrução? Não sei, embora logo devam aparecer adesistas a saudar qualquer solução da CBF, na base do Hay gobierno, soy a favor.

Bom, tanto faz Dunga, Tite, Muricy ou outro. Espera-se do próximo treinador que consiga vitórias. Que o Brasil tenha boa Copa América, que nas Eliminatórias garanta vaga para o Mundial. E, se Deus quiser, bom papel na Rússia em 18. Não se cobrará a bandeira da reviravolta, pois não é isso que se deseja.

*(Minha crônica publicada no Estado de hoje, domingo, dia 20/7/2014.)