Amizade de Dunga e Gilmar Rinaldi dura mais de 30 anos

Leia o post original por blogdoboleiro

Abril de 2009. Numa atitude inédita, a CBF publicou no site oficial uma nota em que desmentia o envolvimento do atacante Adriano em um tiroteio numa favela do Rio de Janeiro, o que aliviou a preocupação da Internazionale de Milão, na época equipe do jogador.

No dia 7, o Blog do Boleiro contou como a Confederação decidiu publicar o desmentido. A assessoria de imprensa atendeu a um pedido do então técnico da seeção, Dunga. Este, por sua vez, atendeu ao apelo do amigo e então empresário Gilmar Rinaldi.

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No domingo, o empresário do atleta, o ex-goleiro Gilmar Rinaldi, conversou com Dunga, de quem é amigo desde o tempo em que jogavam juntos no Internacional de Porto Alegre. Explicou que Adriano enfrenta um problema particular, mas que não esteve envolvido em tiroteios em uma favela do Rio de Janeiro. Esta notícia foi veiculada por dois jornais cariocas.

Preocupado com a repercussão dessa informação (que incluía a suspeita de que o jogador tivesse sido ferido), Gilmar pediu ajuda para esclarecer o caso. Dunga telefonou para o assessor de imprensa da CBF, Rodrigo Paiva, e os dois decidiram ajudar.

O site oficial da entidade, publicou – ainda no domingo – este comunicado: “O atacante Adriano, da Seleção Brasileira, está em casa, na companhia de familiares, no Rio de Janeiro. Adriano tem mantido contatos frequentes com o técnico Dunga e com os dirigentes do Internazionale, informando-os sobre o delicado momento pessoal que está vivendo. Diferentemente das versões e boatos que correm – e que não são verdadeiros – reitera-se, portanto, que Adriano está no Rio de Janeiro, com a sua família”.

O fato é raro. O supervisor da seleção brasileira, Américo Faria, lembra que o jogador “quando não está mais convocado, deixa de ser questão da CBF”. Rodrigo Paiva confirma esta posição e justifica a publicação do comunicado como uma forma de “ajudar a imprensa”.

Rinaldi, que esteve com Adriano nesta segunda-feira, diz que a ação de Dunga e Paiva ajudou a encerrar os boatos. De fato, Adriano esteve no complexo do Alemão na noite de sábado para domingo. Não se envolveu em confusão, garante seu empresário, e está em casa tentando resolver questões particulares. “Depois, ele volta à Itália e vamos ter uma reunião com a Inter”, disse

O episódio mostra o valor da amizade entre Dunga e Gilmar Rinaldi. Os dois se conhecem desde a década de 80, quando jogavam juntos no Internacional de Porto Alegre. Eles foram peças fundamentais na seleção brasileira que disputou e ganhou a medalha de prata nos Jogos Olímpicos de Los Angeles em 1984.

Gilmar garantiu vaga na semifinal, defendendo pênaltis numa decisão contra o Canadá. Nos 90 minutos, os dois times empataram em 1 a 1. Gilmar defendeu duas penalidades e o Brasil venceu por 5 a 3. Dunga comandou o meio de campo de um time cuja base era o Internacional. Na época, o volante tinha 21 anos e mostrava a personalidade forte dentro e fora do campo. O Brasil só perdeu na final para a França.

Em 1994, quando os dois amigos disputaram a Copa do Mundo nos Estados Unidos, Dunga, Gilmar e outros atletas montaram um “comando informal” do grupo de atletas, formado por jogadores que tinham passado pelo fracasso de 1990, na Itália. Eles controlavam o comportamento dentro e fora do campo da seleção. Deu certo. O Brasil foi tetracampeão mundial e o técnico Carlos Alberto Parreira sempre deu crédito à colaboração deste “comando”.

De gênios diferentes, Dunga e Gilmar sempre mantiveram a amizade. “Eles são carne e unha”, disse Francisco Noveletto  Neto, presidente da Federação Gaúcha de Futebol, que viu o amigo Dunga “desaparecer” desde o final da semana passada quando tinha dado um “ok” para a Federação Venezuelana de Futebol.

No sábado, dia 12, depois da derrota do Brasil para a Holanda,  Noveletto jantou com Dunga no Rio de Janeiro. “Eu conversei com ele e perguntei se  topava a proposta da Venezuela de dirigir o time por quatro anos. Ele disse que sim, que só faltaria acertar alguns detalhes e avisei o presidente da Federação Venezuelano”, disse Noveletto ao Blog do Boleiro. “Aí ele sumiu”, completou.

O dirigente gaúcho passou a procurar Dunga através de torpedos. Amigos de Noveletto disseram ter visto o treinador em São Paulo no início desta semana. “Na quarta-feira, ele me respondeu escrevendo que estava em São Paulo e voltaria na quinta e me procuraria”, contou. Isto não aconteceu. “E quando o Dunga tem coisa melhor, ele some”, afirmou.

Por isso, Noveletto disse a jornalistas nesta semana que se tivesse dez fichas para apostar, apostaria todas em Dunga como novo técnico da seleção brasileira. Para o dirigente gaúcho, a segunda passagem de Dunga vai exigir dele uma mudança de comportamento: “Ele precisa ter mais jogo de cintura”.

Dunga tem fama de mau. Não é.

Quando assumiu a seleção brasileira em 2006, ele quis terminar com o que ele entendia ser privilégios da TV Globo. Fechou a seleção e limitou o acesso às entrevistas diárias na zona mista (em treinos e depois de jogos) e nas coletivas que dava na Granja Comari e nos locais das partidas. Atuou na direção contrária do que tinha acontecido na preparação do selecionado na Suíça e durante o Mundial na Alemanha.

Na África do Sul, quando dirigiu o time brasileiro na Copa do Mundo de 2010, ele e os atletas concordaram em se fecharem num clube de golfe, sem saídas ou entrevistas fora dos espaços oficiais. Isso causou problemas iniciais e Dunga tinha certeza de que encontrou um inimigo na Globo. Na verdade, não há como dizer isso.

Sob o comando de Dunga, a seleção brasileira adulta venceu a Copa América de 2007 e a Copa das Confederações de 2009, além de conseguir vaga na Copa do Mundo de 2010 com apenas duas derrotas em 18 jogos, terminando em primeiro nas eliminatórias sul americanas. No Mundial da África do Sul, o time brasileiro parou nas quartas de final diante da Holanda (1 x 2). Foi demitido logo em seguida, com a imagem em alta.

Como comandante da seleção olímpica, ele levou o Brasil à medalha de bronze. O time só perdeu na semifinal para a Argentina, de Messi e Di Maria, numa partida disputada em Pequim.

A experiência de Dunga foi positiva: na equipe principal, obteve 76,7% de aproveitamento e na olímpica, este índice sobe para 88,9%.

Se for confirmado na próxima terça-feira, Dunga retoma um caminho que foi cortado depois da África do Sul. O ex-assessor de imprensa da CBF, Rodrigo Paiva, foi um dos conselheiros de Ricardo Teixeira que pediram a demissão do treinador em 2010. Paiva não está mais na Confederação. Jorginho, assistente técnico de Dunga na seleção, poderá ser chamado outra vez.

O trabalho de Dunga foi a de renovar o time. Ele foi criticado por não ter levado os garotos, em 2010, Neymar e Paulo Henrique Ganso. O time do Brasil jogava com um esquema bem definido: bom poder de marcação e saída para contra-ataques. Esta postura seria desejável no jogo contra a Alemanha, na semifinal da Copa do Mundo de 2014.

E se engana quem acha de Dunga não atua em equipe. Todas as decisões que ele tomou dentro e fora de campo foram discutidas e aprovadas pelas comissão técnica, jogadores e, mais importante, pelo próprio Ricardo Teixeira.

Por isso, Gilmar tem argumentos para indicar Dunga como sucessor de Luiz Felipe Scolari, continuando uma sequência de comando gaúcho na seleção brasileira que começou do o ex-volante em 2006 e passou por Mano Menezes e Felipão.

Resta saber se nada mudou até este domingo. A dupla Rinaldi/Verri (sobrenome de Gilmar e Dunga) se encaixa no perfil de campeões mundiais que José Maria Marin (presidente da CBF) e Marco Polo Del Nero (futuro presidente) adotaram quando chamara Felipão e Parreira para sucederem Andrés Sanchez e Mano Menezes.

Afinal, se a CBF chamou uma entrevista coletiva para a terça-feira, às 11 horas, é porque o novo técnico já está escolhido e acertado. O futuro vai dizer se a postura de Dunga com a imprensa, especialmente com a TV Globo, será mais flexível.

Talvez, os amigos Dunga e Gilmar consigam colocar a seleção brasileira na linha, com jogadores da olímpica entrando e com aposta em um esquema tático mais seguro.