De volta à rotina*

Leia o post original por Antero Greco

A Copa foi demais, e deixou o torcedor mal-acostumado – ou aguçou-lhe o nível de exigência. Daí fica um tanto difícil retomar a rotina do Brasileiro sem um quê de decepção. Isso passa, pois as pessoas se adaptam a tudo. Uma semana após o encerramento do Mundial, já se disputaram duas rodadas, sem mudança significativa em relação ao período prévio, aquele de esquentamento. O Cruzeiro mantém liderança folgada, o Fla descarrila e segura a lanterna; São Paulo, Corinthians patinam; o Palmeiras joga como nunca e perde como sempre.

O duelo dos Palestras, disputado no Pacaembu, revelou tendências da competição daqui por diante. O Cruzeiro começou o clássico a todo vapor, como uma Alemanha diante do Brasil. Marcou dois gols em sequência, e parou por aí a comparação com os novos campeões do mundo. Não teve força para bancar o ritmo forte e compensou com boa distribuição dos jogadores, entendimento e autocontrole. Não é por acaso um dos favoritos ao título.

O Palmeiras cumpriu o roteiro de deixar a torcida com os cabelos em pé. Ficou grogue com os gols, parecia pronto para o nocaute e buscou ânimo para reagir. Ainda no primeiro tempo, chegou perto de diminuir, não fosse a pontaria descalibrada de Henrique. A equipe do argentino Gareca encorpou na segunda etapa, fez o gol e pressionou até o último instante. Merecia empate.

Nem tudo foi desperdício. A entrada de Mouche, outro hermano recentemente desembarcado no Parque, deu vigor ao ataque, e pode abreviar o caminho do banco para Leandro. O meio-campo também melhorou com Felipe Menezes no lugar de Eguren, que se machucou antes do intervalo. A defesa expôs fragilidade costumeira, sobretudo nas laterais. Lúcio e Tobio não comprometeram além da conta.

Falta muito para o Palmeiras tornar-se competitivo – e pelo visto passará o centenário em branco. (A não ser que surpreenda na Copa do Brasil, como ocorreu três anos atrás…) Mas se vislumbra progresso, ainda mais se Gareca insistir em colocar o time à frente e não como um bando retrancado.

Gangorra. O Corinthians demora a definir-se. No meio da semana, bateu o Inter, no Itaquerão, com a sensação de que o período de folga lhe fizera bem e aumentaria o apetite ofensivo. Ilusão. No empate por 0 a 0 com o Vitória, em Salvador, foi sonolento, arrastado, burocrático. Só despertou perto do apito final, quando acelerou e apertou, na tentativa de garantir outros três pontos e fazer sombra ao Cruzeiro. Mano até se irritou com as cobranças, após o jogo, para em seguida reconhecer que o time ficou aquém do desejado. Ou seja, volta ao rame-rame de um triunfo aqui, um empate ali,,, e vida que segue.

Pavoroso. O Flamengo se vangloria de jamais ter sido rebaixado. No entanto, faz força danada em 2014 para conhecer o purgatório da Série B. Os 4 a 0 diante do Inter, em Porto Alegre, foram pouco e deram a dimensão do quanto é horroroso o grupo de Ney Franco. A nação rubro-negra terá maus bocados até dezembro.

Ele vem aí. Pelo jeito, a renovação na seleção vem do passado mesmo, com Dunga de volta. O treinador combina com o modelo administrativo da dupla José Maria Marin/Marco Polo Del Nero. Que o Menino Jesus de Praga nos ilumine, amém.

Canelada.  Na crônica de ontem, ao falar da possibilidade de Dunga ser técnico da seleção, escrevi que ex-boleiros gostam de fazer bico como comentaristas, à espera de atividade no esporte. Não é verdade. Diversos ex-jogadores abraçaram o jornalismo como profissão e a enriquecem com a experiência vivida nos gramados. Tostão e Casagrande são exemplos de perseverança na imprensa, assim como outros que não cito aqui, mas que podem sentir-se representados na dupla. Generalizar às vezes é porta para injustiças, como a que cometi, no melhor estilo de caneludo beque de fazenda.

*(Minha crônica publicada no Estado de hoje, segunda-feira, dia 21/7/2014.)