Enquanto isso, na CBF (Confederação Botsuana de Futebol)…

Leia o post original por Mauro Beting

 

O presidente da Confederação Botsuana de Futebol se reúne com seu vice, que em 2015 irá trocar de função com ele, para um primeiro mandato de 17 anos. Eles estão desapontados com o desempenho ruim na última competição em que participaram, quando foram eliminados depois de duas goleadas constrangedoras. Entendem que precisam mudar as coisas. O futebol de Botsuana já não é mais aquele. Falta trabalho de base. Mais força e profissionalismo aos clubes. Um estilo mais próximo da escola do país. A pressão é grande da torcida e da imprensa. As mesmas que há 45 dias apoiavam a seleção nacional sem muitas restrições além das de praxe.

O presidente pergunta ao vice. Ou seria o futuro vice ao futuro presidente – ou vice-versa:

– Que tal um treinador estrangeiro para variar?

– Ele não fala a nossa língua e não entende as nossas tradições!

– Ou a gente não fala a língua dele, né…

– Então, como vamos dialogar em alto nível, debater sobre propostas de jogo…

– Como vamos falar de propostas de jogadores? Tem razão…

– Vamos variar! Renovar o nosso jogo. Trazer alguém com mentalidade vencedora. Moderna!

– Que tal o nosso amigo que ganhou tudo nos últimos anos?

– Não, ele é da patota do nosso muy inimigo…

– Eles só trabalharam juntos. Não significa dizer que…

– Para mim significa. Melhor não.

– Hummm, então quem? A opinião pública está querendo o nosso sangue e a nossa alma, e dos jogadores também.

– Então vamos dar a eles o que nós precisamos.

– Não é o contrário, dar a nós o que eles precisam?

– Não. Vamos colocar alguém que eles não gostam só para que eles detonem ainda mais a nossa seleção.

– Não entendi.

– Vamos colocar um treinador que muita gente não gosta. Torcida, imprensa, donos da mídia, donos dos campeonatos.

– Ainda não entendi.

– Aí toda a crítica fica em cima dele. Se ele ganhar tudo, seremos geniais pela aposta feita nele. Se não der certo, a culpa é dele, que ninguém gosta muito, mesmo com os bons resultados que ele teve.

– Mas quem o colocou na seleção não fomos nós? Como não vai sobrar pra gente?

– Ele é turrão. Muito sério, muito bravo. Vai defender o nosso time com bravura e, claro, também vai nos defender pro tabela. Ele é muito leal. Quando goleia dizem que ganhou de pouco. Quando perde de pouco, dizem que foi de goleada. É um cara com essa coragem que precisamos! Ele ganhou alguma coisa da última vez. Só não venceu a principal competição. Como, aliás, outros campeões também não foram bem…

– Mas ninguém parece que o quer no comando. O pessoal o acha muito ranzinza. Não lembra de grandes partidas do nosso time com ele dirigindo. Eu também não… E não dá para dizer que com ele vamos dar uma” modernizada”, né?

– Eu quero ele! Ele vai nos querer. E quem comanda o futebol sou eu!

– Somos nós.

– Hoje sou eu. Amanhã será você.

– Não. Hoje quem manda sou eu. Amanhã é que será você.

– É… Acho que é isso. Ou não?

– Não sei mais.

– Eu também não. O que pensa o nosso novo gestor?

– Quem?

– O diretor de seleções.

– Coordenador?

– Não. Não é gerente de futebol? Administrador? CEO? Vice-presidente para a América Latina? Manager? Como foi mesmo que bolamos o cargo dele?

– Coordenador de seleções.

– Ele trabalha no RH?

– Não. É ele quem define a comissão técnica. Acho.

– É. Mas não é.

– Ainda não sei se nosso novo amigo é o mais indicado para treinador…

– Eu quero de volta à seleção alguém que vibre com ela, que tenha amor à pátria!

– Mas e o nosso último técnico?

– Sim, mas não deu certo. Agora quero alguém que fale para os atletas que serão nossos soldados que eles devem defender nosso território como se fosse numa guerra pelo nosso país. Ame-o ou deixe-o! Precisamos de um patriota que passe a noção de respeito à hierarquia, de ordem e progresso! Este é um país que vai pra frente, de 90 milhões em ação…

– Mas esse não é o Brasil?

– Não, não, não. Esse é o nosso país!

– Ah, tá…

– E o Brasil, como está, depois da tunda que levaram?

– Não tenho a menor ideia.

– Eu tenho menos ainda.