Dunga avisa que novos talentos precisam mostrar serviço logo

Leia o post original por blogdoboleiro

Quando Gilmar Rinaldi, coordenador de seleções da CBF, falou em “novas relações com a imprensa e com os patrocinadores”, ele abriu o dia com uma novidade que o tempo dirá se vai funcionar sob o comando do técnico Dunga. O espaço que as empresas tiveram na Granja Comary, com ações levando consumidores, sorteados, gerentes premiados etc, vai diminuir. Assim como as “visitas” de apresentadores, MCs e jornalistas da TV Globo.

Dunga está de volta. Não partiu dele estas restrições que o futuro vai confirmar. Mas o novo comandante da seleção brasileira é um cara justo que coloca a seleção brasileira na frente. Vai ser mais difícil, mas desta vez não impossível, vê-lo em participações ao vivo em telejornais nacionais. Talvez mais no início desta trajetória até a Copa do Mundo de 2018. Menos quando o time do Brasil treinar mais.

O Dunga mudou?

Ele diz que fez um “mea culpa” . Mas avisou: “É dificílimo uma pessoa mudar em seus princípios, na sua ética”.

O novo treinador mostrou estar feliz com a volta. Em 2010, depois da eliminação nas quartas de final da Copa do Mundo da África do Sul, ele achava que poderia continuar. Foi demitido. Agora volta, preocupado logo no primeiro discurso em garantir que conversou muito com treinadores como o italiano Arrigo Sacchi, o brasileiro Mozer e o francês Arsène Wenger, discutindo esquemas táticos, analisando as seleções que vieram ao Mundial no Brasil.

Assim, mostrou que cumpre o requisito de intercâmbio com estrangeiros. Ele sabe que precisa mostrar em campo mais do que teorias. Dunga terá disputas pela frente (Copa América e eliminatórias) e quer trazer atletas que desejem jogar pela seleção.

Aliás, Dunga diz já ter um esboço dos primeiros convocados. Explicou que vai mesclar jovens com gente mais experiente. Mas espera trabalho e personalidade para jogar na seleção. “Não vou vender sonho. A realidade é muito trabalho”, falou.

Um fato curioso: ele não quis entrar em detalhes quando fala em contar com talentos. Os tempos andam bicudos para o futebol brasileiro. “Temos talento e qualidade, mas precisamos de organização e planejamento”. Afirmou.

Na entrevista coletiva, Dunga foi o velho Dunga em alguns momentos, deixando no ar frases que o Blog do Boleiro entende serem reveladoras.

JUVENTUDE E ATITUDE

“Não se trata de trazer jogadores por aquilo que eles podem ser daqui 10 a 15 anos, mas sim a curto e médio prazo”

O treinador avisou que vai trabalhar com jovens. Aliás, ele se antecipou a Gilmar Rinaldi e anunciou que Alexandre Gallo vai mesmo dirigir a seleção olímpica, como sempre quis José Maria Marin. Mas Dunga quer jovens com atitude, comprometimento e personalidade.

Ele sempre achou que jogador de seleção mostra serviço logo de cara. Não dá para apostar em promessas, como o meia Diego e Alexandre Pato foram entre 2006 e 2010, que não mostraram personalidade na seleção. Foram descartados com o tempo.

EQUILÍBRIO EMOCIONAL

“Não tem Pelé todo dia. Pelé é um mito que não se cria todo dia. É preciso trabalho duro, equilíbrio emocional. A emoção se passa no momento certo. As crianças tem que entender: a escola é uma coisa. A vida é mais dura e vai nos cobrar sempre”

Dunga foi perguntado se as eliminatórias para a Copa de 2018 seriam difíceis e se o futebol-arte tinha ainda existia. Respondeu sim para as duas e aproveitou a deixa e lembrou que as seleções da Argentina, Uruguai, Colômbia, e Equador melhoraram muito e serão fortes adversários. Ele lembrou do Chile quando disse que esta foi a única seleção que atuou com três atacantes bem enfiados e marcando a saída de bola.

Daí, Dunga reforçou o raciocínio de que não dá mais para comparar o passado com o momento atual do futebol brasileiro. Aqui não se fazem mais craques na quantidade de tempos antigos.

E, por um acaso, esse negócio de chorar antes, durante e depois dos jogos, passa uma imagem ruim para os meninos que vão ser jogadores no futuro. Equilíbrio emocional é bom para se ter cabeça fria durante os jogos e lágrimas nas conquistas.

 

RESPEITO COM A CAMISA

“As outras seleções ainda respeitam a camisa do Brasil. Respeitam tanto que querem ganhar de nós porque sabem a repercussão que isso traz lá fora. Por isso temos que ser  ompetitivos, trabalhar mais e não achar que vai ganhar com a camisa”

Dunga precisou fazer este malabarismo para não dizer, mas insinuar, que acabou o medo da “amarelinha”, sempre apregoado por Mario Zagallo. Depois dos 7 a 1 da Alemanha em cima do Brasil, sobrou a comiseração dos jogadores alemães não tripudiando em cima dos colegas brasileiros. Mas foi um massacre.

Uma das tarefas de Dunga, quando foi chamado por Ricardo Teixeira – então presidente da CBF – era o de resgatar o respeito da seleção brasileira. Primeiro, o time tinha que vencer. Depois os jogadores precisavam querer jogar pelo Brasil. E terceiro: o time deixou de fazer parte de um circo popular e de mídia até 2010.

O VELHO DUNGA

“Ele é bonito e por isso tenho que olhar pra ele?”

A brincadeira dirigida ao repórter Silvio Barsetti, do Estado de S. Paulo, remonta ao passado. Silvio ficava pedindo para Dunga olhar à direita, na direção dele. Afinal, os dois já travaram bons embates em entrevistas coletivas porque o jornalista nunca amaciou e sempre buscou esclarecer fatos que tinham relevância e eram incômodos.

Desta vez, Dunga teve que responder o que ele achava do fato de ter alta rejeição (até 80%) em pesquisas feitas por jornais e sites sobre a escolha dele para sucessor de Felipão. O técnico disse que no caminho até o Rio e mesmo quando sai de casa em Porto Alegre, é bem tratado. Mas admitiu: “Vou buscar força e energia nestes 20% que me apoiam para convencer os outros 80 por cento. Se o índice de aproveitamento que tive de 76% na outra passagem pela seleção não foi o suficiente…”

LEITURA DE JOGO

“Parece que o Mundo descobriu a Alemanha. Eles sempre foram organizados. Quando joguei lá, os centros de treinamento para jovens já funcionavam, eles têm planejamento. Sempre foram assim. Mas tiveram uma geração de jogadores ótimos, deu-se tempo e hoje é a grande vencedora”.

A pergunta feita por uma jornalista alemã, em busca de novos elogios ao time campeão do mundo, proporcionou a Dunga um novo recado: jogador de seleção precisa saber entender o jogo em campo. O Blog do Boleiro arrisca dizer que este foi o principal problema da seleção brasileira na Copa do Mundo: falta de atletas que pudessem mudar os jogos dentro de campo. Ou não foi possível parar o jogo contra a Alemanha, quando já estava 3 a 0, para mandar a equipe proteger a própria área e esfriar aos alemães?

Dunga disse que a Alemanha jogou um “futebol total”, expressão como é defendida pelo técnico italiano Arrigo Sacchi. Todo mundo colabora em campo e entende o que pode fazer de melhor nas diferentes situações. “O Müller é atacante e artilheiro, mas vinha marcar. Robben e o (Jaime) Gonzales também”, citou na entrevista desta terça-feira.

Afinal, um pouco de inteligência em campo não faz mal a ninguém.

TRATO COM A IMPRENSA

“As conversas com os jornalistas terão que ser como esta aqui, com todo mundo ouvindo e participando. As pessoas têm que saber o que for em favor da seleção, e não for vantagens individuis para A, B ou C. Não vou mudar minha essência. Tudo o que for planejado, no papel, vai ter seu espaço”.

Na verdade, o Blog do Boleiro juntou duas falas para um só tema: os jornalistas quiseram saber se o Dunga “mea culpa” iria mudar o relacionamento com a imprensa e, mais especificamente, com TV Globo. A julgar pelas palavras, Dunga deve manter o regime de entrevistas coletivas. E não adianta pedir à noite para que libere atletas para julgarem lances bizarros num programa de tevê.

Dunga cobrou mais “fair play” ( a expressão é do Blog) dos jornalistas ao lembrar como a Alemanha podia liberar os jogadores para passeios sem que eles fossem assediados por perguntas, microfones e abordagens diretas. “Ficava estabelecido que a entrevista era depois do almoço e pronto”, afirmou.