Um museu de grandes novidades

Leia o post original por Mauricio Noriega

Batuco essas linhas cerca de uma hora antes de Dunga, pelo que afirma o noticiário, ser reconduzido oficialmente ao cargo de treinador da seleção brasileira de futebol.

Algo como embarcar no De Lorean de Doc Brown e voltar no tempo até 2007. Um ano depois da desastrosa participação brasileira na Copa da Alemanha, quando o quarteto mágico se desfez em meio à adiposidade de alguns de seus integrantes.

A CBF, então presidida por Ricardo Teixeira, entendeu que para consertar o erro dela mesma, que autorizara um clima de convescote na preparação, o correto seria chamar um bedel e colocar a casa em ordem. Dunga, soldado fiel dos princípios da CBF, atendeu ao chamado prontamente.

Como parece ter atendido novamente. Tenho a impressão de que Dunga foi procurado antes de Gilmar Rinaldi. Para fazer parte do museu de grandes novidades, com a licença da citação de Cazuza, comandado agora por José Maria Marin, ele próprio uma peça de museu, de um tempo abominável.

Sobre Dunga pouco tenho a dizer. Tive raríssimos contatos com ele, quando eu era repórter e ele jogador. Também foram raras as ocasiões em que participei de entrevistas com ele quando assumiu a seleção no cargo de treinador.

Não nutro por ele simpatia pessoal, o que pouco interfere em meu trabalho, já que não avalio pessoas, avalio o trabalho das pessoas como dirigentes, treinadores, jogadores.
Tenho raríssimos amigos entre jogadores, dirigentes e treinadores. Não somam os dedos de uma mão.

Vejo o esporte de um modo que vai além da frieza dos números e das estatísticas. Discordo de quem acha que Dunga fez um bom trabalho à frente da seleção. Foi razoável. Um bom trabalho sobrevive ao resultado. Dunga é um escravo do resultado. Assim como se ufana com as vitórias, se enterra com as derrotas. Sua visão não vai além do ganhou presta, perdeu não presta. Ele se impõe essa realidade com seu comportamento e avaliação.

A pergunta que me fiz assim que o Brasil perdeu para a Holanda em Porto Elizabeth, em 2010, foi a seguinte: fica alguma coisa do que ele fez? O sucessor aproveitará algo?

A sequência dos fatos me faz crer que pouco ou nada se aproveitou.

Veio Mano Menezes, a quem faltou coragem de tocar uma renovação mais firme na Copa América de 2011. Apelou a desinteressados remanescentes de 2010, preocupado com o resultado e não com um rumo.

A Copa América é muito importante, mas vencê-la não quer dizer nada em termos de Copa do Mundo. Assim como a Copa das Confederações. Vencer essas competições não pode cegar quem as vence. É preciso sabedoria para, mesmo ganhando, reconhecer defeitos e não amplificar virtudes.

O grande equívoco de Dunga, penso eu, foi ter acreditado que por vencer ele estava completamente certo. Faltou a ele, que vende uma imagem de liderança, uma qualidade essencial aos grandes líderes: observação.

Dunga tem razão ao não gostar da mídia, ou de parte dela, que usou seu apelido para carimbar um fracasso da seleção brasileira, o de 1990.

Digo parte dela porque Dunga pensa no micro para atirar no macro. Para atingir pessoas com as quais tem diferenças, cria animosidade com empresas ou setores de certas cidades da mídia.

Muita bobagem se escreveu e se divulgou sobre seus problemas com a mídia.

A desinformação é responsável por muito prejuízo no julgamento.

Vão ler e dizer que escrevo isso porque trabalho para uma empresa com a qual ele tem problema.

Será?

Na Copa América de 2007 Dunga era sorrisos e gentileza e jantava regularmente com profissionais dessa empresa que conhecia dos tempos de atleta. Até a primeira derrota. Então foi preciso encontrar inimigos para utilizar do raso recurso motivacional de nove entre dez profissionais do futebol no Brasil: vamos calar a boca deles, estão contra nós.

Fala-se muito em treinamento, que teria faltado em 2014. Dunga treinava muito em campo reduzido, o chamado treino alemão, mas utilizava a maior parte do tempo para treinamentos de bola parada. Cruzamentos, escanteios, cobranças de falta. Nada fora da cartilha.

Na África do Sul, apesar da vasta experiência em Mundiais, Dunga infringiu regras muito claras da Fifa no que se refere a empresas que compram direitos de transmissão. E tentou forjar uma imagem de independente quando na verdade sabia que estava agindo contra as regras que a sua confederação ajudara a fazer, tendo um vice-presidente da Fifa no comando.

Mas vamos à bola, que é o que interessa. Se não foi espetacular, Dunga tampouco foi um fracasso. Foi de razoável para bom como técnico de seleção. Armou um time de contragolpe e bola parada. Entupiu o meio-campo de volantes, soltou laterais e apostou na habilidade de Robinho e num centroavante. De novo recorro a Cazuza e vejo o futuro repetir o passado quando penso na seleção de Felipão em 2014.

O melhor momento de Dunga foi na fase final das Eliminatórias para a Copa de 2010. O time estava coeso, acreditava na proposta de jogo, era firme. Não por acaso se dava melhor fora de casa, com vitórias convincentes sobre Uruguai e Argentina. A tal proposta do contra-ataque. Mas em alguns jogos no Brasil a coisa enroscava. Faltavam alternativas e criatividade. Houve vaias que não vinham da tribuna de imprensa, mas das arquibancadas.

A vitória na Copa das Confederações escondeu uma série de defeitos apresentados contra times fracos. Na primeira fase, de relevante, venceu a Itália. Ganhou no sufoco do Egito e da África do Sul, e arrancou a fórceps uma vitória de virada sobre os EUA na final.

Quem ousasse afirmar que faltavam alternativas ao time, apesar da vitória, era taxado de inimigo, de espião infiltrado, de não torcer pelo Brasil. A parcela pacheca da crônica esportiva engrossava o coral.

Veio a Copa da África. O Brasil fez 7 pontos na primeira fase, diante de dois adversários fracos e um mediano. Venceu a “poderosa” Coréia do Norte por 2 a 1, fez 3 a 1 sobre a “vitoriosa” Costa do Marfim e empatou sem gols com Portugal. Em 2006, com toda a zona que foi a preparação, o Brasil fez 9 pontos na primeira fase. Em 2014, repetiu a dose de 2010, com 7 pontos. Só para situar.

Em 2006 a seleção atropelou Gana, outro adversário sem tradição, e avançou para as quartas-de-final. Enfrentou o primeiro time de respeito, a França, e voltou para casa. Em 2010 passou pelo Chile, freguês de carteirinha, e nas quartas, enfrentando o primeiro rival com hierarquia, perdeu para a Holanda. Em 2014, suou para tirar o Chile do caminho, passou pela Colômbia sem sobras e foi trucidado pelo primeiro rival importante, a Alemanha.

Ou seja: qualquer que seja o treinador, a história do Brasil nas últimas Copas tem sido muito parecida. Quando enfrenta alguém do mesmo tamanho, dança.

Então porque voltar a Dunga?

Parece-me uma decisão política, acima de tudo. Alguém afinado com os discursos e métodos da CBF. Alguém que criticou abertamente a bagunça de 2006 mas estava no voo da muamba em 1994. Partiria de alguém com esse perfil uma proposta de renovação? Ainda mais capitaneado por um ex-empresário de jogadores?

Alguém sinceramente acredita que Marco Polo Del Nero, próximo presidente da CBF, e José Maria Marin, o atual, queiram renovar o futebol brasileiro?

A fórmula caduca encontrada pelas pessoas que dirigem o futebol brasileiro é sempre a mesma nos momentos de aperto. Fico imaginando uma reunião na sede da CBF, numa luxuosa sala acarpetada, um belo vinho à mesa, serviçais a postos, e alguém puxa uma lista de nomes de campeões mundiais de 1994 e 2002. O Cafu, pelo jeito, não entra nessa lista, já que foi barrado no vestiário do Mineirão após os 7 a 1.

Escolhe-se um campeão mundial e a parcela pacheca da mídia se acalma. Some-se a isso alguém que disfarça rixas pessoais em questões empresariais e cria-se o perfil do falso rebelde.

O resultado é que ninguém discute a doença, fala apenas do remédio escolhido para atacar um dos sintomas. É preciso preservar o lado mais lucrativo, que é o que afeta os resultados da seleção brasileira, de onde sai o grosso do lucro da CBF.

Como analista tenho o dever se seguir sendo isento na avaliação dos trabalhos dos treinadores. Se for bem ou mal, pouco importa se é Dunga, Zangado, Feliz. O que interessa é o trabalho e o que ele deixa.

A pergunta que fica no ar é a seguinte: ganhando ou perdendo a Copa de 2018 (para a qual o Brasil precisará se classificar nas Eliminatórias, lembremos), alguém acredita que com essa turma o futebol brasileiro vai mudar?

Eu não acredito.

Truco!