A vontade do Wil

Leia o post original por Mauro Beting

 

A bola se perde pela linha de fundo. Escanteio.

– André, agora vai ser gol!

Não tem alma viva no estádio que acha que sai alguma coisa boa naquele jogo, com aqueles jogadores, com aquele time.

Mas Wil acredita. Torce. E a bola, claro, não entra.

O irmão caçula André tem 22 anos a menos. Wil tem idade para ser pai dele. E é. Meio pai, meio irmão. Tudo. Principalmente quando nada dá certo para o Palmeiras.

André fica sempre com raiva de Wil.

– Como pode ser tão otimista? Como pode ser tão alegre com essa draga de time?

Wil não se importa com a crítica e a ranhetice do irmão. Ele se importa mesmo com o Palmeiras do pai que morreu com 53 anos, e com quem aprendeu a ser torcedor. Embora poucos torcedores aprendam a torcer tanto e tão bem quanto Wil.

O Palestra Italia todo cornetando como bons palmeirenses que se prezam e que se prestam a cornetar. O Wil acreditando em cada jogo, em todo o time.

– Eu puto com o Palmeiras e mais ainda com ele! Como pode ter tanta esperança naqueles times tão ruins? Mesmo nas vacas gordas da Parmalat, nem sempre dava para vencer. Mas ele acreditava em todas.

Como só o Wil parecia acreditar na virada de 4 a 2 sobre o Flamengo, na Copa do Brasil de 1999. Pareciam 11 Wils em campo, e mais de 30 mil na arquibancada.

Wil de Wilson.

Mas podia ser de Will. Vontade, em inglês.

Goodwill. Boa vontade universal.

O “maior presente” que o irmão caçula André deu a ele foi um ingresso para a final da Libertadores de 1999. Depois de horas na fila para comprá-lo (o que era pouco para quem sofrera 16 anos na fila sem títulos), André pôde dar “o melhor presente que eu ganhei na minha vida”, nas palavras de Wil.

Ao menos até a visita há pouco tempo na Academia do Palmeiras. Wil ainda conseguia andar. Pouco, mas conseguia. Estava perto do campo quando uma bolada de Diogo estourou na grade. O atacante pediu desculpas pelo lance de treino. Wil, como sempre, achou Diogo o máximo. Por ter a mesma humildade e simplicidade desse designer de interiores de 55 anos.

Otimismo que não foi quebrado quando o médico disse há pouco mais de um ano que ele tinha câncer. Um não. Dois.

Ele não quis saber. Nunca. Não quer saber da doença. Só pergunta ao médico, desarmando-o como se fosse um Dudu ou César Sampaio:

– E aí, doutor, já achou a minha cura?

Ele nunca soube que está indo. Sempre acredita. Como sempre crê no Palmeiras:

– Agora vai sair gol!

– Vai nada, Wil! O Palmeiras tá uma inhaca! De que jeito vai sair gol?

Ele não sai mais de casa há algumas semanas. Não se levantava até semana passada, quando o irmão André entrou em contato com Evair. O Matador  que deu a vida ao Palmeiras em 12 de junho de 1993, logo que soube da história, resolveu conhecer Wil.

Foi à casa dele no Cambuci. Wil, que mal conseguia falar, logo levantou para dar um abraço em Evair.

– Deus sabe o que faz. Deu força ao meu irmão.

André mostrou com o irmão a coleção de jornais que ele guarda desde a Academia de Ademir da Guia. Evair até levou um.

As páginas contavam proezas da Via Láctea da Parmalat, desde 1992. Quando o Palmeiras foi vice paulista, na primeira vez em que André chorou no estádio a perda de um título, para o São Paulo.

– Não chora, André. Ano que vem a gente vai ser campeão.

Eram 16 anos de jejum. Acabaram no ano seguinte, em 12 de junho de 1993, como Wil havia “previsto”. André ainda chorou com o Gol Porco de Viola, no primeiro jogo da decisão paulista de 1993. Gritou muito “chora, Viola, imita o porco agora”, no final do jogo decisivo,na revanche dos 4 a 0.

Mas Wil não queria saber de revanche. Talvez nem mesmo de vitória. Apenas de viver simples. Alegre. Com humor. Com amor. Com Palmeiras.

A final de 1999 foi o “melhor presente da vida” de Wil até a visita ao CT um pouco antes da Copa. Quando Diogo prometeu fazer um gol para ele contra o Grêmio.

Ele fez, na Arena. Mas a arbitragem invalidou. Wil lamentou a vitória perdida com a homenagem.

– Bateu na trave – conforta-se André.

Até por que o “melhor presente” que ele recebeu na vida foi a visita em casa de Evair.

Como seria a de São Marcos. Nesta sexta, André me ligou. É jornalista. Havíamos conversado em um evento do PES 2013. Ele queria que eu contatasse o Marcão para fazer uma visitinha ao irmão Wil. O quanto antes:

– Mauro, desculpa te ligar, mas é que acabei de saber que o estado de saúde do meu irmão é terminal. Ele tem pouco tempo de vida.

Liguei pro Juan, assessor do Marcos. Ele estava entrando em contato com o Marcão quando o André me ligou de novo, coisa de 45 minutos depois do primeiro contato:

– Mauro, agradeça ao Marcos por tudo, e pelo vídeo que ele gravaria para o meu irmão, e pela visita que ele faria depois… Mas meu irmão acaba de partir.

Não deu uma hora do primeiro contato.

Wil morreu, aos 55 anos. André tem 34 anos. Entre eles, duas irmãs.

Entre nós, o Palmeiras.

Mais que o Verdão, uma paixão que fez Wil acreditar até quando a bola desconfiava.

Wil que nunca quis saber qual era a doença dele. Como ela estava o levando. Ele sempre levou de vencida. De fato, como escreveu o maestro Totó, é um campeão. Um palmeirense que sempre acreditou:

– Cara, vai sair gol.

Não saía tanto nos últimos tempos, Wil.

Mas, para ele, não importava. Mais importante era acreditar. Era driblar os problemas. Era torcer. Era ser feliz.

Era ter como maior presente a presença no estádio numa decisão. Era ter o maior presente em ver o time treinar na Academia. Era ter o maior presente ganhar um abraço de Evair.

Você que não gosta de futebol, meus sentimentos.

Você que conheceu o Wil, meus sentimentos.

Você que torce por um time, qualquer time, parabéns.

Você é uma pessoa feliz.

Good Will.