Gringo como estímulo*

Leia o post original por Antero Greco

O trabalho está bem no começo, em três jogos foram duas derrotas e uma vitória (os 2 a 0 sobre o Avaí, anteontem, pela Copa do Brasil). Por isso, convém ter cautela para não descer a lenha nem encher a bola de forma precipitada. Mas vale saudar a presença de Ricardo Gareca na direção do Palmeiras, por aquilo que representa de novidade e por eventuais desdobramentos que a experiência possa trazer para o futebol destas bandas.

O argentino não faz parte do Olimpo da profissão – os mais badalados, todos estamos carecas de saber – têm vínculo com equipes ou seleções europeias. Mesmo assim, ganhou destaque e respeito por trabalho decente e eficiente no país dele, sobretudo com o Vélez Sársfield. O Palmeiras foi buscá-lo como alternativa, diante do marasmo do mercado local e para escapar da ciranda dos altos salários pagos para nossos professores. No mínimo se trata de aposta no diferente.

O material que Gareca têm à disposição não é dos melhores. O palestrino há de convir que o elenco do centenário fica anos-luz dos momentos gloriosos do clube. Faltam craques, ídolos pra valer, não estrelas de brilho intermitente como Valdivia, que perambula por aí, no vai não vai para a Arábia.

Mesmo assim, se nota mudança de postura na maneira de o time atuar. O Palmeiras elabora jogadas com mais coordenação, controla a ansiedade. Comporta-se com altivez. Na prática, o treinador já acenou com a perspectiva de colocar três atacantes, a depender da situação, e a desanuviar o meio-campo de volantes – opção ao gosto dos antecessores Felipão e Kleina.

A defesa carece de laterais, Fábio dá conta do recado no gol, à espera do retorno de Fernando Prass. Não é Palmeiras para título no Brasileiro, o torcedor fará bem se tirar isso da cabeça. Em compensação, não precisa abandonar o sonho de outra Copa do Brasil.

Tomara a aventura dê certo e Gareca se firme por aqui. Intercâmbio com vizinhos de talento, como os argentinos, sempre acrescenta – e, nessa linha, que vinguem Tobio, Mouche, Allione, compatriotas que recrutou para ajudá-lo na tarefa. Quem sabe se, com o sucesso de um estrangeiro, os técnicos daqui não se sacudam e mostrem que, com desafios, também se superam? O Brasil necessita de sangue e ideias novas, para reencontrar o rumo.

Vespeiro. Bastou o Corinthians fazer um jogo no meio da semana, com início às 22 horas, no Itaquerão, para desencadear campanha para estender o horário de funcionamento de linhas de metrô e trens da cidade. A alegação, justa, é a de que o público sofre para ir embora e não lhe restam saídas: ou deixa o estádio antes do fim do jogo ou corre risco de ir a pé para casa.

O problema é manjado, velho pra chuchu, quem frequenta Pacaembu, Morumbi, Canindé, o antigo Parque Antártica convive com o drama há anos. Se houvesse interesse, bastava conversar com eles. Agora parece que descobriram a América! E, se o metrô trabalhar até mais tarde, será sempre ou só para o Itaquerão? Se beneficiar a todos, vá lá. Se atender a exigência de uma torcida, soará como protecionismo e demagogia.

A discussão está com foco errado, parece perfumaria. O entrave não está no metrô, mas no horário das partidas: qualquer pessoa com bom senso reconhece que 10 da noite é muito tarde. A solução prosaica consistiria em antecipar para as 9, como foi durante décadas. Daí surge a questão: interessa para a tevê? Quem se arrisca a mexer nesse vespeiro?

Ah, é?! Marco Polo Del Nero disse, em entrevista ao portal UOL, que a contratação de Dunga contou com apoio de José Maria Marin, porque fez “belíssimo” trabalho em 2010. E também é uma oportunidade para corrigir erro, pois o técnico da seleção foi humilhado na ocasião. Por que Marin/Del Nero não o contrataram para substituir Mano e foram atrás de Felipão? Perderam tempo.

*(Minha crônica publicada no Estado de hoje, sexta-feira, dia 25/7/2014.)