De ponta-cabeça*

Leia o post original por Antero Greco

Pessoal, veja só que coisa espetacular: Corinthians x Palmeiras, o duelo mais tradicional do futebol de São Paulo, uma das maiores rivalidades do Brasil, das Américas, do mundo, pela primeira vez será disputado no Itaquerão, erguido para a Copa e agora alternativa moderna para o esporte. Estádio bonito, alinhado, o “palácio de mármore” como enchem a boca os alvinegros para definir a nova casa. Um local para jogadores, torcedores, imprensa se sentirem valorizados e não tratados como gado, como refugo. Momento de guinada, portanto.

Mas o noticiário desde a antevéspera do clássico se concentra nos riscos de choques de estúpidos dos dois lados e menos na festa, no duelo dentro de campo entre uma equipe que trata de encostar na liderança (Corinthians) e outra que tenta reencontrar o rumo e subir (Palmeiras). Em vez de falarmos do que Mano e Gareca prepararam para surpreender, nos fixamos nas ameaças dos mesmos de sempre de aprontarem arruaça no metrô, nos arredores, dentro do estádio. Damos menos importância a Elias e a Henrique e demasiada ao que dizem pessoas que amam mais as facções que representam do que clubes tradicionais dos quais supostamente são fãs.

Quando a expectativa que se cria em torno de um jogo quase centenário fica em segundo plano, algo está muito errado. Não faz sentido, numa democracia estável, a tirania imposta pela violência organizada que pode frequentar praças esportivas livremente, enquanto o torcedor “comum” fica com alternativas constrangedoras: ou se arrisca a frequentar a arquibancada e levar bordoada sem saber por que ou se refugia em casa, com raiva daqueles que suprimem a liberdade dele de curtir futebol. Difícil escolher qual opção é pior.

A insanidade não tem limite. A torcida minoritária – no caso, a palmeirense – ameaçou ir de metrô até ter atendido o pedido de trem especial. A polícia devolveu com a ameaça de não fazer escolta. E ainda houve sugestão de que não se usasse a cor verde, diante da perspectiva de confusão. Isso é maneira sutil de o Estado admitir a incapacidade de garantir a segurança. E, ainda, sinal do fascismo que prevalece entre esses grupos, a ponto de não tolerarem a diversidade. Não demora e chegaremos, como em alguns lugares, aos grandes jogos com torcida única.

A coisa é tão maluca que também enveredei por essa discussão e quase não falei do que vale, o jogo. E tem muito para ser outra página vibrante de um campeonato particular entre as duas equipes. Só palestrinos e corintianos entendem, no fundo da alma, o que significa sair vencedor do confronto. No capítulo deste domingo, o atrativo adicional se concentra justamente no Itaquerão: imagine a felicidade alvinegra de bater o rival no palacete recentemente inaugurado? E a vibração alviverde se, logo na primeira vez, carimbarem as redes com gols e vitória?

O Corinthians está melhor. Não é diferença insuperável, porém significativa. Mano aproveitou bem a pausa para o Mundial e moldou esquema que tem funcionado. Elias já se sente à vontade, Jadson (hoje fora) voltou a reger o meio-campo e Angel Romero aos poucos ganha espaço. O Palmeiras, um pouco abaixo, tem progredido com o técnico argentino. Gareca busca as peças adequadas para o elenco modesto e conseguiu progressos, na derrota para o Cruzeiro (Série A) e na vitória diante do Avaí (Copa do Brasil). A tendência é de crescimento.

Ingredientes para jogo agitado.

Devo, não nego… Os clubes voltam a bater na porta do governo federal para pedir água – no caso, nova rolagem da dívida bilionária que têm sobretudo com órgãos públicos. Reconhecem que houve erros, prometem agir na ponta do lápis a partir de agora. Mas, para tanto, necessitam que débitos antigos sejam pagos em suaves prestações, a perder de vista. Filme repetidíssimo, com roteiro idêntico. E o déficit sempre a crescer…

*(Minha crônica publicada no Estado de hoje, domingo, dia 27/7/2014.)