Futebol feminino adere ao Bom Senso e vai à luta por melhorias

Leia o post original por blogdoboleiro

O futebol feminino vai à luta. Logo depois da Copa do Mundo, via redes sociais, atletas como Cristiane e Mayara Bordin publicaram textos e fotos aderindo à campanha “Democracia na CBF Já”. O movimento cresceu e mostra adesão das jogadoras.

A meio-campista Mayara, que retornou recentemente do futebol sueco, escreveu no perfil dela no Twitter:  “Orgulho delas é pouco! Sim, temos atitude, temos coragem, temos iniciativa, temos paixão, temos coração! E pra quem acha que para por aqui, cada vez mais descobrimos que nossa união é um dos presentes que essa causa nos deu. E daqui pra frente a atitude de lutar pelos nossos direitos, sem esquecer dos nossos deveres…. Continua!”

Elas decidiram acompanhar o Bom Senso FC, depois de duas reuniões realizadas em São Paulo. Acham que é possível colocar as necessidades da modalidade dentro das três reivindicações principais dos homens: fair play financeiro, democratização do futebol e um plano de desenvolvimento.

A zagueira Aline Pellegrino, que já não compete em alto nível, mas é uma das lideranças entre as atletas, participou das reuniões. “A gente achou que as carências do futebol feminino podem ser atendidas neste três pontos. Especialmente o plano de desenvolvimento que será implantado a longo prazo, mas é necessário”.

Mayara garante que não se trata de buscar o confronto. “Queremos ser ouvidas e mostrar as necessidades para que a modalidade possa crescer”, afirmou ao Blog do Boleiro.

De 2004 para cá, o futebol feminino deu ao Brasil duas medalhas de prata olímpicas, dois vice-campeonatos mundiais, dois ouros pan-americanos e domina a América do Sul. Marta é considerada uma das melhores jogadoras do mundo, ganhando o troféu de melhor do planeta de 2006 a 2010. Cristiane ficou entre as três melhores do mundo em duas ocasiões.

Um desempenho deste dá a impressão que o futebol feminino no Brasil é uma modalidade organizada, orgânica, em franco desenvolvimento. Não é. Seguindo os cálculos da Aline, “90% das jogadoras não têm contrato, jogam sem garantia médica, sem nenhuma segurança, embora treinem em alto nível, duas vezes por dia".    

O cenário mais otimista seria o de times de meninas com a camisa, apoio e organização dos clubes do futebol masculino. Mas esta realidade já se mostrou instável. O Corinthians já teve uma equipe forte, mas chegou à conclusão que o investimento não dava retorno. Terminou o projeto em duas temporadas. O Vasco da Gama abre e fecha times, embora ainda seja um dos clubes que tenta mais.

Mas a meninas da bola sabem que atrair clubes de massa é ainda uma realidade distante. “E não adianta baixar uma lei dizendo que é obrigatório os clubes montarem equipes femininas. Isso não vai acontecer”, constata Aline.

Em 2004, depois que o Brasil conquistou a medalha de prata nos Jogos Olímpicos de Atenas, na Grécia, as jogadoras achavam que era preciso ter campeonatos e que isso daria o desenvolvimento necessário. Hoje, a CBF organiza a Copa do Brasil e o Campeonato Brasileiro.

Os estaduais também são disputados e já há até uma Copa Libertadores da América. A questão agora é outra: trata-se de fortalecer o esporte com criação de divisões e investimento na formação de atletas.

“Em São Paulo, por exemplo, dos 16 times que disputam o estadual, seis não tem condições por vários motivos, um deles até por não poder treinar em dois períodos. Aí a equipe do Centro Olímpico enfrenta um deles e vence por 15 a 0. Isso passa uma impressão errada da qualidade do futebol feminino. Temos grandes jogos, quando São José e o Centro Olímpico se enfrentam, por exemplo. Por isso, é importante criar uma 2ª Divisão, equilibrar as competições. Assim podemos atrair patrocinadores”, disse Aline.

Não é apenas a seleção masculina adulta que terá competições importantes pela frente, como as eliminatórias da Copa do Mundo, a Copa América em 2015 e os Jogos Olímpicos em 2016.

O feminino também tem trabalho duro pela frente. A seleção brasileira Sub-20 disputa nos próximos dias o Mundial no Canadá. Em setembro, o time adulto tenta uma vaga no Mundial, jogando a Copa América em setembro no Equador. Se tudo der certo, em 2015, Marta, Cristiane, Érika, Mayara e outras estrelas do gramado vão brigar pelo ouro no Mundial do Canadá. No mesmo país, elas terão os Jogos Pan-Americanos. E depois, em 2016, a Olímpiada no Rio.

Quando foi apresentado como coordenador de seleções da CBF, o ex-goleiro Gilmar Rinaldi ouviu que a seleção feminina estará sob o comando dele. Mas o novo dirigente sabe que cuidar do time masculino já é problema para se tratar quase que em tempo integral.

Por isso, Rinaldi deve chamar lideranças do futebol feminino para conversar. O foco principal é saber como trabalhar a seleção feminina que já tem treinador, Vadão. Uma reunião deve acontecer na sede da CBF nos próximos dias. Dela, talvez saia um grupo de coordenação formado pelas meninas que já jogaram, caso da Aline Pellegrino ou mesmo Juliana Cabral, hoje comentarista da Rádio Globo.