Inferno astral verde*

Leia o post original por Antero Greco

Impossível entender o Palmeiras, a não ser por perspectiva desprovida de lógica. Usar métodos racionais é quebrar a cara e chover no molhado. No meio da semana, jogou bem, na Copa do Brasil, ganhou e deu ponta de esperança para o torcedor. Desfez o esboço de otimismo na derrota de ontem para o Corinthians. Caiu por 2 a 0 sem provocar cócegas no adversário, que em nenhum momento se sentiu acuado no primeiro dérbi em casa.

A turma de Mano Menezes ganhou sem sufoco e com atuação normal. O suficiente para retomar a vice-liderança isolada e não deixar o Cruzeiro escapar de vista. Para tanto, contou com esquema ajustado e com a colaboração de rival quase centenário que se comportou como convidado dócil na visita que fez ao Itaquerão.

O clássico ficou aquém do esperado, abaixo da tradição. Merecerá lembrança pelo ineditismo no estádio alvinegro. Caso contrário, passaria batido, como tantos outros na história recente. O primeiro tempo foi monótono, truncado, com cautela excessiva de cá e de lá. E, de quebra, com o árbitro Sandro Meira Ricci a ignorar faltas ou a enxergá-las onde não havia.

O Corinthians indicou a tendência para a segunda etapa, antes do intervalo, com dois chutes e uma cabeçada mais perigosas. Dito e feito. Não demorou muito, na volta do descanso, para ficar em vantagem, com Guerrero. O gol de Petros, já no finalzinho, apenas confirmou a superioridade. Para vencer, dessa vez não precisou nem do talismã Romarinho, que entrou no lugar de Romero e quase não apareceu.

O Palmeiras criou sabe quantas chances para empatar? Zero. Nenhum chute certo ao gol de Cássio, que saiu com o uniforme limpinho, pronto para ser dobrado e guardado. Bom para economizar água, que está em falta.

Um mérito houve para a rapaziada de Ricardo Gareca: esforçou-se por tocar a bola, não afobar-se nem dar chutões. Mas carece de qualidade, inteligência, habilidade. Em resumo, é um time frágil; por isso mesmo, continuará a iludir e a decepcionar o torcedor.

Com sete derrotas em 12 rodadas, o Palmeiras revela vocação para afundar. Com tal ritmo, logo estará a brigar para não carimbar vaga para a Série B pela terceira vez. Um fantasma conhecido ronda o clube, no inferno astral antes do aniversário (dia 26).

Escrevi, dias atrás, que era cedo para espinafrar ou encher a bola do treinador. Começo a ficar com pena do argentino, que amarga três derrotas seguidas na Série A. Com essa toada, se demorar muito pra acertar o rumo ele pede o boné, antes que lho entreguem.

Serena a situação do Corinthians. Não joga o fino, não deslumbra – e é assim desde a primeira passagem de Mano, continuou com Tite e voltou à origem, novamente com Mano. Compensa com eficiência e sistema defensivo correto (seis gols sofridos, apenas). Poderia ter vocação maior para o ataque (15 gols a favor). Pedido complicado para ser atendido. Nos acostumamos por aqui com a parcimônia na artilharia. O Cruzeiro é exceção e não à toa paira acima dos demais.

Volta indigesta. Kaká reestreou no São Paulo, depois de uma década a girar pelo mundo. Até fez bem a parte dele, ao cobrar uma infinidade de escanteios, a apresentar-se para finalizações e ao marcar um gol. Dedicação insuficiente para evitar a derrota por 2 a 1 para o Goiás, no Serra Dourada (antes, um modelo de estádio, hoje um trambolho em comparação com as construções moderníssimas). Se serve de consolo ao Tricolor, pode dar samba a parceria com Ganso. Sempre bom ter no mesmo grupo dois jogadores talentosos, que fogem ao lugar-comum na criação. A contrapartida foi o desempenho apagado de Alan Kardec.

Na miúda. O Sport não tem badalação por estas bandas. Porém, sem alarde faz trajetória bacana no Brasileiro. Ao bater o Atlético-MG, chegou ao 5º lugar e é o fato diferente no torneio. E o Galo se prepara para a saída de Ronaldinho Gaúcho.

*(Minha crônica publicada no Estado de hoje, segunda-feira, dia 28/7/2014.)