Turma da frente e turma do fundão

Leia o post original por Mauricio Noriega

No meu tempo de escola era comum que as classes fossem divididas entre turma da frente e turma do fundão.

Para os professores a turma da frente era formada pelos bons alunos, que se interessavam pelas aulas. No fundão sentavam os maloqueiros, que optavam pela bagunça.

Havia também a turma do meio, que trafegava entre as outras duas conforme o interesse.

O Campeonato Brasileiro também pode ser definido desta forma, com a licença poética de recordar os tempos da aurora de nossas vidas.

A turma da frente, aquela que constantemente deve disputar título e vaga na Libertadores parece estar caminhando para se tornar uma turma de elite.

Cruzeiro, Corinthians, Internacional e Fluminense formam, hoje, o pelotão de frente.

Ao que tudo indica, parecem ser os candidatos mais fortes ao título. Têm elenco, bons treinadores, jogadores decisivos e avançaram na busca por um padrão de jogo.

O Cruzeiro caminha a passos largos para desbancar Palmeiras e Vasco da posição de grandes forças populares e se instalar ao lado de Flamengo, Corinthians e São Paulo neste patamar. Tecnicamente, sempre foi dos gigantes nacionais.

Embora não vença o Nacional há muito tempo, o Inter é sempre candidato e ganhou muita coisa desde que se reinventou, a partir de 2003. O mesmo vale para o Corinthians, que aprendeu com a queda em 2007 e voltou ainda mais forte. O Flu é um ponto fora da curva porque, ao que se sabe, tem um futebol terceirizado que vem dando certo. Enquanto a patrocinadora for forte, o time será forte.

A turma do meio é numerosa.

Santos, São Paulo, Grêmio e Atlético Mineiro parecem seduzidos pelas primeiras filas, mas ainda lhes falta qualidade para dar o pulo.

Para uns faltam jogadores em posições-chave, para outras falta jogo coletivo, sistema tática definido, boas ideias.

O Santos ainda busca regularidade. O São Paulo procura uma forma de jogar, ainda não existe como estrutura coletiva e tem feito muitas apostas, altas, em jogadores que não respondem. Ao Grêmio faltam jogadores importantes em posições decisivas, como volantes mais capacitados. O Galo ainda vive a era de remodelação pós-Libertadores.

Claro que não se pode esquecer alunos que costumam sentar no fundão mas ousam buscar uma vaguinha lá na frente. Notadamente Sport e Goiás, com belas campanhas, ainda que sem muitos recursos. O Atlético Paranaense também figura nessa lista.

Existe uma classe de times que sempre viveu sentada na primeira fila mas parece ter caído no conto do fundão. Palmeiras, Flamengo e Botafogo estão ali. Não se contentam com o meio, por causa do passado importante, mas afundam sucessivamente em meio a péssimas administrações. Vivem hoje entre conquistas esporádicas, rebaixamentos ou luta para fugir de rebaixamentos, dívidas astronômicas e uma sucessão de dirigentes incapacitados.

O Flamengo insiste em acreditar que será salvo sempre pela força de sua torcida e de sua camisa, repetindo erros históricos. O Botafogo ensaia projetos de reconstrução que não se sustentam e soa refém da depressão de parte de sua torcida. O Palmeiras ofende seu passado com times pavorosos e dirigentes anacrônicos, independentemente de suas idades. Os três parecem fadados a sentar no fundo por um bom tempo até aprenderem suas lições.

Existe aquele pessoal da turma do fundão que luta com todas as forças para sair dessa situação, mas em condição desigual. Os catarinenses, os baianos e o Coxa. Times que não contam com os recursos financeiros dos grandes, resistem bravamente mas vivem numa eterna gangorra.

Aguardemos a sequência de jogos para ver como ficará a configuração da sala de aula.