Lá vem o STJD

Leia o post original por Antero Greco

Começa a virar rotina. Quando a gente pensa que o Brasileiro vai engrenar, que as disputas ficarão quentes dentro de campo, que o torcedor estará ligado nas aventuras das respectivas equipes, desponta o STJD com intervenções mirabolantes. A mais recente do tribunal é denunciar Corinthians e Palmeiras por causa das cadeiras quebradas domingo, no clássico que ambos disputaram no Itaquerão. Os clubes foram incluídos no artigo 213 do Código de Justiça Desportiva, que prevê perda de até dez mandos de jogo para quem não garantir segurança no estádio.

A ação dos cretinos que foram à novíssima casa alvinegra a fim de provocar dano será sempre condenada por qualquer pessoa de bom senso, equilíbrio e educação. Lá ou em qualquer outra praça esportiva, recém-inaugurada ou com 100 anos de idade. Atitudes como essa mostram apenas maldade e incivilidade – e, infelizmente, ocorrem sempre, como se fossem a coisa mais normal do mundo.

Mas aí a porca torce o rabo. Atos semelhantes são relatados toda semana, e raras vezes – para não cometer a injustiça de escrever nunca – há algum tipo de represália, nem de tribunais esportivos ou comuns, muito menos de federações e clubes. No próprio estádio de Itaquera, após o jogo inaugural entre Corinthians e Figueirense, foram computados 74 assentos estragados – 55 nas áreas das organizadas do mandante e 19 em outros setores. O clube lamentou o comportamento de fãs exaltados com a derrota por 1 a 0, repôs o material, bancou o prejuízo e vida que segue. Onde estava o STJD na ocasião? Preparava-se para ver o Mundial?

Agora a situação é muito parecida, com banquinhos rotos (alguns) na parte em que ficaram simpatizantes corintianos e na dos visitantes (mais de 250, e supostamente de forma deliberada). Vandalismo nojento. Mas por que a manifestação retumbante do STJD, com os riscos tremendos que eventual punição acarretará para um e outro?

Em defesa de Corinthians e Palmeiras pode alegar-se que os objetos danificados não foram consequência de brigas entre torcedores. Não houve confrontos entre os grupelhos manjados. Nesse aspecto, até que funcionou o esquema montado pela PM. Tudo não passou de grosseria, pirraça, gesto de miolos moles que infestam as arquibancadas. Alguns idolatram a idiotice a ponto de postarem fotos e comentários nas redes sociais. Abestalhados.

As diretorias entraram em acordo horas depois, e o Palmeiras comprometeu-se a reembolsar os gastos. Fim de papo, pelo menos no que se refere ao relacionamento da cartolagem. O ato seguinte deveria ser a identificação dos malandros, meter a mão no bolso deles, fora o processo adequado na Justiça. Na hora em que esses covardes sentirem o peso das bobagens que fazem talvez aprendem a ser civilizados.

Para tanto existem recursos suficientes para combater a praga. Onde entram os equipamentos de controle, as câmeras e outras bossas que a todo momento se prometem pôr em ação, mas nunca funcionam? O Corinthians investe – ou recebeu empréstimos – mais de R$ 1 bilhão para erguer o Itaquerão e não pode empatar alguns poucos milhares para bancar um sistema de vigilância? E a PM e a FPF não exigem?

Muito justo que os clubes assumam cada vez mais responsabilidade pelos espetáculos que organizam. Mas, nesse caso específico, há zelo desproporcional. Digamos, porém, que ao tomar essa medida o STJD sinalize intenção de combater todo indício de violência. Bonito, desde que tenha tenacidade, constância e persistência. A médio prazo ou enquadra as torcidas, sobretudo as organizadas, ou logo não haverá um time jogando em casa. Se o tribunal levar a iniciativa a sério, tendo a apostar mais na segunda hipótese.

Museu capenga. A CBF abre museu sem previsão de mostrar imagens da participação da seleção na Copa-14. Boicota a História, como se assim pudesse apagá-la. Tolice.

*(Minha crônica publicada no Estado de hoje, sexta-feira, 1/8/2014.)