A partida do Agripino

Leia o post original por Mauro Beting

Começa o mês de aniversário de 100 anos do clube do pai do meu amigo Lucas. Colega da mãe dos meus filhos, faz tempo que não o vejo por essas coisas de vida. Separação que divide amigos. Uma pena. Mas faz parte da vida. Como da minha vida sempre faz o Lucas, a Sumika, o Bruno e o Pablo. Foi na casa dele que vi o Marcão fechar o gol contra a Bélgica, na Copa de 2002. Foi lá que sempre comi muito bem. Sempre me diverti bastante.

Conheci o pai do Lucas na casa do meu pai. Numa das tantas festas celebrando nosso time e nossas conquistas nos anos 90.

Ali tinham centenas de pessoas que só tinham algo em comum. A nossa incomum paixão pelo nosso time.

Tamanho amor que fez Agripino, pai do Lucas, morar naquele prédio atrás das piscinas do Palestra. Ao lado do fim da ferradura da arquibancada. Aquele que virava uma árvore de Natal em jogo do Palmeiras transmitido pela TV. Para não dizer que todo dia é Natal quando joga nosso time.

Não sei como ele estava nos últimos anos. Acho que ainda morava lá. Mas imagino, como meus primos que também ali moram, que desde 2010 não é a mesma coisa. Não tem mais jogo no Palestra. E, em breve, quando reabrir, não vai dar mais para ver as partidas pela janela.

Isso é nada perto do que meu amigo Lucas não vai mais ver depois da partida do pai.

Mas, para Agripino e vizinhos, para palestrinos e não palmeirenses, a vida é assim. Separa. Sobe muro. Perde a visão.

Mas a essência continua. Meu amigo Lucas, hoje não posso te abraçar por passar a tarde com meu filho Luca, na casa da minha mulher Silvana. Hoje, dê ao pai um último abraço palmeirense. De filho para pai. Com o mesmo amor de pai para filho, de Palmeiras para filho, que ele te ensinou.

Diga a ele que o nosso time venceu o troféu Julinho Botelho. A Copa Euroamericana. Sei que parece nada. É não é muito mesmo. Mas teve festinha no Pacaembu. Teve título. Teve Palmeiras.

Eu estava lá com meu caçula, minha mulher, minha nova filhota. Foi o primeiro título da nova família.

Foi o último do seu pai que foi campeão do século XX. Ele é
eterno. Como nosso time. Como a nossa paixão.

Mesmo se não tivesse taça, erga sempre um brinde a ele. Daqueles vinhos ótimos que você tem. Com esse coração verde que vocês têm. Faça sempre festa. Ele merece.

Ele partiu. Mas deu ao filho e amigos dele o assunto de sempre.

– E nosso time, hein? Será que vai?

Pra onde, não sei.

Mas sei que tudo que sei de vida e amizade eu devo ao meu time.