É bom imaginar*

Leia o post original por Antero Greco

A gente vive com tanta pressa, com enorme e interminável volume de informações a desabar sobre nossos olhos, com busca incessante de novidades, com cliques frenéticos que resta pouco tempo para contemplação, para nos debruçarmos sobre a história e nos deliciarmos com proezas do futebol.

Por exemplo: ontem, completaram-se 55 anos do “gol mais bonito” dos mil e tantos que Pelé marcou na carreira. Foi contra o Juventus, na Rua Javari, pelo Paulistão de 1959, que na época se chamava Divisão Especial, os times não tinham patrocinadores, jogavam com uniformes que os consagraram – branco, os santistas, e grená, os juventinos – e a numeração dos atletas ia do 1 ao 11! Veja só que coisa antiquada e sem graça!

Pois bem. Salvo engano, o Santos vencia por 3 a 0 e a torcida do Moleque Travesso pegou no pé do Rei porque, numa dividida, havia quebrado Pando, do time da casa. Pelé se irritou com as vaias e, embora já tivesse feito dois gols, num determinado momento saiu a distribuir chapéus em quem vinha pela frente. Três, no total, incluído um no goleiro Mão de Onça, antes de completar o lance genial com uma cabeçada.

Quem me lembrou da efeméride foi o Roberto Salim, repórter mais admirável e incansável com quem tenho a honra de trabalhar (e sobretudo de aprender) há décadas. Um mestre do jornalismo, veterano com espírito de menino e pique que muitos iniciantes não têm. Não existe uma reportagem sequer em que se meteu e que não virou obra-prima de precisão, arte, sensibilidade e sabedoria. Um Pelé das notícias.

Bom chega de confete, e voltemos ao que interessa. Não constam, nos arquivos de tevês, vivas ou mortas, filmagens desse gol antológico. Vai ver se perderam nos incêndios que, nos anos 60 e 70, destruíram cenários e acervos das emissoras. Há uma foto do instante em que Pelé cabeceia para o gol, reproduzida a três por quatro. Justo.

Nessa lacuna mora o fascínio do episódio há meio século. O fato ficou na memória, mais precisamente na imaginação, de quem o acompanhou ao vivo. Eis aspecto que lhe dá importância superlativa e torna especial o testemunho dos felizardos que na tarde de 2 de agosto foram ao Conde Rodolfo Crespi, na Mooca. Ou dizem que foram.

As pessoas se deram conta do encanto daquele evento à medida que aumentava a distância no espaço e que não se encontravam filmes para mostrá-lo e repeti-lo ao mundo. Cada uma tomou para si a honra de contar, com riqueza de detalhes, tintim por tintim, cada passada de Pelé até a bola dormir na rede do gol do fundo, que dava para o antigo cotonifício da família Crespi. Não por acaso se diz que uns 70 mil estiveram no estádio, cuja capacidade, com boa vontade, não extrapola 5 mil.

Sobram exageros e ficção nos depoimentos – e isso é extraordinário. Note que lindo, numa época em que câmeras vigiam nossa sombra, em que até pensamentos “caem na rede”, termos de recorrer a relatos orais daquela aventura. Equivale ao deslumbramento que gerações e gerações de gregos, na Antiguidade, sentiam ao ouvir os rapsodos entoarem o enredo da Ilíada e da Odisseia, com acréscimos aqui e ali. Ou os nossos cantadores de cordel a recordarem artimanhas de heróis e mitos do sertão.

Nos acostumamos com filmagens como fonte de conhecimento ou prazer. Qualquer fato do cotidiano, anormal ou banal, nos remete aos youtubes da vida. Se não encontramos nada, vêm a dúvida e a frustração. Crentes, agnósticos ou ateus, todos somos São Tomé, que só acreditou no Cristo ressuscitado ao tocá-lo. Não lhe bastaram a fé e o entusiasmo dos companheiros.

Pois precisamos da imaginação, do sonho, da invenção como contrapontos à realidade. Temos crueza demais na vida real. Por isso, me nego a ver a recriação computadorizada do gol. Pra quê? Ele é lindo demais justamente porque está na memória afetiva de cada um. Quero fechar os olhos e ter a minha versão. E, se bobear, também direi que estava na Javari. Eu tinha cinco anos, ué.

*(Minha crônica publicada no Estado de hoje, domingo, dia 3/8/2014.)