Mexer pra quê?

Leia o post original por Antero Greco

A ex-comissão técnica da seleção tentou convencer o torcedor, um dia depois da espinafrada de 7 a 1 para a Alemanha, que o episódio em Belo Horizonte era algo isolado. Não havia motivos para preocupação; só para um pouco de chateação, e ainda assim com moderação. No mais, o futebol brasileiro continuava firme e forte, sem dever coisa alguma a ninguém.

Pelo visto, a explanação de Felipão e Parreira, porta-vozes daquele grupo, foi levada a sério. Três semanas depois do encerramento, parece que a Copa não provocou trauma; por isso, tocamos a bola por aqui da mesma e monótona maneira de antes. Abalo? Ora, tudo voltou ao normal?

A prova de conformismo, engano (próprio e do público), cabresto mental e estreiteza de ideias está na Série A. O campeonato mantém toada chinfrim, exceção ao líder Cruzeiro, único a tentar algo diferente. Quem teve a paciência de assistir aos jogos do final de semana – e vi a maioria, por vício e dever profissional – teve de tomar calmante, relaxante muscular para aguentar a provação. Deu vontade de tacar o controle remoto. Quanta partida ruim!

Novidade só nos uniformes e nos apetrechos. Não passa dia sem que uma equipe não mostre a versão diferente das camisas para a temporada. E sempre com explicações mirabolantes para convencer o incauto de que deve gastar pelo menos 200 reais no modelito. Fabricantes de chuteiras também capricham no design, nas combinações de cores – prosaica chuteira preta é raridade –, e em materiais cientificamente provados. Poderiam inventar uma que chutasse, certo, pelo atleta.

Para não ir longe e concentrar no umbigo, servem os paulistas como exemplo. No início da noite de sábado, o São Paulo aumentou a coleção de resultados decepcionantes no empate por 1 a 1 com o Criciúma, para mais de 45 mil espectadores no Morumbi. Ganhou um ponto nas últimas três rodadas, fora a sensação de que pode ir muito além, porém emperra. Ou porque o esquema não deslancha ou porque há titulares que travam. Não dá para usar como desculpa dizer que Rogério Ceni falhou.

O pior ficou para a tarde de ontem. O Corinthians foi a Curitiba com a missão de manter série invicta (então em nove jogos) e, sobretudo, com a intenção de voltar com vitória que o faria encostar no Cruzeiro (29 pontos). Não aconteceu nem uma coisa nem outra. Mano Menezes e rapazes embolsaram só um ponto (foram para 24), numa pelada fraca, insossa, que desencadeou sentimentos opostos: no primeiro tempo, deu sono, por arrastar-se como digestão depois de churrasco. No segundo, deu é uma tremenda raiva.

O Corinthians conseguiu passar praticamente o jogo todo sem criar situações de gol. Não digo aqueles chutes protocolares que saem em qualquer bate-bola. Falo de lances articulados, elaborados, pensados, ensaiados. Nem pensar. Só toques exaustivos, passes errados, opção clara pelo empate. Não vale alegar que o recuo foi estratégia necessária após a expulsão de Fagner, aos 16 da etapa final. A opção foi essa desde o início. Mais inquietante: o Corinthians é um dos grandes candidatos ao título!

E o Palmeiras? Outra lástima. Entrou no mês do centenário com a marca de sete jogos sem vencer no Brasileiro. Não saiu da lama nem diante do Bahia, igualmente frustrante. O técnico Ricardo Gareca apresentou a sexta formação diferente em seis apresentações, corre para encontrar a escalação ideal e daqui a pouco vai se descabelar.

O time é fraco, limitado, não tem quem desequilibre a favor, só contra. O que esperar de uma equipe na qual Wesley tem a tarefa de criar? Leandro, a de fazer gols? Lúcio e Marcelo Oliveira, de fechar a área? Daí, o treinador troca Wendell por Weldinho, Felipe Luís por Patrick Vieira, Mouche por Mendieta. O 1 a 1 mereceu vaias da torcida, cada vez mais com medo de nova Série B…

Mas vai tudo bem, obrigado. Chato foi ver 109 mil pagarem ingresso para ver o amistoso Real Madrid x Manchester, no sábado, nos EUA.

*(Minha crônica publicada no Estado de hoje, segunda-feira, dia 4/8/2014.)